Os pais dos estudantes do Colégio Antônio Viera ficaram insatisfeitos com as medidas adotadas pela instituição para punir os alunos que divulgaram mensagens de ódio através das redes sociais. Em carta encaminhada para a escola, eles pedem que a ações sejam revistas e dizem que os comentários foram “blefes de adolescência”.

As mensagens de apologia à tortura foram divulgadas por cerca de 10 estudantes em um grupo de WhatsApp em que participavam mais de 120 alunos. “Eu tenho vontade de dar uma paulada na cabeça dela (a vítima seria uma professora)”, “Tortura essas p*** dando 5 facadas logo”, “Que tal mandar os bandidos pras reservas indígenas? Aí eles se matam ematam os índios também”, “Índio é inútil, só serve pra ter feriado”, foram algumas das frases ditas. Um professor foi afastado das atividades por causa da confusão.

Na carta, os pais questionam a decisão da escola de não renovar a matrícula dos estudantes que propagaram as mensagens e de excluir da solenidade de formatura aqueles que estão no último ano do ensino médio. Os pais disseram que divergem do posicionamento do colégio e apelam para o bom senso da instituição.

Eles disseram também que os adolescentes estão reproduzindo um discurso de ódio da própria sociedade e que não tinham noção da dimensão do que diziam. “Quem não fez o mesmo na adolescência, que atire a primeira pedra”, diz a carta.

Confira a carta na íntegra:

Salvador, 12 de novembro de 2018

Colégio Antônio Vieira

Ilustríssima Senhora Diretora e Conselho Acadêmico

Na qualidade de Pais e alguns Ex-Alunos dessa conceituada instituição de ensino, apresentamos o presente MANIFESTO, o que fazemos nos seguintes termos:

De início, divergimos do posicionamento adotado pelo CAV, no tocante a exclusão de alguns alunos da festa de formatura do 3º. Ano e proibição da renovação matrículas para o ano letivo de 2019 de outros, em flagrante dissonância com os ensinamentos cristãos de amor, acolhimento e perdão.

Nessa linha, APELAMOS para o bom senso desta digna e centenária Instituição de Ensino, a fim de que seja RECONSIDERADA a decisão adotada, face os pontos abaixo descritos:

  1. Temos jovens de 14 à 17 anos, que reproduziram, em um GRUPO FECHADO de whatsapp, um discurso de ódio, que eles viram em políticos, celebridades, parentes adultos e na sociedade de forma ampla;
  1. Esses adolescentes, obviamente, não tinham noção da dimensão do que diziam, “blefes” de adolescência, uma forma de auto afirmação típica da idade, exatamente, para chamar atenção, chocar, posar “do contra” dentro de um grupo de colegas, os quais não chegaram nem perto de sequer levar essa ameaça à um nível mais sério. E, quem não fez o mesmo na adolescência, que atire a primeira pedra. Sendo, a sorte dos adolescentes daquela época, justamente, a inexistência de  redes sociais, em especial, WhatsApp ;
  1. Esses jovens, em formação, tiveram  prints de suas conversas do grupo vazados, propositadamente, com o intuito de prejudicá-los ( se fosse para educá-los seria mantido no âmbito da escola) e estão sendo submetidos a um julgamento público, cruel e, principalmente, utilizados como “bode expiatório” por uma imprensa sensacionalista que, a título de ampliar seus níveis de audiência, instiga o ódio político partidário por se tratar de alunos de escola particular ditos de “direita”;

Isso seria justiça ou revanche? Talvez, e provavelmente, esses adolescentes, pela falta de maturidade, contaminados pela polarização política pre eleição, possam não ter realmente a noção da gravidades das colocações e precisem aprender mais sobre o mundo. Entretanto, não são criminosos, tiveram sua formação escolar no CAV desde remota idade, boa índole, queridos pelos colegas e não merecem ser tratados dessa forma, julgados por um fato pontual, sem levar em consideração  o contexto temporal dos acontecimentos externos e internos.

Entendemos que eles devam receber uma repreensão, mas dentro de um critério de proporcionalidade e razoabilidade do que realmente fizeram. De fato, foram mensagens negativas, todavia produzidas por menores em um grupo FECHADO, nada mais que isso. Não chegaram, nem perto, de levar essa suposta ameaça a um nível mais relevante.

Face ao exposto, acreditando que o diálogo e o bom senso prevaleçam, que sejamos mensageiros da paz e da harmonia,  apelamos pela defesa da proporcionalidade e da razoabilidade das punições, pautados nos ensinamentos Inacianos, por se tratar do fechamento de um ciclo desses jovens (não simplesmente uma festa de formatura) e a continuidade dos estudos junto a seus colegas, que levem a reflexão, arrependimento e mudança de atitude, a fim de evitarmos a implantação da INJUSTIÇA e de possível sensação de remorso futuro.

Pedimos deferimento,

Procurada, a assessoria do Colégio Antônio Viera informou que a instituição vai manter o posicionamento divulgado na semana passada e que não comentaria o caso. Confira a nota divulgada na época:

“O semeador saiu a semear” (Mt 13,1).

“A educação e, em particular, nossas instituições educativas, formam parte do esforço humano por fazer germinar a semente do Reino de Deus na história”. (Pe. Arturo Sosa, SJ, superior geral da Companhia de Jesus, Rio de Janeiro, 20 de outubro de 2017).

O Colégio Antônio Vieira tem uma bonita história em educação. Ao longo de mais de um século, quantas sementes férteis foram lançadas para a construção de um mundo melhor! Entendemos que, assim como a missão do semeador, a missão de formar homens e mulheres com e para os demais é desafiadora, complexa, mas profundamente gratificante.

Acreditamos na capacidade que o ser humano tem de aprender sempre e reordenar seus pensamentos e sua trajetória. Como esclarecemos em nota, o Colégio Antônio Vieira já está aplicando as medidas educativas pertinentes aos fatos lamentáveis que vieram à tona no início desta semana. No entanto, firmados numa ética do cuidado para com todos os envolvidos, entendemos que as decisões tomadas referem-se exclusivamente ao âmbito interno da nossa instituição.

Desejamos que este caso, que feriu profundamente os princípios e valores da nossa comunidade educativa, sirva para a reflexão de todos sobre a importância do engajamento coletivo na promoção de uma cultura de paz e de respeito para com os demais. Assim, cultivamos, uma vez mais, a esperança de ver “germinar a semente do Reino de Deus na história”.

Atenciosamente,

Direção do Colégio Antônio Vieira”.

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