cuba obama

HAVANA – O primeiro dia da histórica visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a Cuba, apregoada como um novo começo da relação entre os dois países, foi marcada por velhos problemas. Cinco horas antes de o Air Force One pousar no aeroporto de Havana, manifestantes contra o regime dos Castro eram detidos durante uma manifestação pacífica. A atuação do governo cubano joga ainda mais pressão para o líder americano, que está sendo compelido a tratar de forma mais veemente a questão dos direitos humanos e da liberdade na ilha.

Obama desembarcou em Havana às 16h20m (17h20m em Brasília), se tornando o primeiro mandatário americano a pisar em Cuba em 88 anos. Logo após a chegada, o presidente saudou os cubanos em sua conta no Twitter usando uma expressão local: “¿Que bolá Cuba?”, que significa algo como “Como vai, Cuba?”. Na sequência, escreveu: “Acabamos de pousar, ansiosos para nos encontrar e ouvir diretamente o povo cubano”.

Acompanhado de toda a família, inclusive filhas e sogra, ele foi recepcionado pelo ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, no Aeroporto Internacional José Martí. E seguiu para um tour em Havana Velha, onde visitou a Catedral San Cristóbal.

— É maravilhoso estar aqui. É a primeira vez que um Air Force One pousa em Cuba — disse a funcionários e familiares da recém-reaberta Embaixada dos EUA na capital cubana. — É uma visita histórica, uma oportunidade histórica.

Cerca de cinco horas antes da chegada de Obama, no entanto, o governo cubano prendeu manifestantes que protestavam contra o regime castrista. Cerca de 50 ativistas do Damas de Branco, grupo de senhoras que se manifestam por liberdade a cada domingo após uma missa, junto com aproximadamente 20 homens de outros grupos pró-liberdade, foram detidos. No fim de seu protesto silencioso, as Damas se depararam com centenas de simpatizantes aos gritos de “Fidel!, Fidel!” e com a polícia. Após a detenção de todas as dissidentes presentes no local, a confusão terminou em um grande show de salsa.

— Estão nos prendendo porque estamos em uma ditadura. Estão nos batendo e nos prendendo há mais de 40 semanas — gritou uma manifestante enquanto era carregada por policiais femininas.

Todas as prisões foram realizadas em poucos minutos. No momento do enfrentamento, em uma esquina do bairro de Miramar, as Damas de Branco se sentaram para evitar a detenção. Nesta hora, os grupos pró-regime, em número muito maior e mais organizados, faziam mais barulho. Os grupos pró-Castro vinham de todos os lados da rua. Durante as prisões, um grupo de música começou a tocar, como se fosse um bloco de carnaval, ampliando os ruídos e a confusão.

Nenhuma policial explicou os motivos das prisões. Os manifestantes pró-regime, organizados com bandeiras, camisas e faixas, diziam que tinham ido protestar “espontaneamente”. O grupo reclamava o uso do Parque Ignácio Prado — onde afirmavam que haveria um evento cultural, que não tinha sido divulgado. O grupo xingava as dissidentes, enquanto eram detidas, de “mercenárias” e “traidoras”.

— Estas mulheres só querem confusão. Recebem dinheiro para fazer estas manifestações. Por que elas não se mudam para os Estados Unidos? Elas não querem ir, querem ficar e criar confusão. São problemáticas — afirmou a aposentada Matilda Velásquez, de 63 anos, que afirmou que só estava ali para “pegar seu parque de volta”.

Manifestantes pró-governo confirmavam que haviam ido ao local em ônibus do governo. Outros diziam que haviam recebido as bandeirolas do Partido Comunista. Nenhum dos dançarinos ou dos músicos do show de salsa pôde dar entrevista — eles eram impedidos pelos organizadores.

Mais cedo, as Damas de Branco já previam o confronto e alegavam que, quando são detidas, acabam sendo liberadas algumas horas depois.

— Acreditamos que o presidente Obama não pode se calar diante desta situação. Vivemos uma ditadura que nos reprime. Só pedimos liberdade — disse Maylen Gonzáles, de 37 anos, após rezar, sair da missa e iniciar sua caminhada de protesto.

Outros grupos também se manifestaram. Oguari Rondol Ribeiro, de 41 anos, exibia tatuagens contra Fidel Castro e a favor dos EUA. Antonio Rodiles, um dos organizadores do Fórum pelos Direitos e pela Liberdade, que organiza o movimento #TodosMarchamos, com mais de 20 entidades, disse esperar poder falar abertamente disso com Obama, mas acabou sendo detido na manifestação.

— Esta visita não pode legitimar o regime. Novos passos de aproximação devem ser condicionados à liberdade em Cuba — disse ele, antes de ser preso.

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