Embora insista em manter em sua grade desenhos e atrações voltadas ao público infantil, o SBT passou os últimos 15 anos deste século vendo esse público-alvo desaparecer de sua frente.

O SBT é a única TV aberta que aposta nesse tipo de conteúdo diário. São impressionantes quase cinco horas diárias dedicadas à criançada (10h30 às 15h15).

Fato: é uma opção muito nobre da parte de Silvio Santos, mas isso não funciona mais nem do ponto de vista de ibope nem do comercial. É o que mostram os números.

Entre 2005 e 2020, dados exclusivos obtidos pela coluna apontam que o SBT perdeu 68% do público de 4 a 11 anos em suas manhãs, hoje parcialmente dedicadas às crianças.

A faixa dos 12 a 17 anos também teve queda expressiva nessa faixa horária: 59%.

No horário vespertino o SBT também sofreu grande perda de público infantil: -52% na faixa de 4 a 11 anos (de 2001 a 2020) e -47% na faixa de 12 a 17 anos. Enfim, mais da metade das crianças abandonou a TV.

Algumas análises podem ser feitas a partir dessas estatísticas:

1 – as crianças que realmente amam desenhos —e cujos pais têm certo poder aquisitivo— já migraram mais de uma década atrás para a TV paga;

2 – nos últimos anos também houve uma explosão de acesso a conteúdo infantil na internet (alguns de baixa qualidade, é verdade); houve um “espalhamento” de público por novas mídias, e isso vale para todas as faixas etárias; isso não vale para o SBT que, por questões de direitos autorais, não exibe desenhos em seu canal no YouTube;

3 – “Chaves” ainda pode ser considerado um fenômeno pois quando é exibido ainda dá ibope até que relevante ao SBT; mas, a verdade é que o programa mexicano nem é mais exclusivo da emissora de Osasco (passa no Multishow também) e, graças à internet, também pode ser visto a qualquer dia e hora por quem quiser;

4 – O fim do contrato do SBT com a Disney, em meados de 2018, pode ter sido o último respiro do SBT junto ao público infantil; ali o SBT ainda tinha um bom retorno financeiro; ao romper com o conglomerado norte-americano de mídia, o SBT perdeu conteúdo de altíssima qualidade e ficou quase sem “renda” —já que a regulamentação para publicidade infantil é muito restritiva;

5 – Houve também a péssima ideia nos últimos anos de colocar jornalismo sensacionalista e popularesco (“Primeiro Impacto”) nas quatro horas e meia anteriores ao “Bom Dia e Cia”;

6 – Falando em “Bom Dia & Cia”, o formato e a apresentadora pararam no tempo; não há renovação, quadros, a interação é fraca e ainda por cima forçada; assim fica difícil também.

A verdade é que o SBT enfrenta uma guerra solitária na TV aberta pelas crianças. E essa (nobre) guerra parece já estar perdida para a emissora de Silvio.

Se há uma possibilidade remota? Sim, quem sabe se a Disney voltasse a combater ao lado do SBT…

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