É da Bahia a melhor websérie brasileira de 2018. É daqui também a websérie com a melhor ideia original do ano. Premiadas no WebFestRio 2018, principal festival da categoria no país, realizado mês passado, no Rio, Som do Amor e Punho Negro provam que nem só de youtuber vive a internet brasileira e que a Bahia tem papel de destaque quando o assunto é a produção audiovisual seriada para a internet.

Som do Amor: eleita melhor websérie brasileira na WebFestRio 2018 (Foto: Divulgação)

Você pode nunca ter ouvido  falar das duas. Mas certamente já se divertiu com as aventuras de Júnior e Mainha, do Na Rédea Curta, ou  com a galera do Ôxe, E Se Fosse Na Bahia, da +1 Filmes. Apostando no humor rasgado com doses de baianidade, essas duas webséries têm episódios que ultrapassam as 250 mil visualizações. Os números evidenciam que, mesmo sem investimento financeiro e concorrendo pela audiência com milhares de produtores de conteúdo e com gigantes do streaming e da TV, as produções locais fazem sucesso.

“Talvez a presença do humor nas webséries baianas se deva ao fato de termos um teatro de comédia com tradição na criação de sketches, como se vê na Cia Baiana de Patifaria. Só que isso também se explica pelo humor ser um dos gêneros mais comuns no formato em todo mundo. No caso brasileiro, isso se deve muito ao pioneirismo do Porta dos Fundos, que inspirou programas como a da Parafernalha, de Felipe Neto, e a própria +1 Filmes”, explica o roteirista e pesquisador de narrativas seriadas da Ufba, Marcelo Lima.

Para ele, o Na Rédea Curta partiu de caminho semelhante, mas hoje explora marcas narrativas mais arrojadas, com desenvolvimento das personagens e do seu universo ficcional, o que acaba criando uma identificação forte com o público.

Na Rédea Curta: uma das produções baianas mais bem-sucedidas da internet aposta no humor e nas referências locais (Foto: Reprodução/ YouTube)

“Somos uma websérie e eu bato no peito feliz por termos conseguido levantar isso. Estamos falando de famílias pretas, nordestinas, de uma mãe e de um filho, que a gente não vê na TV, que a gente não costuma ver nos modelos brasileiros de se fazer audiovisual porque são recortes muito peculiares do nosso lugar. Contar isso com graça, externar o nosso riso, é muito importante”, comemora Sulivã Bispo, que além de atuar como Mainha, assina roteiro e produção junto com Thiago Almasy.

Relatório recente divulgado pelo Google revela que é essa identificação que o brasileiro busca nos vídeos que vê no Youtube. E é essa demanda que os realizadores de webséries têm tentado dar conta. Mesmo com o orçamento limitado, eles têm encontrado soluções criativas, dado voz a grupos minoritários e movido os limites da produção audiovisual, antes restrito ao eixo Rio-São Paulo.

 Herois baianos
Caso de Punho Negro, premiada como melhor ideia original no WebFestRio. “Punho Negro é uma série de ação, de um superheroína, que trata de machismo, de racismo, questões que atravessam a personagem de Tereza (Carol Alves) e do marido, Vagner (Heraldo de Deus). A série fala de relacionamento afrocentrado, tem um casal negro como protagonista, realidade ainda incomum na teledramaturgia. Também mostra outro lado de Salvador, queremos marcar que somos daqui, mas sem abusar das locações turísticas. Gravamos no Comércio, na Federação, no Edifício Sulacap…”, explica Milena Anjos, integrante do coletivo ÊPA Filmes e produtora da websérie.

Em Punho Negro, superheroína luta contra “vilões estrtuturais”, como o racismo e o machismo

Humor, ação, drama, romance. Tem de tudo! “Na premiação, a gente ouviu muito que nem parecia que éramos de Salvador, como se isso fosse um elogio”, lembra o ator Tiago Quirino, que interpreta o protagonista da websérie Som do Amor, eleita a melhor do país.

 Além de atuar, ele ajudou na elaboração da história ao lado de Gustavo Seabra. Na trama, dois amigos se envolvem em uma confusão depois de um deles se passar por compositor da música que o outro fez. “Queríamos produzir uma coisa nossa, com nosso sotaque, nossa cultura, sem cair na Bahia rotulada das grandes emissoras. Além disso, queríamos algo leve, doce, que entretece a qualquer um”, explica Querino.

A safra fértil de wébséries ganha mais um  lançamento nesta quarta-feira (19). Dividida em quatro episódios, Vidas em Branco revela histórias de vidas de jovens negros interrompidas pela violência urbana. A série documental produzida por jovens de 15 a 29 anos, moradores do Subúrbio de Salvador, e participantes de um projeto da ONG Cipó, estará disponível no YouTube.

Personagem principal na consolidação do consumo e da produção de vídeo mundo afora, é no Youtube que as webséries ganham público e buscam um retorno do investimento– seja financeiro ou em termos de reconhecimento. E você, está esperando o quê para ir lá coonferir? (confira teasers abaixo):

Websérie Retratos, do baiano Rafael Jardim, explora singularidade de jovens gays de Salvador  (Foto: Reprodução)

Confira entrevista com o roteirista e pesquisador de narrativas seriadas, Marcelo Lima, da Ufba:

Pra começar,  o que é uma websérie? O Na Rédea Curta, apesar de funcionar por temporada, tem episódios independentes uns dos outros. Há uma diversidade de produtos audiovisuais, de temáticas variadas, sendo nomeados de webséries. Há longas que são divididos em partes e divulgados como webséries. O que caracterizara uma websérie?
Uma Websérie é um produto audiovisual segmentado em diferentes episódios produzido para exibição na Internet com uma periodicidade geralmente definida. As webséries são realizadas levando em consideração as especifidades da plataforma digital online onde será exibida, seus modos de monetização, circulação e construção da audiência.

Em geral, pensamos a série como um produto que carrega aspectos de semelhança entre suas diferentes partes ou episódios. Essa semelhança pode ser somente na estrutura narrativa de cada episódio, como é o caso de muitas séries policiais com episódios independentes, em que cada segmento apresenta um crime a ser solucionado ao final da história – e cada novo episódio traz um novo crime, mas, em geral, a mesma equipe investigadora. A serialização também pode ser construída com uma história que se expande de forma continuada, como é o caso de Game of Thrones. E há ainda o caso de séries com episódios com estruturas narrativas e personagens completamentente diferentes, mas com uma mesma questão temática, como é o caso de Black Mirror. Ou seja, mesmo com episódios independentes narrativamente, toda série é serializada de alguma maneira.

No caso das webséries não é diferente. No Na Rédea Curta, por exemplo, a própria recorrência de personagens já serve como um aspecto de serialização muito importante. Alia-se a isso a periodicidade do canal, que publica de 1 a 2 vezes por semana  e que assim cria uma relação temporal de produção e consumo.

Sobre o exemplo do longa dividido em partes para virar uma série, a gente pode ver exemplos frequentes disso na Rede Globo, que já pegou longas da Globo Filmes e dividiu em segmentos para exibição em formato de série. Me parece que pode virar uma tendência cada vez mais comum e levanta questionamentos sobre o que é mesmo uma série e o que é mesmo um filme? Um pode virar o outro? Essa é uma discussão complexa que muitos pesquisadores acadêmicos estão levantando nos estudos de televisão. Dentre eles, destaco Jason Mittell, que tem proposto que a serialidade é um conceito que não pode ser definido exclusivamente pelas características do produto, pois deve-se levar em consideração o contexto social e cultural da recepção daquele produto. Essa percepção é importante quando pensamos que muitos dos romances clássicos brasileiros como A Moreninha ou os livros de Lima Barreto hoje são consumidos enquanto uma obra única, mas à época de sua publicação eram folhetins serializados.

Inclusive, deixo duas perguntas para mostrar como a questão é movediça: a partir do momento que Choque de Cultura passa na Globo ele deixa de ser uma websérie? Caso os episódios do programa veiculado na Globo fossem reprises do conteúdo do Youtube, o programa estaria deixando de ser web nesse caso?

Em Salvador, o gênero humor faz bastante sucesso e digo isso a partir do Na Rédea Curta (antigo Frases de Mainha) e também pelos vídeos da +1 Filmes. Essa é uma realidade local? Quais gêneros mais têm sido explorados nessas produções?
Bom, é difícil generalizar qual público consumidor de webséries na Bahia, isso só dados das plataformas poderiam comprovar. Talvez a presença do humor nas webséries baianas se deva ao fato de termos um teatro de comédia com tradição na criação de sketches, como se vê na Companhia Baiana de Patifaria. Contudo, acho que a explicação está mais no fato de que o humor é um dos gêneros mais comuns e consolidados nas webséries brasileiras e internacionais. No caso brasileiro, isso se deve muito ao trabalho pioneiro do Porta dos Fundos. Porta fez escola, inspirou programas como a da Parafernalha, de Felipe Neto, e a própria +1 Filmes segue essa linha de humor de sketches. O Na Rédea Curta partiu do mesmo caminho, mas hoje explora marcas narrativa mais arrojadas, com desenvolvimento das personagens e do seu universo ficcional, o que acaba criando uma identificação forte com o público, que deseja acompanhar as aventuras de Júnior e Mainha. Isso é tão poderoso que o público migrou rapidamente do antigo Frases de Mainha para esse novo formato.

Como a maioria das webséries são hospedadas no YouTube, quem consome tem acesso a outras produções mais facilmente (naqueles vídeos sugeridos) ou não? Como funciona essa distribuição?
O Youtube é a principal plataforma de consumo e circulação de vídeos e dados apontam que a maior parte do consumo se dá via smartphone. Outras plataformas têm entrado na disputa como é o caso do Instagram e o Facebook, que há algum tempo tem incorporado vídeos à rede social, tirando parte da fatia de marcado do Youtube. Esses canais de distribuição usam os dados coletados do consumidor para sugerir vídeos que se relacionam aos últimos assistidos para assim prender a atenção da audiência e fazê-la ficar mais tempo na paltaforma – não necessariamente no mesmo canal. Do ponto de vista do produtor de conteúdo, há uma enorme preocupação em manter a audiência cativa e orientar seus espectadores para vídeos correlatos do mesmo canal, outros episódios, making of, etc. Os criadores monetizam seus canais e programas a partir do número de visualizações nos vídeos, número de inscritos e do tempo que cada consumidor dedicou assistindo o vídeo (vídeos vistos pela metade monetizam menos). Assim, a fidelização é importante e os produtores de maior sucesso sempre aliam oferta de bom conteúdo com estratégias para captar o tempo de atenção da audiência.

Veja teasers das webséries mencionadas nesta matéria:

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