Por Alexandre Raith

Você vai ao banheiro e sente incômodo enquanto faz xixi? A dor ou ardência ao urinar, ao contrário do que se pensa, não é sintoma apenas de infecção urinária. O desconforto é um sinal de diversas doenças, como hiperplasia benigna da próstata, câncer no pênis, tuberculose do trato urinário, pedras nos rins, vulvovaginite, entre outras.

Algumas enfermidades podem causar, ainda, corrimento, dificuldade ou vontade frequente de urinar e mau cheiro na urina. Devido a variedade de fatores, o diagnóstico preciso depende de exame de urina e sangue.

“Disúria, ou dor e ardência ao urinar, é um sintoma de múltiplas causas. É importante analisar o histórico detalhado do paciente. Idade, gênero, tempo de sintomas, além de sinais que a acompanham, como febre, urgência ou esvaziamento da bexiga, dor nas costas ou vaginal”, afirma Karin Anzolch, urologista e titular da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).

A atividade sexual, especialmente das últimas três semanas, também importa no diagnóstico da ardência ao urinar, pois pode correlacionar com o início do sintoma.

Por que urinamos?

homem fazendo xixi - iStock - iStock

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Não existe uma regra de quantas vezes temos de ir ao banheiro, porque depende de fatores como quantidade de líquido ingerida, tamanho da bexiga e qualidade da alimentação. Mas por que urinamos?

“Parte da depuração que ocorre no nosso corpo é metabolizada pelos rins. A urina é formada por solutos, toxinas e sais minerais, que não saem de forma sólida e, portanto, precisam estar nela diluídas”, explica José de Resende Barros Neto, nefrologista e membro do Departamento de Nefrologia Clínica da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Expelir as toxinas do organismo nos protege de infecções. Por isso, não é recomendável segurar a vontade de fazer xixi. “A urina normal é estéril, mas o líquido parado na bexiga favorece a proliferação de bactérias”, conta Afonso Celso Pinto Nazário, ginecologista e mastologista do HCor.

Conheça a seguir 12 doenças que causam dor ou ardência ao urinar. Vale lembrar que, em caso de sintoma, não se automedique. Procure um médico, que irá descobrir o verdadeiro motivo do incômodo.

  • Infecção urinária

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A mulher tem mais incidência por causa do tamanho mais curto da uretra (4 centímetros contra 20 centímetros do homem). As bactérias contidas na vagina têm um caminho menor a percorrer entre a vulva e a bexiga, o que facilita a colonização e proliferação de microrganismos. A contaminação também pode acontecer por meio do sistema gastrointestinal, devido à proximidade com o ânus.

A atividade sexual ativa aumenta em até 60 vezes o risco de infecção urinária feminina —e não tem relação com o uso ou não de preservativo. As lesões na região íntima geradas pelo ato facilitam a contaminação. Uma dica é urinar logo em seguida, para limpar a uretra e, assim, eliminar as bactérias do canal.

Na gestação, a recorrência ocorre porque o trato urinário fica mais dilatado, o que dificulta o vazamento da urina. O acúmulo se torna, assim, um meio de cultura de bactérias. Se não tratar adequadamente, o processo inflamatório pode contrair o útero e predispor a trabalho de parto prematuro.

Mulheres na menopausa, atenção. Neste período, o revestimento interno urinário se torna mais frágil e, por isso, menos defensivo a agressões bacterianas, por causa da queda de produção de estrógeno.

Já a infecção urinária masculina é menos frequente, tanto pelo comprimento uretral quanto pela presença da próstata, que pode ajudar ou atrapalhar. A glândula favorece os mecanismos de defesa, pois funciona como uma sentinela antes de chegar à bexiga. Porém, pode infeccionar devido à proximidade com o órgão, onde fica armazenada a urina.

  • Cistite e uretrite

A inflamação da bexiga (cistite), causada por bactéria ou fungo ou até por uso prolongado de cateter no trato urinário, atinge mais mulheres pela mesma razão anatômica da infecção urinária. Outra possibilidade é a entrada de bactérias via uretra depois de relações sexuais. Já nos homens, fimose e aumento da próstata são os fatores de risco mais comuns.

Enquanto a infecção da uretra (uretrite) —bacteriana ou viral— provoca nos homens, além de ardência ao urinar, dor na relação sexual, coceira no pênis e presença de sangue na urina ou no esperma. O tipo viral é bastante comum após uma relação sexual sem preservativo. Gonorreia, HPV e herpes estão na lista dos responsáveis pela doença.

  • Pielonefrite

A dor e ardência ao urinar pode vir acompanhada de febre, dor lombar, hipotermia, calafrio, diminuição do apetite, queda de pressão e perda de consciência. Os sintomas são consequência da inflamação do rim.

Ao sentir esse conjunto de efeitos colaterais, procure imediatamente o serviço de urgência, sobretudo se for idoso, gestante, diabético, apresentar problema imunológico ou ter cálculo renal. Esse quadro revela que os germes estão circulando rapidamente pelo sangue. A infecção pode atingir diversos órgãos e causar morte por choque séptico.

  • Cálculo renal

Rins - Getty Images - Getty Images

Imagem: Getty Images

A presença de pedras nos rins causa dor no momento da micção quando há uma obstrução completa do trato urinário. Além do desconforto, em última análise, pode levar a sofrimento renal, por impedir a saída da urina.

A dor acontece porque o cálculo está no processo de saída, ou seja, já entrando na bexiga ou até na uretra. O que pode causar sangramento. Ele se forma devido à presença de quantidades expressivas de ácidos úrico e oxalato e de cálcio, que se unem e geram os cristais. Dica: beba água e tenha uma alimentação saudável.

  • Pedra na bexiga

A dificuldade de esvaziamento da bexiga ou infecções urinárias crônicas repetitivas causadas por germes podem impulsionar o desenvolvimento de cálculos no órgão. Diferentemente do que ocorre no caso de cálculo renal, que tem relação com componentes genéticos e alimentares, a formação na bexiga deve-se à infecção provocada por bactérias produtoras de pedras no sistema urinário.

  • Vulvovaginite

A dor ao urinar é causada pela inflamação da vulva por bactéria, fungo ou protozoário. Além do desconforto na micção, a doença ocasiona coceira e inchaço na vagina, corrimento com mau cheiro ou ardência no ato sexual.

É natural a mulher possuir a bactéria Gardnerella vaginalis, mas causa inflamação se a população cresce demais, devido ao desiquilíbrio da flora vaginal. O mesmo motivo, entre outros, provoca a candidíase, pela presença do fungo Cândida albicans. Já a presença do protozoário Trichomonas vaginalis deriva de uma IST (Infecção Sexualmente Transmissível).

  • Prostatite

Próstata - iStock - iStock

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A inflamação da próstata, localizada abaixo da bexiga, provoca ardência na micção porque o aumento da glândula dificulta a passagem da urina. Acontece quando a bactéria, adquirida sexualmente ou não, entra pelo orifício da uretra e atinge a próstata antes de chegar à bexiga.

Além do ardor, pode gerar sangue no esperma, que se torna mais líquido ou amarelado, dores no baixo ventre ou entre a bolsa escrotal e o ânus, e aumento de frequência urinária.

  • Hiperplasia prostática benigna

A doença indica o aumento do tamanho da próstata. Como o próprio nome diz, é benigno e não sinaliza uma predisposição a um câncer. Os sintomas mais frequentes são diminuição do calibre do jato urinário, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga e gotejamento após a micção.

A dor e ardência ao urinar acontece quando a hiperplasia prostática benigna está acompanhada de uma infecção urinária, justamente porque a bexiga não esvazia completamente, ou de outra doença urológica não relacionada com a próstata. É mais comum em homens a partir dos 40 anos, e a incidência aumenta de acordo com o avanço da idade.

  • Câncer de pênis e na bexiga

O câncer de pênis está relacionado à má higiene, infecções sexualmente transmissíveis ou fimose não tratada. Via de regra é externo, com o aparecimento de ferida que não cicatriza na ponta da glande ou no corpo do órgão. Na fase adiantada, pode invadir a uretra e causar ardor na micção. A amputação é uma das consequências da falta de tratamento adequado.

Já o câncer de bexiga tem o tabagismo como um dos principais fatores de risco. As substâncias cancerígenas inaladas entram na circulação sanguínea, passam pelos rins, que as elimina para a urina. O líquido fica armazenado na bexiga, que sofre com o contato com os componentes nocivos do tabaco. Um sinal de fácil percepção é a presença de sangue na urina, cuja cor se torna mais alaranjada ou avermelhada.

  • Tuberculose urinária

A tuberculose mais conhecida é a pulmonar, mas a doença pode afetar outros órgãos, inclusive o aparelho urinário, prejudicando rins, ureteres e bexiga. O modo de transmissão é o mesmo, pelo ar e contato com secreções respiratórias.

É detectável pelo aumento de glóbulos brancos na urina, e pode evoluir com sequelas como estreitamento do ureter, encolhimento da bexiga e cicatrizes renais.

Fontes: Karin Anzolch, urologista e titular da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia); José de Resende Barros Neto, nefrologista e membro do Departamento de Nefrologia Clínica da Sociedade Brasileira de Nefrologia e Afonso Celso Pinto Nazário, ginecologista e mastologista do HCor (SP).

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