Por Dinaldo dos Santos

Inserido, de alguma forma, no Carnaval de Salvador, há mais de 30 anos, estive acostumado a ver, de perto, a maior festa popular do planeta acontecer da forma que sempre se propôs: cultural e democrática.

O jornalista Dinaldo dos Santos
O jornalista Dinaldo dos Santos

Porém, a profissionalização capitalista de todos os segmentos que envolve a  ‘Folia de Momo’ foi transformando essa manifestação, ao longo dos anos, em uma grande festa privada que introduziu um perverso processo de segregação nos circuitos da folia.

A partir disso, eu que, gradativamente, já vinha me desligando dessa curtição, vi com bons olhos, durante mais uma oportunidade de cobrir jornalisticamente o Carnaval, o resgate de alguns elementos que devolvem aos poucos a essência cultural da festa.

Encontrei algumas bailarinas, princesas, pierrots, tigresas, piratas, enfim, um monte de fantasiados se divertiam pelas ruas e até entrevistei alguns. Parece até que o meu coordenador, André Uzeda, sabia desse meu sentimento com relação ao evento, já que algumas das minhas pautas estavam relacionadas com o saudosismo da festa.

Foi trabalhando que conversei, inclusive, com algumas pessoas de gerações passadas e ouvi comentários que me fizeram reviver – ainda que através da imaginação – (sem querer, aqui, fazer alguma crítica à produção fonográfica atual) tempos que a música não só animava, mas passava algum tipo de mensagem ao folião.

Uma luz, no entanto, começa a surgir! O processo de redemocratização tem avançado nos últimos dois anos com o aumento do número de blocos e trios elétricos que passaram a desfilar sem cordas, permitindo ao folião pipoca uma participação mais decente dentro da grande festa popular.

E essa onda do sem cordas eu tive a grata oportunidade de curtir (trabalhando, é claro) de perto. “Imagina só que loucura!”: o chefe – aquele mesmo, André Uzeda” – me chamou para irmos cobrir, no domingo de Carnaval, a passagem da pipoca de Armandinho, Dodô e Osmar. Nessa hora, quase traí minhas origens e disse: ôieeeeeee.

Foi durante um período de, mais ou menos, meia hora acompanhando os filhos do inventor da zorra toda que reencontramos (sei que Uzêda também é fã da banda) acordes ‘afinados’ com a folia, letras de músicas interessantes e a companhia de uma multidão bonita e diversificada.

Não sou contra tudo que é feito, hoje em dia, no nosso Carnaval. Existem, sim, coisas boas, mas a minha torcida é para que as pérolas deixem de ser exceções como foi outrora. Contudo, vejo uma lenta mudança que conferi. Isso me animou e por conta das oportunidades, poderia dizer que me foi permitido fazer uma cobertura ‘de boaça!’, mas prefiro falar que foi ‘Beleza Pura!’.

Dinaldo dos Santos é jornalista e trabalha no portal Aratu OnLine

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