Texto: Fabiane Humildes / Secom PMS
Foto: Jefferson Peixoto / Secom PMS
A Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal da Educação (Smed) e da Coordenadoria de Educação para as Relações Étnico-Raciais e Diversidade (Cerd), promove o projeto Bienal nas Escolas, iniciativa que leva autores da literatura para dentro das escolas da rede municipal. A ação, realizada após a edição 2026 da Bienal do Livro Bahia, busca ampliar o contato dos estudantes com a literatura de forma direta, lúdica e descontraída.
O primeiro encontro aconteceu nesta terça-feira (25), às 14h, na Escola Municipal Mourão Sá, em Paripe, com a participação da escritora, professora e arte-educadora Regina Luz. Autora de obras voltadas para o público infantil, com temáticas relacionadas à ancestralidade, identidade e protagonismo negro, Regina conversou com as crianças sobre o livro “Meu Sonho, Cor do Luar”.
Para Cintia Azevedo, integrante da equipe da Cerd, a presença dos escritores nas escolas proporciona uma experiência que vai além da leitura das obras. “A importância é realmente o contato com o autor. Eles pegam o livro, leem, veem as imagens e o texto, mas muitas vezes nunca tiveram a oportunidade de interagir diretamente com quem escreveu. Como Secretaria Municipal de Educação, temos muito essa preocupação de valorizar e promover eventos que aproximem o aluno desse mundo”, destacou.
Segundo Cintia, a iniciativa também contribui para democratizar o acesso à literatura, principalmente entre estudantes que nem sempre têm contato com livros fora do ambiente escolar. “Às vezes, os pais não são leitores, então o acesso fica mais difícil, eles vão pouco às livrarias e, por isso, em todos esses eventos literários, a gente tenta trazer o máximo possível para os estudantes”, afirmou.
Legado – A Bienal do Livro Bahia é realizada a cada dois anos em Salvador. Para a organização do evento, levar a programação para dentro das escolas é uma forma de ampliar o alcance da iniciativa e garantir que estudantes de diferentes regiões da cidade tenham contato com autores e obras literárias.
De acordo com Guilherme Pecly, gerente da Bienal do Livro Bahia, o projeto foi estruturado para trabalhar com os alunos antes, durante e depois do encontro com os escritores. “A ideia é expandir o evento para além dos muros do Centro de Convenções e para um período maior. Não queremos trabalhar com as crianças apenas nos sete dias da Bienal, mas também antes e depois dela. Primeiro, enviamos os livros para que os alunos possam trabalhar pedagogicamente, fazer leituras coletivas e conhecer as histórias. Depois, levamos a autora que foi trabalhada previamente para que as crianças tenham a oportunidade de conhecê-la”, explicou.
Pecly também destacou que o projeto deixa um legado para as escolas participantes. “Depois da visita, ainda deixamos um legado para a escola, que são os livros doados para o equipamento público e para as bibliotecas, permitindo que os alunos continuem tendo acesso às obras. Isso forma um ciclo completo: temos o evento, mas também conseguimos sair dele e trabalhar a literatura dentro das escolas”, pontuou.
A escolha de realizar as atividades diretamente nas unidades de ensino também facilita a participação de estudantes que enfrentam dificuldades de deslocamento até os locais onde a Bienal é realizada. Para o diretor da Escola Municipal Mourão Sá, Lucas Antônio Oliveira, a aproximação da literatura com o cotidiano dos alunos torna a experiência ainda mais significativa.
“A Bienal do Livro, em si, é um evento ao qual os alunos não têm muito acesso. Quando eles têm essa oportunidade, podem usufruir de um ambiente totalmente diferente da realidade em que vivem. Quando essa experiência acontece dentro de um ambiente em que eles se sentem mais à vontade, como a escola, a experiência fica ainda melhor”, afirmou.
O diretor ressaltou ainda que o contato com a literatura contribui para o desenvolvimento educacional dos estudantes. “Além de aproximá-los da literatura e de outras formas de cultura, isso também ajuda no aprendizado. Para nós, é um prazer acompanhar esse momento, principalmente porque eles também gostam muito”, acrescentou.
Processo criativo – Durante o encontro, Regina Luz apresentou “Meu Sonho, Cor do Luar”, obra que aborda ancestralidade, identidade e protagonismo negro. A autora também compartilhou com os estudantes detalhes sobre seu processo criativo e sua trajetória na literatura.
Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e idealizadora do projeto Curso Luz de Redação, a escritora contou que sua relação com os livros começou ainda na infância, apesar da dificuldade de acesso às obras.“Eu fui uma criança que gostava muito de livros, mas não tinha livros. Quando aprendi a ler, me apaixonei pela palavra e, principalmente, pela narrativa. Meu primeiro livro foi publicado quando eu tinha 18 anos. Como escritora infantil, tenho cerca de oito anos de atuação”, relatou.
Regina possui quatro livros de literatura para a infância e três obras de poesia destinadas ao público jovem e adulto. Para ela, levar a literatura para o ambiente escolar é uma maneira de mostrar às crianças que a leitura pode ser uma experiência prazerosa.
“A leitura é um caminho essencial para formar um adulto pleno. Quando a nossa obra chega à escola e os alunos percebem que a leitura pode ser um processo mágico, isso é muito importante. Às vezes, existe uma ideia cultural de que ler é chato ou um fardo. Então, quando chegamos à escola de forma lúdica, colorida e com uma narrativa fluida e interessante, que também fala de identidade, pertencimento e autoconhecimento, é sensacional”, destacou.
A abertura da atividade na Escola Municipal Mourão Sá contou ainda com mediação e contação de histórias conduzidas pelo ator e arte-educador Raí Santana. Entre os estudantes, a iniciativa também despertou novos interesses.
Gustavo Barbosa, de 11 anos, aluno do 6º ano, contou que ficou motivado ao conhecer a escritora e revelou o desejo de publicar o próprio livro. “Vendo uma pessoa que um dia pode ter pensado que queria expressar os sentimentos dela e perceber que eu também posso seguir esse caminho é muito bom”, contou.
O estudante afirmou que já começou a pensar em ideias para a própria obra. “Eu já estou tendo ideias, mas o que eu mais quero agora é ver pessoas que escreveram seus livros e conseguiram realizar seus sonhos, para eu conseguir realizar o meu também”, afirmou.
Próximos encontros – O segundo encontro do Bienal nas Escolas será realizado nesta quarta-feira (26), às 10h, no Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos, localizado no bairro do Arenoso. A atividade terá a participação do escritor baiano Marcos Cajé.
Segundo Guilherme Pecly, esta edição marca a retomada do projeto após um período sem atividades nas escolas. Inicialmente, a programação contempla as unidades de Paripe e do Arenoso, mas a expectativa é ampliar o número de participantes nas próximas edições. “Este ano são essas duas escolas, mas queremos aumentar no ano que vem e, quem sabe, chegar a 20 escolas. Esse é o nosso objetivo”, afirmou.