O assunto não é novo, pelo contrário. Mas é preciso falar cada vez que ele acontece, e repudiar. A lutadora peso-palha Amanda Ribas, 26 anos, postou há duas semanas uma foto no Instagram ao lado presidente do UFC, Dana White. Foi o suficiente para os comentários machistas começarem a pipocar não só ali, mas em outras páginas que repostaram a imagem, como a do UFC e do próprio Combate. “Tem cara de romance no ar”. “Tá pegando…”. “Se sentar no colo rola cinturão hein Amandinha!”. “Percebi que rolou algo aí”. Esses foram alguns exemplos.

Amanda não gostou e usou as redes sociais para repudiar o que não só ela, como toda a família, tinha lido. Em entrevista ao Combate, a lutadora mineira explicou que foi avisada pelos familiares sobre os comentários machistas.

Amanda Ribas postou foto com Dana White na Ilha da Luta e recebeu comentários machistas e ofensivos — Foto: Reprodução / Instagram

Amanda Ribas postou foto com Dana White na Ilha da Luta e recebeu comentários machistas e ofensivos — Foto: Reprodução / Instagram

– Tento responder tudo que consigo, mas não tinha visto isso ainda. Aí estou vendo minha irmãzinha falar: “não fica chateada não, o povo vai falar mesmo”. E eu: “tranquilo”. Daí meu irmão falou também. Não lembro quem me mostrou, mas vi – não sei se no UFC ou no Combate primeiro – a minha foto com o Dana e um tanto de gente falando: “Deve estar saindo com ela…”. E estou falando bonitinho, porque pegaram pesado! Sinceramente, achei feio, mas para mim tanto faz, mas a minha irmã, o meu pai e meu irmão ficaram muito bravos, meu pai até entrou para falar com a galera. A maioria ali é casado, tem filha, é médico… Às vezes a gente acha que são pessoas sem formação para falar uma besteira dessas, mas não são, tinham médicos, caras formados, não são pessoas ignorantes e falando uma coisa ignorante dessas, achando que só por uma pessoa tirar foto com um ícone no MMA é porque está saindo, é porque não posso chegar ao lado do Dana White por mérito meu, por mérito do meu esporte, do meu esforço. Se fosse com minha irmã ficaria mais chateada, mas comigo fiquei até tranquila, mas minha família ficou muito brava – desabafou Amanda.

Mas se machistas estavam presentes, as mulheres se juntaram para se defender. Uma das seguidoras publicou: “… Qualquer um que tira conclusões maldosas queria estar no lugar dela. Vendo o nome em destaque, mas não por erros, e sim pelo belo trabalho que ela apresenta. Devíamos ter orgulho porque ela é Brasil e nos representa”. O recado foi dado.

Amanda Ribas lutou no último dia 11 em Abu Dhabi, no UFC 251, no primeiro card realizado na “Ilha da Luta”. Ela finalizou Paige VanZant ainda no primeiro round, e depois ainda deu um jeito de assistir na arena os dois cards seguintes. Foi lá que encontrou o patrão, e também entusiasta do seu trabalho.

– Gosto de conversar muito, daí conversava com o pessoal do hotel e fiz amizade sei lá com quem e conseguiram colocar a gente para assistir o UFC. Sem falar com ninguém do UFC, fui com o meu pai. Quando vimos, estava só eu lá assistindo e me achando na área VIP (risos). Passa o Mick (Maynard, matchmaker do UFC), dá uma olhada e faz assim (dando um joinha). Quando passa o Dana, cruza os braços, olha para mim… Eu: “Ah, gente”! Daí ele me chamou para sentar do lado dele e assistir o card principal, e meu pai foi junto. Quando ele disse: “Amanda, vamos assistir ali comigo”, fiquei mega feliz. Só de estar na área VIP já estava feliz, imagina quando o Dana me chamou! O Dana não é só o cara que organiza o UFC, ele é um cara muito visionário, sou muito fã (…). Ele me elogiou, me mostrou as mensagens do pessoal perguntando: “Nossa, quem é essa menina que além de lutar bem ainda dá entrevista super bem?”. Ele me elogiou muito nisso.

A lutadora, dona de um cartel com dez vitórias e apenas uma derrota, garantiu não perder tempo com mensagens negativas. E ainda explicou que os comentários maldosos geralmente não chegam diretamente a ela nas redes sociais.

– Não perco muito meu tempo com gente assim (e os respondendo). Tento gastar minha energia com quem manda mensagem positiva. Engraçado, geralmente eles não têm coragem de chegar e falar para mim, no meu direct, e comentam na foto para aparecer. É muito doido isso! O pessoal quer aparecer independente do que for, se for falando mal, se for fazendo uma coisa doida, quer é aparecer. Se quisesse falar comigo mesmo, me mandava direct, e não acontece. O que recebi (no direct) mesmo foi parabéns, e fiquei muito feliz.

Se dessa vez os comentários numa foto publicada por Amanda chamaram a atenção, no dia a dia o machismo se faz presente de outras formas nas redes sociais da lutadora.

– O que acontece é gente mandando cantada indelicada, gente que manda foto do pênis, isso é o que mais acontece. Mas nunca tinha visto em relação a uma foto, acho que é uma coisa errada, muito feia. O MMA feminino está crescendo tanto, as meninas estão mostrando técnica, espero que eu consiga calar a boca de muita gente que acha que para subir na vida, para poder ser uma boa lutadora, (a mulher) tem que sair com o patrão. Coisa mais feia! É até feio de falar isso, nem gosto.

Amanda Ribas, Paige VanZant, UFC 251, MMA — Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC

Amanda Ribas, Paige VanZant, UFC 251, MMA — Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC

Amanda Ribas ainda lamentou que os comentários machistas vieram mais do próprio país, ainda que o machismo tenha se feito presente também em outros idiomas.

– Teve muito brasileiro, foi mais brasileiro. Tiveram alguns americanos, comentários em inglês, mas o que mais teve foi brasileiro. Isso que é mais triste – lamentou, mas garantindo que não mudará seu alto astral.

– Não ligo porque não estou fazendo nada errado. Se parar para pensar duas vezes antes de fazer alguma coisa, é porque não é para fazer. Se encontrar o Dana White de novo, vou pedir para tirar foto porque sou muito fã, assim como se encontrar com José Aldo, Jon Jones, McGregor, todo mundo que sou fã vou pedir para tirar foto. Não estou em aí!

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