Dor abdominal, diarreia, náuseas e aquele mal-estar que não passa por nada: esses são os sintomas clássicos das viroses intestinais. Mas também são sinais que aparecem quando comemos algo contaminado e temos uma intoxicação alimentar.

Mesmo parecidos, no entanto, os problemas têm causa distinta: enquanto a virose, como o próprio nome diz, é provocado por um vírus (e, neste caso, o microorganismo tem como alvo o sistema gastrointestinal), a intoxicação alimentar geralmente é provocada por bactérias ou fungos que se multiplicaram em alimentos mal conservados.

“O quadro é mesmo bastante semelhante nos dois casos, e geralmente precisamos ouvir a história do paciente para conseguir fazer o diagnóstico”, afirma Lígia Brito, médica clínico-geral do Hospital Edmundo Vasconcelos.

Segundo ela, enquanto na virose é comum o paciente dizer que alguém da família estava doente há alguns dias, na intoxicação ele já chega dizendo que comeu algo que não fez bem. “A intoxicação costuma aparecer rápido, entre três e seis horas após a ingestão do alimento contaminado”, afirma a especialista.

Ambos estão longe de ser casos isolados e são considerados problema de saúde pública: para se ter uma ideia, dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmam que, todos os anos, cerca de uma em cada dez pessoas no mundo adoece ao consumir alimentos contaminados por bactérias, vírus, parasitas ou substâncias químicas.

Só no Brasil, a estimativa é de que ocorram por ano 700 surtos de DTA (doenças transmitidas por alimentos), de acordo com o Ministério da Saúde.

Dá para diferenciar?

Como já foi dito, tanto a virose quanto a intoxicação costumam se apresentar com sintomas parecidos: diarreia, náuseas e/ou vômitos, tontura, dor abdominal e perda de apetite e, em alguns casos, febre.

A diferença entre um e outro começa a aparecer quando observamos a intensidade e duração dos sintomas. “A virose costuma ser mais branda e dura entre dois a cinco dias”, explica o médico Alexandre Sakano, gastrocirurgião da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. “Já a intoxicação alimentar demora mais a passar e os sintomas são mais fortes”, afirma.

Segundo o médico, enquanto na virose as fezes costumam ser mais pastosas, na intoxicação alimentar a diarreia quase sempre se apresenta de forma aquosa.

Outra diferença importante é a duração e a medida da febre. “A virose pode dar uma febre baixa, já a intoxicação deixa a temperatura bastante elevada e isso pode durar alguns dias”, alerta o especialista.

Como tratar?

Se o quadro de diarreia está leve, ou seja, você está indo mais vezes ao banheiro, mas as fezes estão pastosas; a febre está baixa ou não existe; e você está conseguindo se alimentar, mesmo que pouco, é possível esperar o corpo reverter o quadro naturalmente.

Nesse caso, os especialistas dizem que é possível tomar analgésicos para diminuir a febre (se houver) e a dor abdominal, bem como remédios para enjoo. A ingestão de probióticos também vai ajudar a repor a flora intestinal —já que a diarreia acaba “levando embora” as bactérias benéficas do intestino.

“É importante também manter uma alimentação leve, sem gorduras, e ingerir bastante líquido”, afirma Sakano. Água de coco e bebidas isotônicas também podem ser ingeridas para ajudar a repor os sais perdidos.

Quando procurar ajuda?

Porém, se a febre está alta e não abaixa nem com o uso de antitérmicos; a diarreia está frequente e aquosa; a pessoa está vomitando muito; e a pessoa não consegue se alimentar ou mesmo ingerir líquidos, é hora de procurar ajuda médica.

Isso porque diarreia e vômitos podem provocar uma desidratação importante no organismo, agravando o quadro de saúde que pode até levar à morte. Isso vale especialmente para crianças pequenas e idosos, que costumam perder líquidos e piorar rapidamente nessas condições.

De acordo com Sakano, os quadros mais graves geralmente estão associados à intoxicação alimentar, já que o causador do problema é uma bactéria. Nesses casos, além dos medicamentos para aliviar o desconforto, o médico pode prescrever antibióticos para evitar que a infecção se espalhe para outros órgãos.

Dá para evitar?

Entre os dois quadros, a virose é o mais difícil de evitar pois envolve principalmente o contato pessoal. “É comum, por exemplo, que crianças pequenas peguem na escola e acabem contaminando os pais”, afirma Lígia Brito.

De toda forma, lavar as mãos antes das refeições e tentar evitar contato, quando possível, com a pessoa contaminada, são medidas que ajudam a evitar o contágio. “Fugir de aglomerações, especialmente no verão, quando as viroses são mais comuns, também é uma boa medida preventiva”, orienta a especialista.

No caso da intoxicação alimentar, a melhor prevenção é lavar as mãos sempre que for preparar algum alimento e antes das refeições; e ainda observar a procedência do que está sendo consumido. “Maionese, peixe cru, ovo e leite são alimentos que, se não estão bem acondicionados e preservados, estragam muito rapidamente e podem provocar uma intoxicação”, afirma Sakano.

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