Veterano na Câmara Municipal de Salvador, Moisés Rocha (PT) afirma que não será candidato à reeleição do parlamento em 2020. O edil se diz desacreditado com o poder de influência exercido atualmente pela esquerda na capital baiana e afirma que vai voltar a trabalhar nas bases. “Tenho alguns fatores que são fundamentais para tomar essa decisão. Primeiro que, particularmente, não tenho [apego ao mandato], apesar de entender a importância da Casa legislativa”, avalia. “Quero lembrar que estamos em uma cidade com 82% de negros e pardos, mas que não conseguimos ter espaço para exercer o poder. Quero voltar para o movimento negro, refazer as minhas lutas, retomar o processo de tentar obter novamente maioria sem revanchismo”, completa, dizendo que não está preocupado com o contracheque no final do mês.

Rocha, no entanto, se coloca à disposição para ser o candidato do PT em Salvador. “Disponibilizei o meu nome para o Partido dos Trabalhadores recentemente para debater a questão da Prefeitura de Salvador”, afirma. “Respeito todos os nomes que foram postos, mas acredito que precisamos fazer um movimento que rompa de fato as estruturas de poder. Precisamos mostrar que, de fato, precisamos fazer diferente”.

O parlamentar ressalta que existe uma espécie de racismo até mesmo nos partidos de esquerda, que têm dificuldades de lançar um candidato negro. Segundo ele, a maioria dos filiados do PT são negros. O edil afirma ainda que a cúpula da sigla precisa voltar a consultar as bases. “Lula, no auge, disputou prévias com Eduardo Suplicy”, lembrou.

Rocha defende uma via alternativa aos dois principais cabos eleitorais da Bahia: Rui Costa e ACM Neto. “Quero explicitar que essa eleição em Salvador tem uma característica de que teremos dois polos. Temos duas lideranças que serão fundamentais para qualquer nome, que é o governador Rui Costa no auge da sua popularidade e o prefeito ACM Neto, que vem de uma reeleição com votação expressiva. Isso é fato. Nosso papel é construir uma via alternativa para o poder”.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de Rui Costa apoiar Guilherme Bellintani, o edil defende que o PT tem se colocar como um partido “sem dono”. “O governador pode ter vontade, mas não pode fazer o papel de dono, porque isso faz com que o PT deixe de ser PT. Não dá para o governador dizer qual será o candidato. Ele pode sugerir”.

“Precisamos voltar a fazer as prévias e debater a cidade, como fazíamos anteriormente. Na última eleição, em 2016, foram colocados alguns nomes de candidaturas negras do PT em Salvador. Lembro que Gilmar Santiago e Valmir Assunção colocaram os nomes, mas nem para a vice foram cogitados. Nós nem sequer fomos conversados. Sou do PT, confio no PT e nas ideologias do partido, mas não tenho nenhuma dúvida que nós dos partidos de esquerda temos que disputar espaços que são hegemonicamente brancos”.

Indagado se existe racismo dentro do PT, Rocha analisa: “O meu partido é ainda o que faz eleições que para eleger o seu presidente. Mas, dentro do partido, existem correntes, tendências. Muitas vezes tem tendências que querem caminhos mais ao centro e outras mais à esquerda. Quando essas correntes se preocupam com o domínio, com o comando, geram um problema”.

Há uma quase unanimidade na base do PT por uma candidatura própria e a direção estadual do partido, mais alinhada a Rui Costa (PT), está isolada querendo que isso não seja decidido agora. Informações de bastidores dão conta de que o governador prefere que os petistas apoiem algum nome de outra legenda na corrida pela Prefeitura de Salvador – a exemplo do que aconteceu em 2016 – para fortalecer o argumento de que a sigla merece ter candidato próprio em 2022.

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