CLÓVIS ROSSI
COLUNISTA DA FOLHA

Entendo perfeitamente a cautela do vice-presidente Michel Temer de sair da linha de fogo, por meio do licenciamento da presidência do PMDB. Entendo pelos cuidados extremos que tomou Itamar Franco quando tramitava o impeachment de Fernando Collor de Mello.

Cuidados que me pareceram até paranoicos quando conversei com ele, em anexo do Palácio do Planalto.

A conversa rolava normalmente mas era interrompida, por ele, sempre que entrava o homem do cafezinho (ritual permanente no mundo oficial de Brasília).

Eu demorei para perceber a hesitação do vice até que fiz uma pergunta enquanto terminava de pôr açúcar na xícara e aconteceu um silêncio patético, obrigando-me a esticar a pergunta muito além do necessário para que não ficássemos os dois calados.

O então vice-presidente Itamar Franco após sair de seu gabinete no Palácio do Planalto
O então vice-presidente Itamar Franco após sair de seu gabinete no Palácio do Planalto

Percebi então que Itamar temia estar sendo espionado pelo homem do cafezinho. Pode até ser verdade, mesmo porque estamos falando de um tempo em que não havia telefonia celular e os grampos só podiam, em consequência, ser instalados nos telefones fixos.

E, como é óbvio, nenhum político conspira pelo telefone, ainda mais um político mineiro ao cubo como era Itamar (Dilma Rousseff, também mineira, perdeu a manha).

Itamar estava tão rompido com Collor como Temer está com Dilma, mas o mineiro não conspirava tão abertamente. Nem confiava nos políticos que passaram a cercá-lo desde que rompeu com o presidente.

Os interlocutores de Itamar, ao contrário dos de Temer, não eram parlamentares. Era gente mais próxima, figuras secundárias. Político a vida toda, parecia desconfiar de seus pares.

Compartilhar