Era meio-dia de segunda-feira (10) quando a manicure Bárbara Silva Cerqueira, 43 anos, esteve na casa do filho mais novo, Caíque Silva Cerqueira, 19, para entregar o almoço. É assim desde que o jovem saiu de casa, há pelo menos três anos. Bábara, que havia deixado o filho dormindo, sequer poderia imaginar que, quatro horas depois, seria a responsável pela rendição de Caíque.

Acompanhado de outros três homens, ele invadiu, por volta de 15h30, o Centro de Saúde Osvaldo Caldas Campos, no bairro de Santa Cruz, e fez 16 pessoas reféns, incluindo uma adolescente de 12 anos. Após quatro horas de negociações com policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), e por intermédio da mãe, Caíque e outros três suspeitos libertaram as vítimas e se entregaram.

Logo após ver o filho ser levado em uma viatura da Polícia da Choque, para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba, a manicure afirmou à imprensa que “não sabe o que deu errado”.

De acordo com Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA), além do filho da manicure, Danilo Santos Nascimento, 28, e os outros dois suspeitos presos, faziam parte de um grupo de 20 homens que trocaram tiros com PMs, pouco antes da invasão à unidade de saúde. Com o grupo, ainda segundo a SSP, quatro armas foram apreendidas.

“A gente dá conselho, mas eu não sei o que é que eles pensam da vida. A mãe fala tudo. Hoje eu levei comida para ele, deixei em casa dormindo, quando cheguei recebi uma ligação de que ele estava aqui fazendo gente de refém”, disse aos repórteres que, da parte externa da unidade de saúde, acompanharam Bábara convencer o filho a se entregar.

Mesmo usando uma bolsa de colostomia há três meses, desde que operou em decorrência de um “problema no instestino”, o rapaz foi o último a aceitar a rendição. A mãe contou os argumentos que usou para convencer o filho.

“Eu falei que era para ele sair dessa vida e se entregar, pois ele sairia vivo e todos os amigos dele já tinham morrido. Ele só dizia: ‘mãe, eu te amo. Mas eu só saio com a reporagem aí fora, senão eles me matam'”, relatou a mãe de Caíque.

Em prantos, ainda na unidade de saúde, a manicure e outros familiares do rapaz fizeram uma vaquinha. De acordo com Bárbara, o grupou totalizou uma quantia de R$ 20, usados para pagar um táxi até o DHPP – onde só sossegou ao ver o filho.

“Eu nunca vi ele armado, mas sei que ele se envolvia, ficava muito em rua. Ele não tinha nenhuma necessidade de estar nessa vida. Eu agradeço à imprensa ter ido, senão eles tinham matado eles”, disse Bárbara, já em frente à unidade da Polícia Civil.

Moradores da localidade do Largo do Teodoro acusam militares de chegarem atirando (Foto: Almiro Lopes)

 

‘Sem necessidade’
Além de Caíque, Bábara também é mãe da autônoma Érica Silva Cerqueira, 24, responsável por chamar a manicure até o local. A informação que teve, a princípio, era que o filho estava dentro do posto de saúde, a cerca de 50 metros da casa família, no Largo do Teodoro, onde a filha já aguardava por notícias do irmão.

Ao chegar no local, por volta de 16h30, Bárbara se tranquilizou: Érica já havia entrado no posto, com autorização da polícia, e trocado algumas palavras com o irmão. Na oportunidade, segundo a autônoma, o irmão disse que estava bem, e que sentia sede. A irmã, que não chegou a ver o suspeito, disse que não poderia levar água, e pediu que ele “pensasse bem”.

Ao CORREIO, mãe e irmã do rapaz afirmaram que o jovem não chegou a estudar o ensino médio. Nascido e criado no Nordeste de Amaralina, morava com a mulher, uma jovem também de 19 anos, em casa alugada pela avó materna.

“Minha avó pagava a casa dele, minha mãe fazia a comida todos os dias. Não tem necessidade nenhuma de estar nessa situação. Eu não consigo me conformar”, lamentou Érica, ao comentar um período de três meses que o irmão passou na cadeia, há cerca de dois anos.

Conforme Polícia Civil, Caíque, Danilo e os demais suspeitos vão responder por posse ilegal de armas, cárcere privado e formação de quadrilha. De acordo com o delegado Deraldo Damasceno, que também acompanhou as negociações, os quatro “são conhecidos da polícia”.

Minutos depois de se render, prestes a entrar na viatura, Caíque pediu à mãe que lhe fizesse um favor: “Tira aqui minhas correntes”, solicitou. Bárbara atendeu ao pedido. Não teve tempo, porém, de abrir o fecho do acessório. Sem pensar muito, apenas partiu os dois cordões dourados que o filho carregava no pescoço.

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