Por Felipe van Deursen

O Panamá é, antes de tudo, um istmo. Muito, mas muito antes de o Homo sapiens surgir e se espalhar pelo mundo, o Pacífico e o Atlântico se separaram, 2,8 milhões de anos atrás. Entre os dois oceanos, a América.

Em alguns pontos, como entre o noroeste do Peru e o Rio Grande do Norte, a distância do Pacífico para o Atlântico, na mesma latitude, chega a passar de 5 mil km. Na outra ponta da comparação, os grandes oceanos ficam menos de 100 km distantes um do outro. Ali, quem os separa é uma estreita faixa de terra que conecta as duas porções maiores das Américas. Por definição, um istmo.

Istmo do Panamá

Há séculos, a região é habitada pelos gunas (ou cunas). Os espanhóis chegaram pela primeira vez em 1501 e iniciaram o povoamento em 1513, com Vasco Núñez de Balboa. Os gunas, além de guaymís e chocós (todos povos chibchas), foram dizimados.

O Istmo do Panamá era também conhecido como Istmo de Darién. Hoje, o nome Darién se limita à província que ocupa a ponta leste do Panamá, na fronteira com a Colômbia. Trata-se de uma região notoriamente selvagem, que há séculos fustiga colonizadores.

No século 20, sua história ganhou uma nota curiosa. É que Darién é o local que impossibilita ir da América do Sul à do Norte (e vice-versa) usando apenas estradas.

Floresta de Darién

 

A GRANDE ESTRADA

Rodovia Panamericana

A mítica rodovia Panamericana é um sistema de estradas que liga as Américas, da Terra do Fogo ao Alasca. Nesses cerca de 18 mil km, é possível dirigir por todo o continente, basta ter boas doses de organização, disciplina e investimento. Na saudosa revista Mundo Estranho, explicamos isso em um infográfico detalhado.

Mas a Panamericana tem uma lacuna, que fica em Darién. Por cerca de 100 km, não há estrada alguma. A engenharia conseguiu fazer os oceanos “se beijarem”, com o Canal do Panamá, mas não deu jeito de “juntar os mindinhos” das Américas.

O “beijo dos oceanos”: cartão postal do começo do século 20 celebrando o Canal do Panamá

Existem alguns motivos que explicam por que não há uma estrada que ligue Yaviza, no Panamá, a Turbo, na Colômbia – o que, por consequência, ligaria as Américas. Houve tentativas, inclusive com investimento dos Estados Unidos. O país já havia fomentado a rebelião que levou à independência do Panamá em relação à Colômbia, em 1903. Naquele mesmo ano, os EUA compraram dos panamenhos a concessão para retomar os trabalhos do Canal do Panamá, até então um empreendimento falido e infernal.

Só que, nesse caso, os americanos tiveram que jogar a toalha. Certo, o terreno é inclemente, a região é inóspita. Mas é como na música de José Augusto e Xuxa Meneghel: “querer é poder”. Pelo menos em alguns casos. Se quisessem mesmo uma estrada rasgando a selva, eles fariam. Ou não?

Afinal, florestas não impediram monarquias e repúblicas de implementarem obras faraônicas. O próprio Canal do Panamá é um exemplo. Cerca de 6 mil trabalhadores, a imensa maioria caribenhos, morreram na fase americana da construção. Antes disso, o grupo francês que faliu antes de concluir a empreitada foi muito mais mortal: acredita-se que 22 mil pessoas perderam a vida na fracassada missão. Vinte e oito mil morreram, gastaram os tubos, mas o canal saiu do papel.

Ou seja, há outros argumentos envolvidos além da dificuldade em se construir naquela região. Alguns estão diretamente ligados à sua natureza bruta. Os povos indígenas alegavam que a estrada seria uma ameaça à sua cultura. Ambientalistas alertaram que o dano ecológico seria pesado.

A mata fechada de Darién: será mesmo instransponível?

Outro argumento envolve o agronegócio. Darién é uma barreira natural que impede que a febre aftosa chegue às Américas Central e do Norte. Essa doença atinge bovinos e suínos da América do Sul, mas desde os anos 1950 não aparece no resto do continente. Uma estrada ligando Panamá e Colômbia pode ser o suficiente para que o vírus, altamente contagioso, se espalhe. No Brasil, a febre aftosa é uma doença controlada, mas depende de vacinação em quase todo o território.

Em uma pouco comum e bem-vinda aliança entre povos originários e criadores de gado, a resistência à construção da rodovia se manteve forte. O Panamá criou, ali, a maior reserva natural da América Central e, em 1981, a Unesco decretou Darién como patrimônio ambiental da humanidade. No lado colombiano, os americanos incentivaram a criação do Parque Nacional Los Katíos, que teria a reconfortante função de ser uma barreira verde para conter a febre aftosa.

Não que isso tenha evitado completamente a voracidade das madeireiras na região, mas ao menos conteve a sana pelo asfalto. Ainda assim, em 2010, a Colômbia anunciou um projeto viário que iria da fronteira com a Venezuela até a região de Palo de Letras, no departamento de Chocó, quase no Panamá.

O polêmico complexo está quase pronto, e a nova estrada, por meio de suas ramificações, chegará mais perto de Darién, conectando cidades da região de Urabá.  Só que faltou combinar com o outro lado. Os panamenhos deixaram claro, lá em 2010, que não pretendiam abrir rodovia alguma na região.

SONHO ANTIGO

O desejo de uma estrada conectando as Américas já tem quase um século. Em 1928, os brasileiros Leônidas Borges de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e Mário Fava queriam provar que era possível fazer o trajeto de carro. Saíram do Rio de Janeiro sob aplausos em um Ford Modelo T. Em São Paulo, eles ganharam mais um veículo para a missão.

Chegaram ao Paraguai e seguiram até os EUA. Demoraram 10 anos, mas chegaram. Só que com um detalhe: na selva de Urabá, os dois carros da expedição cruzaram rios desmontados. 

A primeira travessia da fronteira Colômbia-Panamá feita 100% de carro ocorreu apenas em 1985-87. Sim, dois anos. Loren Upton e Patty Mercier levaram 741 dias (mais conhecidos como 2 anos e 11 dias) para vencer 200 km em um jipe.

Outros aventureiros conseguiram a proeza com meios mais propícios, como moto, bicicleta ou o bom e velho par de canelas. Todos os anos, quem não tem a sorte de fazer isso por esporte o faz por desespero: dezenas de milhares de migrantes enfrentam a “floresta mais perigosa do continente”, como já foi chamada algumas vezes.

Ela é inclemente. Na parte mais dura do trajeto, “as árvores são mais altas, de um verde tão verde que parece preto”, diz um bom, e sufocante, relato da travessia na BBC.

Principalmente nos anos 1990, guerrilheiros se embrenharam na Floresta de Darién

Como sempre, tudo pode piorar. Foi o que ocorreu quando a região estava infestada de guerrilheiros, especialmente nos anos 1990, época em que as Farc assumiram o controle da área.

O grupo de extrema-esquerda deixou um rastro de vítimas. Em 1993, três missionários evangélicos desapareceram no lado panamenho e, depois, foram declarados mortos. Em 2000, dois caçadores de orquídeas britânicos foram feitos de reféns por meses. Em 2013, um mochileiro sueco acabou morto, confundido com um espião.

Não eram somente os guerrilheiros das Farc que agiam. Em 2003, Robert Young Pelton, jornalista canadense especializado em zonas de guerra, foi sequestrado, ao lado de dois companheiros, pela AUC, antigo grupo paramilitar de extrema-direita.

Por essas e outras, a não ser que você seja alguém que teria um site chamado Comebackalive.com, quase todo mundo que faz a Panamericana despacha o carro antes da fronteira e viaja de barco ou avião até o Panamá (ou a Colômbia, no caso de quem faz o trajeto norte-sul).

Milícias e traficantes podem até se aposentar para sempre, mas a região continuará sendo o inferno da umidade e do calor, o caldeirão que engoliu a única tentativa colonizadora da Escócia. Uma aventura que sugou os cofres do reino, já capengas por uma série de outras crises, e acelerou o processo de unificação com a Inglaterra, em 1707 (nota mental, porém já compartilhada aqui com vocês: assunto para outro post).

O Panamá tem uma bela e curiosa silhueta – apesar de unir o norte e o sul, é um elegante “til” que se estende de oeste a leste. Em outra ironia, esse estreito pedaço de terra que liga os subcontinentes é o mesmo que interrompe e impede sua conexão rodoviária completa. A natureza de Darién agradece.

Compartilhar