Por Marcelo Testoni

Se você não caiu —o que poderia provocar uma fratura—, nem tem histórico de doenças, como osteoporose ou hérnia de disco, mas passa muito tempo sentado na mesma posição para trabalhar ou assistir à TV, e anda estressado, dormindo mal e de vez em quando até exagerando nos exercícios físicos, é provável que se estiver com dor nas costas o problema seja muscular.

“Embora aguda, geralmente essa dor é benigna e, com o passar dos dias, tende a melhorar por completo. Se você for jovem, saudável e não tiver nenhuma alergia, pode se automedicar com analgésicos e fazer compressas. Em até 48 horas, o alívio começa a ser percebido”, informa Alberto Gotfryd, ortopedista, especialista em coluna pelo Hospital Israelita Albert Einstein (SP).

Gotfryd alerta que as dores nas costas devem receber uma atenção maior, cabendo até ida a um pronto-socorro, se piorarem, forem persistentes, incapacitantes e, principalmente, se vierem acompanhadas de formigamentos, febre, náuseas e irradiarem para outras partes do corpo, como braços e pernas.

Crianças, idosos e pessoas com antecedentes de câncer, que pode dar metástase na coluna, precisam passar por uma investigação o mais rápido possível.

Hérnia de disco, desgastes e desvios

De acordo com Alexandre Fogaça Cristante, cirurgião de coluna e professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a região lombar (inferior das costas) costuma ser a mais acometida por dores, principalmente devido à intensidade de sobrecargas mecânicas, seguida da região cervical (superior), que é mais tensional e pode irradiar para a região dorsal (no meio da coluna).

Em adultos, depois das dores musculares, a das de hérnia de disco, que consiste em um deslocamento ou ruptura de disco intervertebral, um tipo de sistema que absorve o impacto da movimentação do corpo, localizado entre as vértebras, costumam ser as mais comuns.

coluna, hérnia de disco - iStock - iStock

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“Se causa sinais de gravidade, como perda de força e de sensibilidade ou alterações no controle da micção e evacuação, pode ser necessária cirurgia, mas não é a maioria”, esclarece Cristante.

A terceira causa mais comum de cores nas costas, segundo outro especialista em coluna, João Paulo Bergamaschi, ortopedista e coordenador da pós-graduação em cirurgia endoscópica de coluna na FMUSP, são os desgastes ósseos em várias regiões da coluna, sobretudo em idosos.

“Depois da hérnia de disco, eles [os desgastes] são a causa mais comum de dores ocasionadas pela compressão de nervos. Por exemplo, forma um bico-de-papagaio (osteofitose) na articulação e comprime a raiz nervosa, o que gera uma das piores dores que existe”, explica.

Curvaturas fisiológicas (lordose, cifose e escoliose) não causam dor, mas aumentadas, sim. Isso ocorre no médio e longo prazos e em razão de um desequilíbrio do grupo muscular da coluna que, consequentemente, também provoca alterações posturais, compressões e deformidades.

Tumores e infecções virais e bacterianas

Dores nas costas quando não estão relacionadas com problemas esqueléticos e musculares podem ser sintomas de tumores cancerígenos ou doenças respiratórias, como pneumonia, tuberculose e embolia pulmonar.

Infecções dentro dos pulmões podem se manifestar como uma dor no meio das costas e comumente vêm acompanhadas de febre, dificuldade para respirar e tosse persistente. Porém, apesar de serem bastante comuns, asma, bronquite, enfisema, fibrose pulmonar e bronquiectasia geralmente não ocasionam nenhum tipo de dor.

Pulmão - iStock - iStock

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“Essas doenças geralmente não causam inflamação pleural, ou seja, na pleura, uma ‘carapaça’ que reveste esse órgão, pois é ela que dói e não o pulmão em si. Então, quando se tem uma inflamação na pleura, ou um acometimento dela por um tumor, uma pneumonia, é possível sentir uma dor chamada pleurítica”, diz José Roberto Megda Filho, pneumologista pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e professor do grupo educacional de medicina Afya.

Essa dor é diferente da dor muscular porque, ao contrário dela, que geralmente piora quando se aperta com a mão, dorme de mau jeito ou faz um movimento na coluna, aumenta com a pressão e expansão da pleura quando se respira fundo, espirra ou tosse.

Megda Filho explica que a dor pleurítica também pode ser sentida em qualquer região do tórax e acometer nervos, costelas e coluna quando há um tumor grande. “O câncer de pulmão dói mais no estágio avançado, por isso até o diagnóstico é tardio, porque se demora em apresentar os sintomas”.

Mau funcionamento dos rins

A dor renal, se você nunca a teve, saiba que também pode ser confundida com uma dor muscular na região lombar e no meio das costas, sendo a lombar muito mais frequente. No entanto, se por trás da dor estiver um cálculo renal que desceu em direção à bexiga, é possível também sentir dor na parte mais baixa da barriga. É possível perceber que se trata de algo além de dor nas costas por ser uma dor repentina, independente de qualquer movimento.

Ter apenas um rim - iStock - iStock

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“Além de não variar de intensidade de acordo com o movimento e determinadas posições, o que é comum na dor muscular, a dor renal é comumente bastante forte e vem acompanhada de outro sintomas, como náuseas, vômito e, às vezes, diarreia”, diferencia Alex Meller, urologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e do Hospital Israelita Albert Einstein.

O médico acrescenta que não existe relação entre a intensidade da dor renal e o tamanho do cálculo, porque o que importa é o processo de obstrução que ele pode causar no ureter, e também lista como mais alguns fatores para esse tipo de dor: pielonefrite (infecção do trato urinário que subiu para os rins, causando inflamação), infarto renal, que é raro e geralmente acomete pacientes idosos, sangramentos e, mais raramente, rompimento de cistos renais.

Obesidade também gera dor

Obesidade infantil - torwai/iStock - torwai/iStock

Imagem: torwai/iStock

Quilos a mais também podem estar por trás de dores nas costas, tanto por representarem uma sobrecarga para o corpo como por causarem doenças que podem atingir ossos e inflamar músculos e articulações. A dor associada à obesidade não é aguda e está longe de funcionar como mecanismo de proteção, como quando se sofre uma lesão, por exemplo. É crônica e envolve mudanças hormonais, insônia, estresse, sedentarismo —relacionados à obesidade.

“Quanto maior a produção de gordura, maior a quantidade de hormônios pró-inflamatórios, que dificultam a perda de peso, a saciedade e geram mais dores e provocam alterações celulares. Por isso, o obeso é denominado um paciente inflamado crônico, ou seja, mais sensível a fatores inflamatórios”, explica Gabriela Cilla, gastróloga pós-graduada em nutrição clínica funcional pela VP Consultoria.

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