ARTIGO: O esquisito homem comum

Por Alexandre Aleluia

Hoje à noite, estava entretido com aquele sublime ato litúrgico que a modernidade chama, por pura convenção e, como diria Chesterton, por um profundo medo de blasfêmia, de “nada”. Creio que é nesse estado helênico de ociosidade produtiva que realmente podemos contemplar as questões fundamentais da humanidade. Mas por favor: não cometam o sacrilégio de supor que poderia estar absorto em nada mais do que nos cotidianos atos comuns, todas aquelas incríveis trivialidades em que o gênero humano está inextricavelmente condensado. Afinal, a grandeza foge da capacidade humana, e é por isto que todos os grandes impérios da história foram, em todos aspectos, inumanos, exceto, é claro, o Sacrum Romanum Imperium, que, alicerçado em Deus, era essencialmente humano. Pois, ao contrário do que pode supor os adoradores místicos do progresso, Deus é a verdadeira humanidade, o arquétipo supremo do que é o homem, encarnado no Verbo do amor, Cristo, que revelou-se divinamente humano.

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Só Deus pode ser infinitamente grande e infinitamente humilde, e, por isto, verdadeiramente grandioso. A nós, meros reflexos feitos a sua imagem e semelhança, cabe a extraordinária tarefa de filosofar sobre as coisas comuns e resguardar a sagrada grandeza de Deus. Temos que nos ocupar de todas as trivialidades insanamente sãs e belas, fraternalmente dispersas por toda a humanidade. E foi assim, nessa constatação metafísica, que estava completamente distraído com três das cinco ou seis coisas que definem a condição humana: um bom charuto, uma boa bebida e um embate político/filosófico entre amigos numa mesa de bar. Convenhamos, se há um santuário onde a Política pode se refugiar, numa era profundamente apolítica e de total ideologismo propagandista cleptocrático, é na sacro-santa mesa de um bar. É ali que a verdadeira ação política está. Ora, meus caros, há algo de profundamente político no bar, o evento teofânico de revelação política personifica-se naquela liturgia sagrada em que homens podem interagir como iguais, como nas velhas assembleias gregas. Procure em qualquer dos ditos ambientes políticos modernos e garanto que não encontrará qualquer resquício da velha senhora, a Política. Ela foi terrivelmente perseguida e se refugiou no único templo em que as portas estavam abertas, o bar.

Enfim, estava ali, em deleite intelectual, degustando uma cerveja maravilhosa e um charuto saboroso, quando um amigo me mostrou a publicação de uma “jornalista”, Malu Fontes. No típico pedantismo esnobe da elite “intelectual” progressista, ela destilava os velhos gracejos em forma de slogan de quem acredita pairar acima do resto da humanidade. Ela estava extremamente convicta de que eu era algum exemplar exótico, ou, para usar o termo que ela usou, esquisito, da espécie humana. Toda minha existência violava profundamente seu senso de realidade (que convenhamos, não é lá muito real). Estava eu ali, desafiando toda sua concepção de mundo, aviltando toda sua ideologia. Um homem comum, com valores comuns e ideias completamente comuns. E não há nada mais assustador para a elite “progressista” do que se deparar, eventualmente, com a vida comum. Sabem como é, quem se acostumou a olhar em volta e a só ver átomos enfadonhamente iguais, repetições miméticas de uma ideologia muito pouco humana, quando se depara com a extraordinária existência de um homem comum entra em espanto, numa fobia patológica.

Esse é um efeito muito frequente naqueles que sofrem de messianismo ideológico. A egolatria de um delírio auto-imposto torna todos os fatos triviais da vida num tormento. Tradição, valores, moral, família, são como inconvenientes persistentes que barram o sonho escatológico da utopia ideológica. Toda compulsão moderna pelo novo reside neste fato: a tradição assombra a auto-ilusão criada na mente do ideólogo. E, neste drama, um homem comum, como eu, defendendo todos os extraordinários valores comuns, é como a personificação de tudo que é mais odiado pelo ideólogo messiânico. E talvez resida neste fato a insistente compulsão pelo genocídio que acompanha todas as tolas ideologias modernas: a necessidade de eliminar o homem comum. A mais inumana ideologia de todos os tempos, o comunismo, matou não menos de 100 milhões de homens comuns e, até hoje, é cultuado e adorado pela nossa elite “progressista”.

Infelizmente, poucos entusiastas modernos, e nossa querida “jornalista” não foge à regra, entendem o quão extraordinária e delicada é essa coisa mística que chamamos de civilização. Pudessem olhar por de trás de todas convenções e ideias cristalizadas no imaginário social e perceber que a pedra angular da civilização perpassa pela noção inusitada e inesperada de que animais selvagens podem se comportar como homens, e não que, como exalta a razão moderna, homens possam se comportar como animais selvagens, talvez entenderíamos o quão fantástico e mágico é a ideia de que um punhado de animais bípedes civilizaram-se numa crisálida de humanidade através duma mística metamorfose. Estamos tão acostumados a partir do pressuposto de que a civilização é uma fato bruto da natureza que não paramos para nos maravilhar do quão improvável e inusitado é o fato de olharmos para esses animais selvagens e, de repente, nos depararmos com um cavalheiro inglês ou um filósofo alemão.

O milagre da transmutação, que é o homem comum, está a nossa frente, caminhando em nossa volta, nos dando bom dia e tendo todos os pequenos e saudáveis atos de gentileza, mas o ignoramos completamente. Não temos a menor noção de como é improvável que esses seres místicos e selvagens andem entre nós, vestidos, polidos, corteses e sejamos nós mesmos um exemplar desse conto de fadas divino. Tivéssemos um instante de deslumbramento diante de tamanho milagre, quem sabe, teríamos mais apreço por todas as tradições e valores que o possibilitaram, ao invés de correr atrás de toda e qualquer novidade bárbara, como os antigos animais selvagens que éramos. Talvez, quem sabe, se a cara “jornalista” se permitir sair do delírio ideológico que vive, perceba toda beleza de um “esquisito” homem comum e da antiga e nobre tradição que o sustenta.

Alexandre Aleluia é vereador de Salvador pelo DEM

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