O ginásio da Associação Atlética da Bahia (AAB), na Barra, recebeu na semana passada a primeira edição da Copa Brasil de Basquete 3×3 para cadeirantes. A competição inédita, encerrada neste final de semana em Salvador, reuniu 120 para-atletas de várias partes do país.

Ainda uma novidade entre os praticantes do basquete convencional, a modalidade ‘três contra três’ para cadeirantes alia técnica para conduzir a bola e ao mesmo tempo habilidade e força para controlar a cadeira de rodas. Paralelamente, os jogadores se revezam nos arremessos com a partida limitada à metade da quadra.

Destaque entre as equipes femininas, o Umuarama do Pará esteve perto do título, mas assegurou a medalha de prata. A equipe jogou com várias integrantes da seleção brasileira que disputou a Paralimpíada do Rio-2016. A campeã foi a Irefes-ES. A Bahia foi a quarta colocada, com a AAbane.

Uma das atletas da Umuarana, a bióloga Andréia Farias, de 33 anos, precisou superar a violência doméstica antes de ter um encontro com o basquete adaptado. Cadeirante devido a uma lesão medular provocada por maus tratos, ela perdeu os movimentos e a força das pernas, mas depois disso foi treinar basquete e chegou à seleção brasileira na Paralimpíada Rio-2016. “Meu trauma aconteceu devido a um espancamento. No ano de 2000 eu fui passar as férias em Capanema, no Pará, com a minha tia, e ele me espancou quando eu tinha 14 anos. A causa foi a pensão que meu pai, antes de morrer, deixou”, revelou Andreia.

A violência provocou traumatismo craniano e a fez perder a memória. Tudo que ela sabe de depois do episódio é por relatos de familiares. As pancadas sofridas resultaram em traumas na cervical, identificadas como C2 e C3.

“Fiquei tetraplégica durante três anos e oito meses. Houve lesões tanto na coluna como na cabeça. O traumatismo craniano foi bem grave e me levou à perda de parte da memória”, completou a jogadora, que conseguiu recuperar o movimento do braço esquerdo, antes dado como irreversível pelos médicos. Sobre a questão com a tia, afirmou: “Não houve flagrante e eu não lembrar de nada. A minha avó não quis fazer a denúncia”.

Depois que passou a conviver com limitações motoras e dependência de terceiros, até para se coçar, a para-atleta conheceu a modalidade pela televisão. Assim, passou a ter contato com o basquete em cadeira de rodas e o adotou em definitivo.

Romance na quadra

No time baiano AAbane-BA, vice-campeão, um romance entre o técnico Rogério Pinheiro e a armadora Cleuma Gonzalez faz a diferença na equipe desde 2010. O casal relatou que a atração surgiu durante os treinamentos e que o amor foi se desenhando ao longo dessa convivência. “Nos conhecemos na quadra. Com o tempo acabamos nos apaixonando”, relembrou Cleuma, que teve uma lesão medular aos 11 anos, provocada por uma bactéria na garganta.

Foi de tanto ser solicitado pelos atletas a sentar-se na cadeira para passar o treinamento, já que assim poderia perceber as dificuldades, que o treinador acabou virando jogador. Ele não nega ter sido também para agradar a esposa, única jogadora mulher na equipe masculina comandada por ele.

O momento especial no romance de ambos foi celebrado em um campeonato em Portugal, na temporada 2017/18, que se repetiu em 2018/19. “Aqui no Brasil não é permitido uma pessoa sem deficiência jogar com a equipe de cadeirantes, mas se no Brasil só posso ser técnico, em Portugal eu posso ser jogador. Foi a realização de um sonho”, confessou Pinheiro.

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