Por Marcel Vincenti

Com o setor aéreo seriamente afetado pela crise gerada pelo coronavírus, surge a pergunta: o que as companhias aéreas estão fazendo com as aeronaves paradas por causa da pandemia?

Mesmo sem voar, aeronaves precisam de cuidados constantes e, também, impõem desafios logísticos às empresas aéreas.

Diante da incerteza de quando voltarão a operar, há a necessidade de proteger estas estruturas e deixá-las em condições seguras para voar novamente. Além disso, há a questão de onde mantê-las até que o fluxo de viagens no Brasil e no mundo volte a operar com vigor.

“Um avião não pode ser simplesmente trancado”

Aviões da KLM parados no aeroporto de Amsterdã - Divulgação

Aviões da KLM parados no aeroporto de Amsterdã

Imagem: Divulgação

“Um avião estacionado, sem previsão de retorno para operar, não pode ser deixado parado até a companhia precisar dele novamente. Uma aeronave deve ser mantida em condições de operação, para que possa voltar às atividades assim que for necessário”, informa a companhia aérea KLM.

“Inspeções periódicas são realizadas durante todo o período de estacionamento e variam de acordo com o tipo de aeronave. Os motores precisam ser iniciados ocasionalmente, a cabine deve ser arejada e os sistemas hidráulicos e de direção precisam ser testados”.

A KLM também diz que “sempre que uma aeronave está estacionada, a cabine é limpa. Os componentes vulneráveis são limpos e lubrificados para evitar corrosão durante o estacionamento”.

Já a companhia aérea Azul informa que “a cabine de passageiros e os motores dos aviões são submetidos a controles de umidade, trens de pouso são lubrificados, a pressão de pneus é verificada e os tanques de combustível são drenados para evitar acúmulo de água”.

Atenção aos mínimos detalhes

Aeronave da Latam com as turbinas cobertas - Divulgação

Aeronave da Latam com as turbinas cobertas

Imagem: Divulgação

Neste processo de zelar pelos aviões, alguns detalhes curiosos chamam a atenção.

A Air France, por exemplo, afirma colocar proteções em todas as entradas de ar e de sistemas sensíveis das aeronaves, “para impedir o ingresso de insetos” e essas são verificadas regularmente.

Diretor de manutenção da Latam Airlines Brasil, Alexandre Peronti conta que rodas de aviões podem se deformar caso fiquem paradas por muito tempo. “Por isso, é fundamental fazer, regularmente, a movimentação da roda”.

Peronti também relata que a Latam tem colocado proteções sobre as janelas de seus aviões parados, para evitar a incidência constante de luz dentro das aeronaves, o que, segundo ele, pode danificar materiais feitos de plástico e eletrônicos.

E, assim como a Air France, há uma grande preocupação na Latam com vedar as aberturas que existem nos aviões. “Pássaros podem querer entrar nestes locais e fazer um ninho lá dentro”, conta o diretor de manutenção da companhia.

E onde estão os aviões?

Aviões da KLM parados no aeroporto de Amsterdã - Divulgação

Aviões da KLM parados no aeroporto de Amsterdã

Imagem: Divulgação

Diversas companhias aéreas têm mantido suas aeronaves em aeroportos de seu país de origem ou em territórios que representam seu principal mercado de operações.

A KLM, por exemplo, informa que seus aviões estão, atualmente, estacionados no Amsterdam Airport Schiphol, na Holanda. As aeronaves ficam nos portões e na pista de decolagem Aalsmeer, que serve temporariamente como pista de estacionamento. No total, há sete áreas em Schiphol que concentram portões de embarque e cinco delas estão sendo usadas para estacionamento.

Da frota da KLM, incluindo a KLC [KLM Cityhopper, que realiza voos regionais na Europa], entre 70% e 90% dos aviões permanecerão estacionados pelo menos até o início de maio.

A Air France, por sua vez, informa que, atualmente, 180 de um total de 224 aeronaves da frota estão em terra. Mais de cem delas se encontram no centro de conexões de Paris-Charles de Gaulle e o restante está dividido entre o centro de conexões de Paris-Orly e Toulouse, onde fica uma base de manutenção.

Há cerca de 40 aeronaves em serviço ativo para operar a malha aérea vigente da cia francesa, que está significativamente reduzida, bem como para voos de carga e repatriação.

Já a Gol informa que suas aeronaves se encontram nos aeroportos onde a empresa possui equipes de manutenção e estrutura para fazer as preservações e manutenções, cumprindo os requisitos estabelecidos pelo fabricante [no caso, a Boeing]. Dentre estes locais, estão Congonhas, Guarulhos, Galeão, Confins e Brasília.

Como posicionar as aeronaves

Divulgação

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“A crise nos forçou a manter em solo a maioria da nossa frota. Como resultado, o Amsterdam Airport Schiphol está lotado, não com passageiros, mas com aeronaves”, relata a KLM.

A empresa conta que, no aeroporto, os aviões estacionados precisam de espaços específicos para seus respectivos tamanhos, o que gera um “grande quebra-cabeça”.

“E é preciso evitar que uma aeronave bloqueie a outra, caso uma delas precise ser removida para manutenção. Além disso, os mesmos modelos de aeronaves precisam estar próximos, para garantir que sua manutenção seja realizada da maneira mais eficiente possível”.

Aposentadoria antecipada do 747

Boeing 747 dá adeus antes do planejado - Divulgação

Boeing 747 dá adeus antes do planejado

Imagem: Divulgação

Além de manter milhares de aeronaves paradas ao redor do mundo, a pandemia de coronavírus tem sido responsável pela antecipação da aposentadoria de um verdadeiro clássico da aviação: o Boeing 747.

A KLM, por exemplo, estava planejando deixar de utilizar o Jumbo em voos comerciais no ano que vem, mas, com a crise provocada pela covid-19, a aposentadoria do avião (para o transporte de passageiros) foi antecipada para o último mês de março.

A empresa irá substitui-lo por aviões mais eficientes e que geram menos gastos. No mês passado, a empresa aérea Qantas também realizou seu último voo comercial com um Boeing 747, algo que também foi motivado pela crise provocada pela pandemia

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