Por Sibele Oliveira

Sempre que passamos por problemas, pressões contrariedades e ameaças, ficamos estressados. Mas é um equívoco pensar que o estresse só aparece em situações negativas. Também o sentimos quando vivemos coisas boas, como assumir um cargo novo no trabalho, ter o primeiro encontro com quem estamos apaixonados, planejar uma festa de casamento, fazer a prova de um concurso público, preparar-se para uma competição esportiva ou acompanhar o nascimento de um filho desejado.

É isso mesmo. O estresse pode ser bom ou ruim. Quando ele é positivo, recebe o nome de eustresse. Mas se for negativo, é chamado de distresse. E não é difícil perceber a diferença entre um e outro. “O eustresse e distresse causam reações fisiológicas similares. A grande diferença é emocional. O eustresse faz a pessoa se sentir motivada e satisfeita. Enquanto o distresse faz com que ela se sinta ameaçada, intimidada”, distingue Ana Maria Rossi, doutora em psicologia clínica e presidente da Isma-BR (International Stress Management Association no Brasil).

A forma como interpretamos o que estamos vivendo é que determina se ele será positivo ou negativo. Mas o objetivo final do estresse é sempre o mesmo: fazer com que nos adaptemos a uma nova situação. Quando algo nos estressa temos reações fisiológicas, emocionais e comportamentais, que podem ser leves ou não. As mais intensas ocorrem em situações que nos ameaçam. Há quem fique paralisado nesses momentos. Outras pessoas reagem lutando ou fugindo, um comportamento vital para a sobrevivência em caso de perigo iminente, como um assalto ou uma enchente, por exemplo.

“As reações de estresse são muito primitivas. São mediadas pelo sistema reticular ascendente, que é um sistema de várias conexões cerebrais, mediado por noradrenalina, dopamina, serotonina e cortisol, dependendo da fase de estresse que a pessoa estiver. Todo o aparato neurobiológico, químico, é voltado para que o organismo sobreviva”, ensina Luciana Siqueira, psiquiatra do Programa de Transtornos de Ansiedade do IPq-FMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

O estresse negativo surge em situações que provocam em nós uma montanha russa de emoções, como uma demissão, a notícia da morte de uma pessoa que amamos ou o término de um relacionamento amoroso. Por mais que nos faça sofrer, ele nos leva a ficar mais atentos ao problema e a enfrentá-lo. E isso é bom. “Se a pessoa fica excessivamente calma, ela pode não se preparar adequadamente para a situação, não tomar as precauções e os devidos cuidados. E ter um resultado negativo”, analisa a psiquiatra.

Embora o eustresse não seja nocivo como o distresse, dependendo da intensidade ele também pode fazer mal. “O organismo não reconhece muitas vezes o que é positivo ou negativo. O que acontece é que os órgãos que estão envolvidos com o estresse vão ter uma sobrecarga para a qual eles não estão preparados, mesmo que seja um deflagrador positivo”, explica a psiquiatra. Foi o que aconteceu com um torcedor do Flamengo, no ano passado. Quando o time carioca marcou um gol na partida final da Copa Libertadores, ele teve uma emoção tão que forte que sofreu um infarto e morreu. Mas isso é raro de acontecer.

Mesmo o distresse não costuma colocar a vida em risco, mas pode deixar sequelas emocionais. Em uma pesquisa pela Isma-BR feita em 2018, 87% dos entrevistados relataram dores musculares, incluindo dor de cabeça; 75% deles se queixaram de exaustão e 43% afirmaram ter distúrbios do sono, como acordar antes da hora mesmo dormindo tarde ou ter o sono fragmentado.

As emoções também são atingidas em cheio pelo estresse negativo. De acordo com a publicação, 89% dos entrevistados revelaram ter ansiedade, 85% declararam sofrer de angústia e 56% confessaram sentir culpa. Para suportar o mal-estar, 61% admitiram usar medicamentos (prescritos ou não), 59% assumiram consumir bebidas alcoólicas e drogas para se anestesiar da realidade e 38% contaram que se livravam do desconforto comendo petiscos.

Gatilho para doenças físicas e psíquicas

O mal que o estresse irá causar depende de alguns fatores, como a sua evolução. Na primeira fase, a de alerta, ele geralmente não provoca grandes estragos. A pessoa entra em contato com o agente estressor e pode ter sintomas como respiração ofegante, suor, boca seca, mãos e pés frios. A segunda fase é a da resistência. Nela, o estressado tenta voltar ao seu equilíbrio. Nesse momento, ele se adapta ao problema ou age para eliminá-lo, e pode sentir de um cansaço constante à diminuição do desejo sexual. Por fim, vem a fase da exaustão, quando a pessoa se prostra e surgem as doenças.

São vários os danos causados ao corpo e à mente pelo estresse negativo. Siqueira diz que quando o organismo não suporta o que está acontecendo, a pessoa pode sentir dor no peito, dor de cabeça, dores estomacais, náuseas, enjoos leves, ter hipertensão arterial, alterações no sono e no apetite, alergias, aumento do colesterol e do açúcar no sangue. “O estresse pode precipitar uma doença que está incipiente, conforme a idade, as condições físicas e genéticas da pessoa. Se for muito alto, pode desencadear reações graves”, ela alerta. Em outras palavras, o estresse é um gatilho para diversos males.

As áreas de maior vulnerabilidade ao distresse são o cérebro, o coração e o aparelho gastrintestinal. “O estresse negativo vem contra a nossa vontade. Somos submetidos a situações forçadas, que têm um colorido desagradável. E isso adoece. Quando a pessoa é colocada em condições de extremo risco, ele aumenta muito”, observa Siqueira. Sem falar nas consequências emocionais, como ansiedade, depressão, irritabilidade, hipersensibilidade emotiva, apatia e perda do humor.

Nem sempre conseguimos detectar esses danos no começo. “As consequências não vão acontecer de um dia para o outro. O estresse é cumulativo. Se ele ocorrer com frequência, a pessoa fica tensa, reage à situação e volta ao normal. Aí reage de novo. Um efeito ioiô emocional que é extremamente devastador”. Com o tempo, a pessoa não consegue mais retornar sua linha basal ao normal, ou seja, voltar ao seu ponto de equilíbrio, e tende a desenvolver um estresse crônico. E o pior. Pode achar normal conviver com esse sofrimento.

São os sintomas, muitas vezes sutis, que sinalizam o estresse crônico, como deixar de sentir prazer em coisas que antes gostava de fazer. Quando isso acontece, a falta de energia e de motivação é tão grande que qualquer atividade vira um peso. A pessoa nem se lembra mais de quando tinha ânimo e se sentia bem. Acontece o oposto do eustresse, que dura o tempo necessário e depois vai embora, permitindo que o organismo volte ao normal. Ele é útil porque nos impulsiona a dar o nosso melhor, seja no trabalho, nos relacionamentos interpessoais ou em qualquer outra questão da vida. Assim, nos ajuda a alcançar nossos objetivos.

Afaste o distresse

Conviver com o estresse negativo não é uma tarefa fácil, principalmente para quem tem uma rotina cheia de compromissos, prazos e metas. Embora na maioria das vezes não seja uma escolha tê-lo, podemos aprender a lidar com ele. E a maneira mais simples de fazer isso é a prevenção. Quando a rotina ou as mudanças do dia a dia começam a interferir na qualidade de vida, devemos interpretá-las como um sinal amarelo. Esse é o momento de se proteger, mesmo que não seja possível evitar ou ter um controle sobre a causa do estresse.

A receita para não perdermos o equilíbrio quando vivemos uma fase estressante é nos cuidarmos. Quando fazemos isso, nos tornamos mais fortes, resilientes e equilibrados para lidar com o estresse negativo. Fazer exercícios físicos como uma simples caminhada, ter uma boa noite de sono e uma alimentação saudável já é um bom começo. Mas há outras dicas úteis como ter alguém que nos escute, não ficar horas a fio ligado no trabalho ou nas redes sociais, reservar um tempo para seus hobbies, apegar-se a fé (se for uma pessoa religiosa), ser mais flexível, mudar pensamentos e respeitar os próprios limites.

Essas medidas nos preparam para grandes enfrentamentos e até previnem um estresse futuro. Medicamentos, só em último caso. Outra dica é fazer uma autoanálise, que costuma deixar tudo mais claro. “Em primeiro lugar, a pessoa precisa estabelecer se tem ou não controle sobre a situação. Se não tiver, vire a página. Se tiver, trace um plano de ação”, aconselha Rossi. Além disso, é importante descobrirmos porque estamos nos sentindo incomodados. E algumas práticas, como exercícios de respiração e meditação, podem ajudar nesse processo.

“A pessoa não deve fazer isso só quando tem um problema, mas como um investimento. Quanto melhor ela estiver, mais vai querer praticar o relaxamento porque daí vai para a ‘caderneta de poupança’. No momento que ela estiver tensa, ansiosa, o resgate é automático”, ilustra Rossi. Gerenciar bem o tempo também fecha as brechas para o distresse, estabelecendo prioridades e objetivos de vida. “Algumas pessoas organizam o dia como se ele tivesse 36 horas, mas tem 24. É importante fazer um balanço se a expectativa de uso do tempo está de acordo com a realidade”, conclui a psicóloga.

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