A praia do Porto da Barra, local de onde saíram três banhistas para um passeio de stand up paddle, no último sábado (10), e que terminou com dois deles à deriva por 18 horas, é justamente um dos mais perigosos para iniciantes no esporte. A chamada corrente lateral – o fluxo de água que entra e sai da Baía de Todos os Santos – é capaz de arrastar os banhistas rapidamente para longe. O vaivém das águas pode tornar o retorno à areia quase impossível.

Por isso, o subcomandante do Grupamento Marítimo (Gmar), Luciano Talvez, costuma dizer:

“O Porto parece um lugar perfeito para essa realização da atividade, mas não é. A pequena distância, a corrente lateral é significativa. Não é o mais indicado para essas pessoas iniciantes”, alerta.

Mas, quais são os critérios de determinação de iniciantes e experientes quando não há uma verificação dessas condições? “Digamos que, para quem não tem conhecimento sobre a prática, não é o local mais seguro”, esclarece. Ao menos dois cuidados básicos, ensina o capitão, podem evitar acidentes: o uso de colete e, caso opte por um passeio de stand up no mar do Porto, não se afastar muito. “Se a pessoa ficar à deriva e cair no mar e não souber nadar, o afogamento será uma consequência direta. E, se decidir fazer a atividade, que seja próximo”, afirma.

Sem orientações
Desde a primeira vez numa prancha de stand up, há dois anos, Guilherme Medeiros, 18, não lembra de qualquer orientação sobre como remar. Antes de entrar no mar, além de receberem o colete e a ordem para não ultrapassar a faixa informalmente determinada como o limite. Em média, uma hora no mar custa R$ 30.

“Eu não lembro de nenhuma instrução para aprender a remar… fui aprendendo fazer mesmo”, conta Guilherme. Tornou-se experiente por conta própria.

Na falta de uma legislação específica, cabem aos banhistas e aos que alugam pranchas criar as próprias regras. No caso de Thiago Garrido, 35 anos, que trabalha há seis com o aluguel de pranchas, há um caiaque sempre há disposição em caso de acidente. Também é assim na rotina de trabalho de Vagner Paraíba. “A gente fica aqui sempre de olho, com um caiaque para ver se precisa entrar no mar”. Na areia, há uma tenda de salva-vidas.

Projeto de Lei
No ano passado, Thiago Garrido decidiu guardar ao lado das pranchas de stand up que aluga no Porto da Barra termos de responsabilidade para os banhistas. Queria evidenciar, no documento, os possíveis riscos de afogamento, caso alguma ordem fosse descumprida. O principal: ser levado pela correnteza ao se distanciar dos barcos mais próximos da areia, considerados o limite para os iniciantes, como ocorreu com os amigos Geraldo, Rita Maria e André Vinícius, que ficaram à deriva desde o sábado.

Os documentos, providenciados por intermédio de um advogado, foram uma tentativa, logo revelada malsucedida, de atuar num contexto de falta de regulamentação da atividade. O primeiro indício de que a atividade seria melhor amparada por uma legislação surgiu em 2014, quando Thiago ainda completava dois anos à frente da atividade e o então vereador Claudio Tinoco (DEM) propôs, na Câmara Municipal de Salvador, o Projeto de Lei nº 266/14.

Thiago já trabalha com stand up há seis anos e tentou regularizar normas de segurança
(Foto: Marina Silva)

A proposição, parada na Comissão de Educação, Esporte e Lazer prevê o ensino da modalidade e a prática somente permitida a escolas cadastradas e licenciadas pela Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop). Também caberia à Semop fiscalizar o ensino da atividade, completamente inexistente nas praias de Salvador.

A proposta chegou a ser enviada para a Comissão de Finanças, Orçamento e Fiscalização para, logo depois, em 2017, ser engavetada Comissão de Educação, Esporte e Lazer, sob relatoria do vereador Sidinho (Podemos). Desde então, nenhum andamento. E nenhuma previsão de mudança.

O presidente da Câmara, Léo Prates, falou que a agenda desta semana, também comprometida pelo feriado da Independência do Brasil, nesta quinta-feira (15), está fechada. Mas, acrescentou:

“Vou convocar o colégio de líderes para analisar a questão entre essa semana e a próxima”, disse Prates.

O atual secretário Municipal de Cultura e Turismo, Tinoco justificou a necessidade do projeto pela “situação de total insegurança para os interessados, ante a total ausência de regras mínimas sobre a matéria”.

Guilherme e Rodrigo praticam a atividade há dois anos, mas não receberam instruções sobre como remar
(Foto: Marina Silva)

Situação que, segundo Thiago, um dos dois responsáveis por aluguéis de prancha neste domingo na areia da praia, apenas é contornada por iniciativa dos próprios empreendedores. Sob o guarda sol onde trabalha, guarda o certificado de um curso de primeiros cuidados básicos. Mostra à reportagem como sinal da autonomia da categoria, não reunida em nenhum tipo de associação ou comitê.

Enquanto avalia a formação, comenta o comportamento de alguns banhistas.

“Eu falo aqui para não sair da beirada, dou o colete. Mas alguns dão risada quando eu digo que, se ultrapassar demais ele pode ir para até em Morro de São Paulo… muitos não acreditam”, diz, ao apontar a região proibida no mar, após os barquinhos. “Foi o que aconteceu ontem, né?”, finaliza.

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