Por Fábio Bittencourt

Um dia antes de vigorar o decreto municipal proibindo – pelo prazo de 15 dias (a contar desta quarta-feira, 18) – o funcionamento de cinemas, academias e escolas das redes particular e pública em Salvador, como forma de conter o avanço do novo coronavírus, o que se viu foi um amontoado de gente circulando no tradicional comércio de rua da capital baiana, no centro da cidade, no final da manhã. Entre as avenidas Joana Angélica e Sete, muitos pedestres disputando as calçadas com os vendedores ambulantes, em meio aos obstáculos próprios das obras de requalificação da prefeitura – uma boa quantidade munida de máscaras de uso pessoal.

Do lado de dentro das lojas, porém, o movimento era fraco. Entre os comerciantes, queixa geral. A maioria citando queda no movimento / faturamento entre 30% e 60%. Na Axé Tecidos, o gerente João Luiz da Silva, 60 anos, dizia que o dia anterior, segunda-feira, as vendas tinham sido “pior ainda”. “Amanhã é esperado cair ainda mais (o movimento, com o início oficial do período de restrições). Tem muito cliente que compra tecido para evento, forrar pranchão, toalha de mesa. Mas os eventos estão todos sendo cancelados”, disse.

“Essa época já era para a gente estar vendendo tecido para festa e decoração juninas, normalmente nesse corredor não cabe de tanta gente. A procura tem sido menor que a metade”, contou a vendedora Nuzinelta Marques, 41.

Nos estabelecimentos de vendas de artigos para celulares e em lojas de produtos importados (chineses), mais reclamação. Na Jin Yuan, quase em frente ao Convento da Lapa, o auxiliar de Loja Everton Santos, 22, dizia que a queda na venda de bolsas, mochilas, capas para smatphone caíra quase 40%. Segundo ele, 100% dos produtos comercializados na loja vêm da China, mas que não existia problemas com entregas (compras).

Já na Ponto Cel, de Maurício Vieira, 26, que apontou ainda como causa da queda no movimento e nas vendas a greve dos vigilantes bancários, desde dezembro há um certo atraso no transporte de mercadorias, e começa a falta película, capa para celular e fone de ouvido. “Com o coronavírus o movimento caiu muito, a circulação de pessoas. Hoje já é mais da metade do mês, e as vendas devem ter caído uns 30%”.

Só mesmo em uma grande rede de eletrodomésticos e eletrônicos, já em frente ao Relógio de São Pedro, com pouco de mais consumidores percorrendo as seções, a responsável pela loja, de prenome Líliam, disse que, até aquele momento, não havia sinal de queda no movimento, mas que existia, sim, uma preocupação com as vendas a partir desta quarta-feira. “Vai ter menos gente circulando nas ruas, é certo”, disse .

Prejuízo e preocupação

Segundo projeção feita segunda-feira pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio), a propagação da Covid-19 no país, em particular, na Bahia, deverá causar prejuízos da ordem de R$ 108 milhões por dia. Presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do estado (Sindilojas), o empresário Paulo Motta manifestou grande preocupação com o atual cenário mundial.

Segundo ele, a situação persistindo por cerca de 90 dias, deve resultar em queda nas vendas no comércio de até 80%, e mais desemprego, estabelecimentos quebrados, entre outros prejuízos. Só no últimos final de semana, diz ele, a estimativa de redução no faturamento foi de 40%.

“Eu sempre digo que o mais é a vida. Vivemos um momento de surto muito violento, com impacto direto na vida das pessoas, que obriga severas mudanças de comportamento, todo mundo na busca pela sobrevivência”, completa.

“No Brasil, o comércio começa a sentir os efeitos (das medidas restrtitivas). E os governos, todos juntos, precisam trabalhar na adoção de políticas que viabilizem a atividade econômica, aumentando os gastos públicos, suspendendo, cobranças, execuções (fiscais)”.

“Já está sendo desestimulado o uso de transporte público, diminuição do horário de funcionamento de shopping. Ou seja, vai haver diminuição na circulação de pessoas. E uma saída para esse momento parece ser as compras virtuais pela internet, ou mesmo delivery”.

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