Sentada numa cadeira giratória, embalada pela musica Lucy in the Sky With Diamonds, dos Beatles, numa versão de um músico de rua chamado Ed Alleyne-Johnson, e iluminada por milhares de pontos de luzes coloridas projetados nas velhas paredes da sala de tijolos aparentes, Rita Assemany cumprimenta os espectadores, enquanto esses tomam seus assentos na Sala Ita, na Rua das Laranjeiras, número 38, no Pelourinho.

O momento é de reencontro da atriz com a plateia após 10 anos sem estrear um espetáculo. Minutos depois, Assemany incorpora a nova personagem criada especialmente para ela por sua autora predileta, a dramaturga Aninha Franco, sua parceira no teatro desde os anos 1990, que a presenteou com a sala de espetáculos no casarão histórico batizado de República AF, que agora está sendo aberto ao público.

assemanyRita Assemany volta aos palcos com o monólogo Surf no Caos: em cartaz às quintas e sextas para plateia de 20 pessoas ( Foto: Renato Santana)

Aos poucos, a atriz vai ao encontro de Lucy, a macaca que viveu há 3,2 milhões de anos e que simboliza a evolução humana. O espetáculo Surf no Caos foi escrito pela dramaturga e concebido pela própria atriz em parceria com Jorge Vox. O texto é uma reflexão sobre o caminhar da  humanidade. Durante pouco mais de uma hora, o público ri, emociona-se, reflete, ou simplesmente diverte-se com a performance extraordinária da atriz que inclui até número de sapateado.

“Por onde eu andava? Surfando…no caooos. Que caos? Todos. Surfei para sobreviver aos escuros e aos clarões de luz. Aos buracos e aos blocos de concreto, e às figuras que moram nos dias e nas noites, todas de ficção, todas completamente reais”. Recado dado, a atriz gira, gira e gira a cadeira mirando o olho de cada um dos 20 espectadores que todas as quintas e sextas-feiras, às 19h30, têm um encontro com ela na República AF,  o casarão histórico que depois de anos servindo como laboratório de ideias de sua proprietária, a escritora Aninha Franco, agora virou um clube de associados.

No final, o público é convidado para um brinde na cozinha da casa, cômodo que, embora tenha sido o último da casa a ser reformado, nos últimos anos ganhou fama e prestígio por ter abrigado, na sua disputada mesa de 12 lugares, grandes encontros de pensadores, do Brasil e do mundo, em torno da boa gastronomia.

aninhaA dramaturga Aninha Franco está à frente da República, espaço que reúne seu acervo pessoal  (Foto: Renato Santana)

Sonho Antigo 

A escritora Aninha Franco adquiriu o velho casarão no final dos anos 1990 com o dinheiro ganho com as bilheterias dos espetáculos Os Cafajestes e Oficina Condensada. Este último, protagonizado por Rita Assemany, deve voltar a cartaz no  espaço, assim como outros do repertório da dupla que planeja revisitá-los na República.

Além desses, a Sala Ita abrirá para outras produções artísticas. O ator Carlos Betão já reservou pauta. “Essa é uma casa de encontros, de celebrar a vida, a arte, porque sem arte é impossível sobreviver”, diz Rita.

Desde que pôs os pés na casa do Pelourinho, Aninha Franco começou a desenhar o projeto que estava na sua cabeça há quase 40 anos: ter um espaço onde pudesse fazer poesia, comer, beber e pensar. Ali, na sala que elegeu como seu estúdio, ou melhor, seu laboratório de ideias, saíram projetos e textos que alimentaram a rica programação do extinto Theatro XVIII, que ela e Rita Assemany comandaram durante 11 anos, e o transformaram no mais  pulsante e revolucionário da cidade.

5

Um dos destaques do espaço é o acervo de 14 mil livros, muitos raros (Foto: Renato Santana)

Raridades

Atuante nas redes sociais, a escritora passou a divulgar os encontros, as visitas, ilustres ou não, que aconteciam na casa histórica rodeada de livros, discos de vinil, CDs, programas de teatro e shows, prêmios, cartazes de espetáculos, jornais, revistas, arte popular e tudo o que remete à cultura e à arte.
Hoje, somente o acervo de livros reúne mais de 14 mil títulos, englobando todas as áreas do conhecimento. De economia a política, de artes visuais a cinema, de teatro a poesia, de romances a gastronomia, de filosofia a história. “Todo o pensamento está aqui. E hoje, à disposição de pesquisadores, de pessoas interessadas em consumir conhecimento, cultura e arte”, diz.

O acervo, construído ao longo de uma vida, não para de crescer. A mentora da República está sempre investindo na aquisição de novos títulos. Além disso, doações de obras chegam das mais diversas partes do mundo. Gente que passou pela República e que se encantou com o projeto da bacharela em Direito que trocou a advocacia pela arte. “Da Carta de Pero Vaz de Caminha ao livro de Pedro Malan, recém-lançado, tudo está disponível na República. Todo o Brasil está aqui neste espaço”, diz.

Entre as dezenas de estantes que abrigam o acervo físico, totalmente catalogado e dividido entre as diferentes áreas do conhecimento, estão obras raras como a primeira edição de Cachoeira de Paulo Afonso, do poeta baiano Castro Alves, a primeira edição, em francês, de Darwin e até o primeiro livro erótico publicado no Brasil: O Elixir do Pajé, de Bernardo Guimarães.

“Impossível você querer um poeta maravilhoso e não encontrar na República”, diz a escritora que considera a República AF como “um espaço analógico com recursos digitais”. Por lá, estão ainda, dentre outras preciosidades – muitas delas autografadas pelos autores – obras completas de Frederico Lorca, Proust, Molière, Jorge Luiz Borges, Guimarães Rosa, Mario Quintana, Neruda, etc.

A República reúne ainda um espaço dedicado às cartas de amigos como Caio Fernando Abreu, Maria Bethânia, João Silvério Trevisan, Jorge Amado, Beth Coelho, Regina Duarte, Zé Celso Martinez e Barbara Heliodora, dentre outros. Nos diversos cômodos estão também recantos que a idealizadora batizou de oratórios como os dedicados a Elis Regina e Janis Joplin, que reúnem álbuns, fotografias e peças referentes às duas artistas, além de uma pequena loja de artesanato da Oropa, França e Bahia, que reúne o melhor da arte popular brasileira.

afA boa gastronomia é destaques da República Af, que dá acesso aos visitantes a todos os cômodos, incluindo a cozinha (Foto: Renato Santana)

 Compartilhamento

Desde que a República começou a tomar forma, a proprietária já sonhava em socializa-la. “Pensei em transformar numa fundação, para não deixar esse acervo se perder, mas aos poucos fui amadurecendo a ideia de criar um modelo novo, um clube de associados, onde as pessoas pudessem se tornam sócias e passassem a ter acesso a tudo que oferecemos aqui”, diz.
Logo que anunciou a ideia de abrir o espaço, as inscrições não pararam de chegar. Cuidadosa, ela avalia pessoalmente a ficha do proponente e decide pela aceitação ou não. “Precisamos ter controle de quem entra aqui porque é um espaço privado”.

Também por isso, Franco estabeleceu um teto para o número de associados. “Pararemos de receber novos sócios quando chegarmos aonúmero que considerarmos suficiente para garantir o conforto dos associados”, diz. Somente nos primeiros dias, já foram centenas de pedidos de solicitações recebidos.

Além da Sala Ita, que ganhou tratamento acústico primoroso, o casarão dispõe de salas de pesquisas e de aulas para as mais diversas linguagens artísticas, espaço para pequenos eventos, cozinha para almoços, jantares e cursos de gastronomia, além, claro, do seu vasto e precioso acervo. A programação está sendo construída para acontecer de segunda a sexta-feira, sempre a partir das 14h.

Associados

Segundo Aninha Franco, a ideia de batizar o espaço de República AF surgiu quando percebeu que a casa reunia tudo o que representa uma república. “Tinha que ser República porque é isso o que falta ao Brasil. O país está apenas começando, precisa de modelos novos, como foi o Theatro XVIII que se perdeu. A República AF é um modelo novo e necessário, 100% privado, onde os donos são os sócios, que chamamos de republicanos”, explica.

Para se associar é preciso encaminhar um email para republicaafpensar@gmail. com e, caso seja aprovado pela proprietária, o novo sócio pagará uma taxa anual de R$ 180, que pode ser parcelada em até 12 vezes no cartão de crédito. “Estes recursos irão garantir a manutenção do espaço e a sua existência no futuro”, explica.

Por falar em futuro, a idealizadora do projeto também já cuidou disso. “Estou fazendo um testamento doando o espaço para a cidade e que terá duas guardiãs: Kátia Martins e Rita Assemany, que depois passarão para duas outras pessoas e assim sucessivamente, não necessitando ser exatamente da família, mas pessoas que amem a arte”, revela.

Compartilhar