Familiares, amigos e colegas de trabalho de Clécio Conceição Matos, 39 anos, acompanharam o sepultamento do zelador na manhã desta terça-feira (23), no Cemitério Quinta dos Lázaros, na Baixa de Quintas, em Salvador.

A despedida foi marcada por muita comoção. Uma vizinha da família bradava a todo momento: “Eu não vou descansar enquanto não ver essa mulher pagar pelo que fez”.

“Quero ver ela presa, ela merece cadeia, não vou sossegar. Ela é a responsável por isso que aconteceu com ele. Um homem de bem, trabalhador, pai de família, da filha dela, que cresceu brincando junto com os meus filhos aqui no bairro”, completou a vizinha.

O último adeus a Clécio teve direito a muitas palmas e hino do Bahia cantado pelos amigos da vítima. A homenagem, inclusive, contou com a presença do ex-presidente do Bahia Petrônio Barradas, que é síndico do prédio onde Clécio trabalhava há 10 anos como zelador, no bairro da Pituba.

Clécio foi morto por traficantes (Foto: Reprodução)

Clécio foi morto após ser espancado por supostos traficantes, na noite do último domingo (21), dentro da própria casa, na Chapada do Rio Vermelho, após ter sido acusado de agressão e tentativa de estupro conta a sua esposa, a cuidadora de idosos Joyce Marques Ramos, 39.

Advogado de esposa nega acusações
Procurado, o advogado de Joyce, Marcelo Duarte, informou que a cliente contou uma versão diferente da apresentada pelos familiares de Clécio. Segundo ele, o zelador esfaqueou a cuidadora de idosos em frente à residência onde o casal morava, por não aceitar o fim do relacionamento de sete anos, e garantiu que a cliente não possui participação na morte do esposo.

O advogado garantiu que Joyce foi aconselhada por ele a prestar queixa contra Clécio na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) e, logo depois, foi encaminhada para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) para prestar depoimento.

“Eles estão descontruindo a verdade. Querem colocar a Joyce, uma pessoa boa, que cuida de idosos há quase 10 anos, como mentora do crime. Ela morava com ele há sete anos, não me relatou se há um histórico de agressões. Mas aconselhei que ela fosse na Deam prestar queixa. A população não aguenta mais ver isso, de agressão, tentativa de homicídio contra mulheres”, disse o advogado.  .

Esposa afirma ter sido esfaqueada por ex (Foto: Reprodução)

O advogado garantiu ainda que Joyce sequer conhece traficantes da região. “(Ela é) Uma pessoa que eu conheço há muitos anos, cuida de uma idosa, na Barra, e é muito querida por todos. Ela está apavorada com tudo isso, com medo dos julgamentos prévios e nós vamos provar que ela nunca agrediu o ex-companheiro e, sim, foi agredida”, afirma ele, ao acrescentar que não está cobrando para representar a mulher.

Versão de amigos
Amigos próximos da vítima contaram a mesma versão dos parentes na segunda-feira (22). Eles seguiram com as afirmações de acusação contra a esposa de Clécio, de que ela tem envolvimento na morte do zelador.

Sem se identificar, um dos amigos contou que conhecia Clécio desde criança e não via nele um perfil agressivo, pois se tratava de um rapaz calmo. Ainda segundo o amigo, o zelador era apaixonado pela esposa e pela filha.

“Conhecia ele desde muito novo, era um rapaz bom, não fazia mal a ninguém, uma excelente pessoa. Ele já não tinha mais pai e nem mãe, faleceram há algum tempo, ele vivia por essa mulher e pela filha deles”, contou.

Outro amigo próximo ao zelador garantiu que Clécio não demonstrava ter problemas com a esposa. “Tenho para mim que essa mulher armou tudo para matarem ele. Ele era louco pela filhinha deles, não era capaz de encostar um dedo nela. Era um homem muito animado, adorava tocar os instrumentos dele, de falar de futebol, não tinha nada contra ninguém”, disse o outro amigo.

Relembre o caso
Clécio foi morto após ser espancado por supostos traficantes, na noite de domingo (21). Familiares da vítima conversaram com na manhã desta segunda-feira (22) e apresentaram uma nova versão para os fatos.

À reportagem, eles contaram que Clécio trabalhava como zelador em um condomínio no bairro da Pituba há 10 anos. Foi lá onde ele que ele conheceu Joyce Marques, com quem mantinha uma relação amorosa desde então. Buga, como era conhecido, iria entrar de férias no mês de agosto e estava planejando uma viagem com a esposa. O advogado Marcelo Duarte , que representa Joyce, diz que os dois estavam separados há sete meses e que Clécio não aceitava o fim da relação.

Segundo a família, a relação amorosa não atrapalhava a vida profissional deles. No entanto, quando Joyce foi demitida do emprego de empregada doméstica, o casal resolveu morar junto, na Chapada do Rio Vermelho. Foi a partir daí, segundo narra a família, que o relacionamento ficou conturbado, com muitos episódios de ciúmes e brigas.

No último domingo (21), enquanto o casal discutia, Joyce atacou o zelador e o teria ferido no peito. Segundo a família, após a confusão a esposa contatou traficantes do bairro e alegou que havia se defendido do companheiro depois de sofrer uma tentativa de estupro. Sem procurar saber detalhes do que aconteceu, cerca de 20 criminosos foram até a casa do casal.

Eles invadiram a casa e espancaram Clécio a pauladas, coronhadas e pedradas. O zelador chegou a ser socorrido pelo irmão para o Hospital Geral do Estado (HGE), mas não resistiu aos ferimentos e morreu horas depois.

Procurada, a Polícia Civil informou, por meio da assessoria de comunicação, que as informações registradas no boletim de ocorrência do HGE são relatos preliminares passados à Polícia Militar, e que ainda não é possível atestar a veracidade do que consta na ocorrência.

Ainda segundo a polícia, Joyce e os familiares de Clécio ainda não foram ouvidos na 1ª Delegacia de Homicídios (DH/Atlântico), do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), à frente da investigação do crime. Todos serão intimados a prestar depoimentos.

O casal
Um dos familiares contou que o zelador era uma pessoa do bem e disse que jamais imaginaria que uma brutalidade desse tipo pudesse acontecer com o parente. Para ele, Joyce armou a emboscada para Clécio por ciúmes.

“A gente quase não ouvia a voz dele, era uma pessoa que não gostava de falar muito. A mulher dele é muito ciumenta, eu acredito que a esposa armou tudo isso para ele, pois trata-se de uma pessoa controladora, que não deixava ele ir na casa da família, nem nada. Ela deu uma facada nele, estavam com problemas na relação. Como eu o conhecia bem e sei o jeito que ele era, ele apanhava calado. Ela o afastou completamente da gente. O bairro está totalmente de luto, todas as pessoas de bem gostavam dele”, contou.

Já um colega de trabalho de Clécio, que também pediu para ter seu nome preservado, afirmou ter ficado surpreso quando soube da notícia e da forma como o amigo foi morto.

“Eu conhecia os dois desde antes de começarem a namorar. Trabalhavam aqui no prédio, mas cada um na sua, sem atrapalhar o serviço do outro. Clécio era um ótimo colaborador, muito quieto, quase não abria a boca para falar nada, ia e voltava de bicicleta. Construímos uma grande amizade durante todos esses anos, vivíamos conversando sobre tudo. Ele era muito querido aqui no prédio e no bairro dele também, pelo que ele contava. É uma pena ter acontecido esse tipo de coisa com ele”, lamentou o colega.

O advogado de Joyce negou que ela tenha armado uma emboscada contra Clécio e afirmou que o zelador a agrediu inclusive com uma facada na mão – e que ela não revidou, fugindo da casa com a filha em busca de socorro. Ele garantiu que Joyce sequer conhece traficantes da região. “(Ela é) Uma pessoa que eu conheço há muitos anos, cuida de uma idosa, na Barra, e é muito querida por todos. Ela está apavorada com tudo isso, com medo dos julgamentos prévios e nós vamos provar que ela nunca agrediu o ex-companheiro e, sim, foi agredida”, afirma ele, ao acrescentar que não está cobrando pela defesa da mulher.

Além de zelador, Clécio também era percussionista e fazia bicos de músico em algumas bandas em Salvador.

Em nota, a Policia Militar disse que policiais da 40ª Companhia Independente da Policia Militar (CIPM/Nordeste de Amaralina) foram acionados após informações de que um homem havia sido vítima de espancamento no bairro. Ao chegarem ao local, a equipe da PM foi informada que a vítima já havia sido socorrida para a unidade de saúde.

Também em nota, a Polícia Civil informou que Clécio foi vítima de agressões e, posteriormente, foi socorrido para o HGE. Já a ocorrência, registrada no posto da unidade hospitalar, será encaminhada para a 28ª Delegacia (Nordeste de Amaralina), responsável por apurar o caso.

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