O segundo mandato da presidente Dilma Rousseff acabou, sem de fato nunca ter começado, com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto.

Investido da inédita função de “primeiro-ministro” de fato, o agora chefe da Casa Civil Lula capitaneia um ato de desespero político para tentar salvaguardar o que restou do seu projeto de poder iniciado em 2003.

A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Sua relutância em aceitar o cargo, alimentadas por resistências que vêm de PMDB a Banco Central, sinaliza os riscos que antevê.

Lula assume no meio de mais uma turbulência grave, com a já explosiva delação de Delcídio do Amaral a acusar o petista e Dilma de interferir nas investigações da Lava Jato. Ambos podem acabar investigados pela acusação de obstrução de Justiça.

A dramaticidade do movimento só é comparável ao que pode acontecer se ele der errado, o que é bem possível. Os dois objetivos de Lula, o de salvar a sucessora do impeachment e de tentar reanimar a economia, visam robustecer sua defesa como presidenciável em 2018.

Analisando os dois movimentos táticos imediatos, é possível dizer que Lula está melhor colocado do que Dilma para negociar com o PMDB e outros o estancamento do processo de desagregação aberto na base aliada.

Há alguns obstáculos. Uma fatia expressiva do PMDB expôs reservas ao chamado Plano Lula, por considerar a crise irreversível e também para elevar o preço da fatura na hora de sentar à mesa com o petista, buscando reduzir-lhe estatura política.

Por sua vez, o herdeiro da cadeira de Dilma em caso de impedimento, Michel Temer (PMDB-SP), faz jogo de espera desde que retomou o controle nominal do PMDB com ajuda de Renan Calheiros (AL), presidente do Senado.

E o alagoano, que em circunstâncias normais se alinharia a Lula por débitos pretéritos, está com um pé e meio na canoa do impeachment.

Há a Lava Jato, que pende sobre quase toda a cúpula peemedebista: tanto Renan (quanto o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acham a operação é manipulável contra eles com apoio do governo.

Não passou despercebida deles a abertura de um sétimo inquérito contra si na esteira de suas conversas sobre o “semipresidencialista” com tucanos na semana passada.

Mesmo que desejasse, já que é alvo e crítico do que chama de “falta de controle da Polícia Federal”, Lula não está em posição de vender facilidades. A Lava Jato tem vida própria, e qualquer pressão sobre a PF ou a PGR (Procuradoria-Geral da República), de onde é egresso o novo ministro da Justiça, seria intolerável aos investigadores.

Sobre o segundo ponto tático, a economia, o risco é ainda maior. A ameaça clara de Alexandre Tombini de deixar o BC no caso de uma inflexão à esquerda antecipa a previsível turbulência no cassino dos mercados.

Se Lula trouxer para a equipe uma figura como a do ex-chefe do BC Henrique Meirelles e lhe der autonomia, pode haver uma trégua com o mercado. Mas o que realmente importa, como quando enfrentou a mesma desconfiança antes de assumir em 2003, é o plano.

A exaustão dos recursos governamentais para bancar o previsível populismo econômico petista tentará Lula a mexer no que sobrou: as reservas internacionais. Há argumentos sobre o alto custo de manutenção das mesmas, mas o dano de imagem se elas forem usadas para abater dívida pública tende a ser irreversível.

Há vozes no PT defendendo um “mix” salomônico, que sinalize responsabilidade ao mesmo tempo em que mude o rumo das coisas. Se fosse o começo de um governo forte e respaldado politicamente, a ideia pareceria mais exequível.

Ambas as vertentes levam ao objetivo estratégico, o de viabilizar Lula como presidenciável. Missão difícil, apesar de Lula reter uma popularidade menor mas respeitável, justamente porque falamos de uma situação de crise extrema.

O petista é alvo, e um caminhão de informações oriundas de delações premiadas a caminho promete embaraços. E é impossível dissociar sua ida ao ministério da vontade de fugir do juiz Sergio Moro em Curitiba, por meio do foro privilegiado.

Lula sabe que seria uma aposta vazia, já que as instâncias superiores basicamente referendaram tudo o que investigação e juízo fizeram no Paraná, mas aqui o valor de face é fala mais alto.

Assim como é simbólica a “renúncia branca” de Dilma, que tende a virar uma inquilina de luxo do Palácio da Alvorada ou, para ficar no reino das retóricas, uma “presidente emérita” ao estilo Bento 16.

O paralelo brasileiro mais próximo ocorre quando Fernando Henrique Cardoso vira ministro da Fazenda de Itamar Franco. O objetivo, a Presidência, era o mesmo, mas as condições hoje são muito diversas.

Já há algumas semanas graúdos da política e do PIB davam por certo o fim da gestão da petista, e a megamanifestação de domingo (13) lustrou com “rua” a vontade política em favor do impedimento. A recessão econômica inédita é o começo e o fim do diagnóstico.

O arco da jornada de Dilma e Lula, que os viu distante e quase rompidos neste ano, volta a seu ponto inicial. Novamente, tudo está na mão do criador. Mas ele está unido à sua criatura, seja qual for o desfecho da história.

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