No mundo, até esta sexta (24), já são mais de 2,7 milhões de casos confirmados de coronavírus. Sem precedentes na história da humanidade, a pandemia só não foi registrada em um continente: a Antártida.

O último continente a ser explorado, ainda é o lugar mais seguro do planeta. Cientificamente, ainda se sabe pouco sobre o novo vírus que parou praticamente todos os setores da economia mundial, mas o turismo naquela frágil região deve mudar na próxima temporada.

Fazer turismo por ali é uma experiência para poucos. Não só por conta de suas condições climatológicas extremas, mas também pelos custos da viagem (um bate volta e volta, saindo de Punta Arenas, no Chile, custa US$ 5.500 por pessoa).

A temporada de verão por ali, que costuma ir do final de outubro ao início de abril, está praticamente concluída e novas medidas de biossegurança já estão sendo discutidas.

De acordo com uma fonte consultada, que pediu para não ser identificada, a IAATO (International Antarctic Association Tour Operators) já discute medidas mais rígidas em procedimentos nos futuros cruzeiros antárticos, como a utilização de túnel desinfetante e exigência de certificado de saúde que comprove que o visitante não está infectado. Questionado pela reportagem, o setor de comunicação não se manifestou sobre o assunto.

“Verificamos nossos protocolos de biossegurança existentes com especialistas e, com base nas melhores informações disponíveis, determinamos que as políticas e procedimentos atuais eram eficazes”, resumiu Victoria Dowdeswell, assistente de comunicação digital da IAATO.

A última viagem

A proximidade do fim da temporada antártica, que coincidiu com o início da pandemia declarada pela OMS em 11 de março, permitiu que alguns operadores pudessem concluir os serviços na região.

Para Thiago Vasconcelos, diretor-executivo da Pier 1 Cruise Experts, a última temporada foi positiva e com um patamar de vendas similar ao do ano anterior, “mesmo com os primeiros sinais da crise da covid-19 já presentes”.

Sua agência, especializada em cruzeiros de luxo, costuma embarcar, anualmente, não mais que 20 passageiros, em viagens que custam cerca de R$ 60 mil por pessoa.

Navio da Oceanwide Expeditions chega ao porto de Hansweert, na Holanda, proveniente da Antártida - Divulgação

Navio da Oceanwide Expeditions chega ao porto de Hansweert, na Holanda, proveniente da Antártida

Imagem: Divulgação

De acordo com Maria del Pilar Fernandez, gerente de vendas internacionais da Oceanwide Expeditions, cuja frota faz roteiros marítimos na Antártida e no Ártico, as últimas saídas da temporada tiveram que ser canceladas quando a epidemia começou a se alastrar pelo mundo, em março.

Com o fechamento das fronteiras na Argentina, de onde partem as embarcações dessa companhia com sede na Holanda, “tivemos que desembarcar nossos passageiros [que ainda estavam em viagem pela Antártica] em Montevidéu e [dali] foram trasladados para Santiago e São Paulo para realizarem as conexões nos voos de retorno para casa”, descreveu María del Pilar por e-mail.

No campo científico, algumas medidas também foram tomadas para prevenir e evitar o desembarque do vírus no continente.

De acordo com nota do Instituto Antártico Chileno (INACH) enviada para o Nossa, grupos de pesquisadores já foram retirados, expedições estão suspensas e bases antárticas do Chile foram fechadas, como a Yelcho, na Ilha Doumer.

“O Programa Antártico Chileno está em processo de planejamento dos protocolos para manter a Antártida livre da covid-19”, explicou Paulina Rojas Paredes, chefe de departamento do INACH, instituição subordinada ao Ministério das Relações Exteriores do Chile.

Procurado diversas vezes e por diferentes meios, o Pronantar, o programa brasileiro na Antártica, não retornou nosso contato.

O futuro do turismo

Estreito de Gerlache, na Antártida  - Eduardo Vessoni

Estreito de Gerlache, na Antártida

Imagem: Eduardo Vessoni

Mesmo com todos os planejamentos e campanhas para reduzir danos, o setor turístico ainda está mergulhado em incertezas. E no exclusivo turismo antártico não deve ser diferente.

“A curto e longo prazos, o impacto da covid-19 nas operações da próxima temporada não são claros. Dada a natureza sem precedentes da pandemia e suas contínuas mudanças na saúde e nas viagens, a questão ainda é muito viva e exigirá monitoramento e modificação à medida que se desdobrar”, analisa Victoria Dowdeswell.

Quando questionados sobre o que deve acontecer no continente, após a pandemia, todos os entrevistados dessa matéria foram cautelosos, sobretudo por conta da ausência de medidas internacionais que regulem o turismo de cruzeiros para as temporadas seguintes.

“Tomamos medidas possíveis de segurança e nossos procedimentos já foram alterados”, informou por e-mail, Franklin Braeckman, gerente de marketing da Oceanwide Expedition.

No entanto, a empresa não detalhou quais seriam essas novas medidas, “[já que] a situação mundial muda todos os dias (…) e os nossos procedimentos também estão sujeitos a alterações e melhorias”.

“Até que a indústria de cruzeiros não dite as regras gerais, não vamos anunciar nenhuma medida específica”, completou.

Medidas rígidas

Mesmo antes do planeta ser paralisado pelo poder devastador do coronavírus, a Antártida já adotava medidas rígidas no desembarque de turistas por ali.

De acordo com regras da IAATO, só é permitido o desembarque de até 100 pessoas por vez e, cada grupo de visitantes em terra, deve ser acompanhado por um guia.

No navio turístico que me levou até a Península, em 2013, todos os 116 passageiros deveriam usar uma bota especial, lavada em uma solução desinfetante, e aspirar roupas e qualquer outro objeto levados para o solo, como tripés e bolsas fotográficas.

Em terra, além de estar sempre acompanhado de guias especialistas, o visitante deve manter uma distância mínima de cinco metros da fauna local, como pinguins e focas.

Pinguins em Jougla Point, na Antártida - Eduardo Vessoni

Pinguins em Jougla Point, na Antártida

Imagem: Eduardo Vessoni

A Fiocruz, que mantém um projeto multidisciplinar de um laboratório permanente de pesquisa (Fiolab), estimava 80 mil turistas, aproximadamente, na temporada 2019/2020.

Esses números representam um aumento de cerca de 40% com relação à temporada anterior, que recebeu cerca de 56 mil visitantes, a maioria deles de países como Estados Unidos, China e Austrália. A título comparativo, a IAATO registrava pouco mais de 12 mil, há duas décadas.

Já a Fiocruz, instituição que começou a atuar recentemente na Antártica, o continente recebe cerca 5 mil pesquisadores por ano. Não à toa é chamado de “o continente mais inteligente do mundo”.

De quem é a Antártida

Em vigor desde 1961, o Tratado da Antártida é o documento que estabelece, entre outros padrões, o uso pacífico do continente, cooperação internacional e liberdade de pesquisa científica. No 4º artigo do Tratado, de um total de 14, estabelece-se que o continente não pertence a nenhuma nação.

De acordo com o documento, “nenhum ato ou atividade que tenha lugar, enquanto vigorar o presente Tratado, constituirá base para proclamar, apoiar ou contestar reivindicação sobre soberania territorial na Antártica, ou para criar direitos de soberania na Antártida.”

O tratado, que hoje conta com 53 nações signatárias, foi assinado em 1959 pelos 12 países que tiveram atividades científicas mais ativas na Antártida, nos anos anteriores, como Argentina, Chile, Austrália, Inglaterra e Noruega. O Brasil aderiu ao tratado em 1975 e atua na Antártida desde 1982 com o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

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