Consumidores testam mecanismos para agilizar idas a centros comerciais, gastando menos de 30 minutos de tolerância.

O cronômetro do celular já está no ponto. Preparar… Objetivo: estacionar no Shopping da Bahia, fazer o que precisa e sair. Tudo em menos de 30 minutos. Apontar… “Não quero passar disso para não ter que pagar”, revelou o programador Hugo Darães, 33 anos, quando entrava no estabelecimento, ontem, primeiro dia de cobrança pelas vagas de estacionamento. Valendo!

 Motorista pega tíquete no Shopping Piedade, ontem, no primeiro dia de cobrança em estacionamento (Foto: Marina Silva)

Motorista pega tíquete no Shopping Piedade, ontem, no primeiro dia de cobrança em estacionamento
(Foto: Marina Silva)

Apressado, ele veio pelo estacionamento que dá no cinema, no terceiro piso. Tinha que chegar à loja da Vivo, no segundo andar, onde sua esposa trabalha, pegar o celular que estava com ela e voltar antes que acabassem os preciosos 30 minutos — tempo de tolerância para o estacionamento.

“Venho aqui quase todo dia, mas costumo demorar mais. Hoje (ontem), não dá para ser assim”, disse, enquanto andava a passos largos. Quando encontrou a esposa, a consultora de negócios Bia Soares, 40, até o beijo de cumprimento foi rápido.

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De olho no cronômetro, Hugo conseguiu resolver o que precisava e sair sem pagar: ainda restaram oito minutos (Foto: Marina Silva)

“Bora, que eu não posso demorar. Tenho só mais 14 minutos!”, alertou. Na volta, ainda parou no guichê para ter certeza de que não precisaria validar o cartão de saída, mesmo que ainda estivesse no tempo gratuito. Não precisava. Correu até o estacionamento de motos.

Entregou o tíquete aliviado: ainda sobraram 8 minutos e 37 segundos. “Dessa vez, consegui fazer o que precisava. Ainda bem”, comemorou.

TAC

Os 30 minutos de tolerância na cobrança do estacionamento são um dos itens estabelecidos por um Termo de Acordo e Compromisso (TAC) assinado pelos shoppings e pela prefeitura, na semana passada. Pelo TAC, os centros comerciais também devem garantir vigilância eletrônica e reforço na segurança.

Além disso, como contrapartida, os shoppings terão que construir 30 Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis), que devem atender a 15 mil crianças, bem como instalar um centro de monitoramento de trânsito e semáforos inteligentes na cidade.

O tempo de tolerância não é comum em todas as capitais. De 13 estabelecimentos de sete capitais procurados pelo CORREIO, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza, três contavam com o prazo, com até 20 minutos (Patio Higienópolis, de São Paulo; Rio Mar, de Recife; e Pátio Batel, de Curitiba). Mas o que mais dá para fazer com 30 minutos, além de encontrar a esposa?

Pois, com sorte, dá para usar serviços rápidos ou fazer compras objetivas. Se tiver mais sorte ainda e encontrar uma vaga para estacionar logo de cara, como a que o carro do CORREIO encontrou, de frente para a escada do Salvador Shopping, dá para ganhar tempo.

De lá, seguimos até uma farmácia, em busca de um antialérgico. Não tinha, mas tinha o genérico. Vamos, então, à concorrente, pertinho dali. Até tinha, mas o remédio custava três vezes mais. Assim, voltamos à primeira drogaria, com o genérico. Já com o produto, esperamos numa fila com dois atendentes de caixa para sete pessoas.

Depois, fomos até uma agência bancária. Mesmo com cinco pessoas na fila, deu tempo de imprimir um extrato bancário. Já tinham se passado 25 minutos. Era hora de ir até o guichê de pagamento. Lá, chegamos a 27 minutos e 23 segundos.

Maratona

Só que conseguir terminar tudo em 30 minutos não é uma tarefa fácil. O representante comercial Rodrigo Rigaud, 33, que o diga. Ele chegou às 10h39 no Shopping Barra. Quando ouviu na voz eletrônica da cancela que a cobrança pelo estacionamento havia iniciado, correu para entregar o produto que precisava a um dos seus clientes da loja.

A pessoa estava atendendo um cliente, demorou um pouco. Ao terminar, apressado, ele atravessou o shopping confiando na tolerância e tentou, às 11h15, sair sem pagar. Não rolou. A máquina não aceitou o tíquete, apresentou uma mensagem de que o cartão não estava pago e a cancela não subiu.

“Perdi R$ 6 da comissão. Agora que vou ter que voltar para pagar, vim só entregar um perfume e não valeu a pena”, comentou. “Diariamente, eu visito os cinco shoppings trabalhando, é claro, mas a gente também almoça, consome, e não acho que deveria pagar. Por dia, eu que já gastava uns R$ 30 de gasolina, agora vou ter que ter pelo menos mais uns R$ 20 no bolso para o estacionamento”.

O aposentado Ronaldo Silva, 62, também não teve sorte. Ele até achava que conseguiria comprar um sapato e um perfume em meia hora. Mesmo sendo objetivo, não deu.  Ele passou pouco mais de 50 minutos rodando pelo Salvador Shopping e ainda saiu de mãos vazias. “Não gostei de nada. E preciso comprar isso hoje (ontem), porque vou viajar para o Jorro”, contou.

Resultado? Teve que pagar os R$ 6 e ainda saiu em direção a outro shopping. Mas, dessa vez, o destino foi bem arquitetado: para evitar ter que pagar mais uma vez, foi ao Bela Vista, onde, até ontem, não havia previsão de quando deve começar a cobrança. Enquanto isso não acontece, Ronaldo e outros tantos fazem a festa.

Com cidade vazia, shoppings não têm avaliação de primeiro dia

Por conta dos festejos juninos, os shoppings não conseguiram avaliar o impacto do início da cobrança. “Não podemos fazer variação de público. A cidade está vazia, mas o sistema de cobrança está funcionando bem”, avaliou, ontem, o coordenador regional da Associação Brasileira dos Shopping Centers (Abrasce), Edson Piaggio.

Quem deixava o carro no shopping para ir trabalhar, não sabe o que vai fazer. “Eu acho injusto, eu também comprava aqui, não era sempre, mas comprava”, justifica o comerciante Paulo César, dono de uma loja próximo ao Shopping Lapa, onde ontem passou menos de 30 minutos, mas costumava deixar o veículo durante o dia.

Há três anos vendendo cartela de Zona Azul na Avenida Sete de Setembro, próximo ao Relógio de São Pedro, Noelia de Oliveira está acostumada em ver os clientes fiéis ficarem só as primeiras horas da manhã na vaga. “Depois que o shopping abria,  ia todo mundo pra lá, para ficar mais tempo; acho que isso agora vai mudar e a rotatividade aqui deve diminuir pela manhã”, acredita.

O microempresário Luiz Carlos Santos rodou o shopping à procura de um produto, não achou, mesmo assim precisou desembolsar R$ 8 no Piedade. “É abusivo”, reclamou. Além dos consumidores, o primeiro dia foi também de adaptação para funcionários dos centros de compras.

Os do Shopping Barra fizeram uma comissão para convencer o shopping sobre a liberação de vagas para quem trabalha lá. “Temos mil e cem assinaturas de funcionários que querem ter a garantia de estacionar. Hoje (ontem), acordei mais cedo e achei vaga na rua. É feriado e as ruas estão vazias, mas nos outros dias não vou achar”, comenta o cabeleireiro Aliomar Andrade.

“Quando tem sorteios, somos diferenciados e não podemos participar por sermos funcionários, mas quando é para cobrar somos como qualquer outro? O shopping precisa rever isso”, completa o colega de profissão e também funcionário do Shopping Barra Irismar Fonseca.

Segundo Cherry Almeida, da diretoria do Sindicato dos Comerciários, a categoria pretende, na próxima semana, promover reuniões e manifestações nos shoppings. “Nenhuma empresa é obrigada a oferecer estacionamento, shopping não é diferente e Salvador não vai ser diferente do Brasil”, retrucou Piaggio sobre a liberação para os funcionários.

Por enquanto, o agricultor aposentado José Trocoli, 62, mudou os hábitos e já estabeleceu que deixará de ir ao shopping passear — mas ainda há uma esperança. “O shopping virou um espaço de convivência para a terceira idade. Por enquanto, a pessoa pode deixar o carro no (Shopping) Bela Vista, pegar o metrô e vir aproveitar o Centro”, brinca.

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