Além da necessidade de alertar a população a continuar buscando ajuda médica mesmo em casos que não tenham relação com o novo coronavírus, os médicos têm reforçado a importância de manter o calendário de vacinação em dia —especialmente para bebês e crianças.

Em 2019, o ressurgimento de doenças consideradas controladas no Brasil, como o sarampo, já havia acendido um alerta sobre a baixa cobertura vacinal e a vulnerabilidade da população brasileira. O medo agora é que, com a crise sanitária provocada pelo Sars-CoV-2, a procura por esse serviço seja ainda mais baixa, piorando a situação já considerada preocupante.

No mundo, a falta de cobertura também provocou um aumento dos casos da doença —que é altamente contagiosa. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que, por conta da pandemia, cerca de 117 milhões de crianças no mundo ficarão sem a vacina contra o vírus.

No Brasil, dados do Boletim Epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde dão conta de 2.805 novos casos apenas este ano. Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina concentram o maior número de casos confirmados, 96,3%.

Muito além do sarampo

De acordo com Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), além do sarampo, doenças como rubéola, febre amarela e meningite meningocócica podem voltar a circular em território nacional —ou circular com mais força— justamente pela falta dessa proteção.

Em junho de 2019, por exemplo, a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde) emitiu uma nota alertando para a necessidade de reforçar a vacinação contra a rubéola. Assim como o sarampo, a doença causa febre, mal-estar e lesões avermelhadas pelo corpo, mas tem sintomas mais leves e é considerada menos contagiosa.

O problema é que o vírus é responsável por causar a SRC (síndrome da rubéola congênita), condição que acomete recém-nascidos de mães que contraíram o vírus durante a gestação e pode provocar surdez, cegueira e atraso no desenvolvimento da criança.

“As pessoas precisam lembrar que não é apenas a vacina da gripe que deve ser tomada mesmo durante a pandemia. Existem outras que devem ser ministradas, especialmente em crianças, que costumam desenvolver quadros mais graves das doenças”, explica a especialista.

No caso do sarampo e da rubéola, a vacina utilizada é uma só: a tríplice viral, que previne ainda contra a caxumba. A dose está prevista no Calendário Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde.

OPAS orienta vacinação

Além de causar preocupação nas pessoas por conta do risco de contágio, o cenário de pandemia ainda pode provocar disrupção no oferecimento do serviço de vacinação —já que o sistema de saúde estará sobrecarregado ou mesmo colapsado por conta da alta demanda de tratamento com pacientes da covid-19.

Pensando nisso, a OPAS divulgou, em março, um documento reforçando que o serviço deve ser mantido sempre que possível, mesmo que de forma limitada, e só interrompido em caso de colapso.

Nesse caso, a entidade recomenda que, tão logo seja possível, as campanhas e o serviço de vacinação sejam retomados e intensificados —já que muitas pessoas podem ter ficado sem acesso a ele, ou mesmo optado por não sair de casa— e o público-alvo seja analisado para atingir as pessoas que mais necessitam da imunização.

Situação pode se agravar após quarentena

A interrupção do serviço, no entanto, é o pior dos cenários quando pensamos no mundo pós-pandemia. “Enquanto estamos todos em casa, estamos relativamente protegidos”, afirma Ballalai. “Mas, e quando a quarentena terminar? E quando as crianças voltarem para a escola?”, questiona.

Uma das doenças que podem causar problemas graves em crianças, especialmente em bebês, é a coqueluche, que também está com baixa cobertura vacinal. De acordo com o Datasus (Departamento de Informática do SUS), em 2018, cerca de 85% das crianças receberam a primeira dose da vacina pentavalente (que previne, além da coqueluche, o tétano, a difteria, a hepatite B, a meningite e infecções pela bactéria HiB).

“É claro que não é um procedimento simples”, afirma Marco Aurélio Safadi, pediatra e infectologista do Hospital Samaritano (SP). “É preciso evitar horários de pico, não deixar um idoso ou pessoa do grupo de risco da covid-19 acompanhar a criança e ainda tentar fazer com que a saída seja rápida, o que nem sempre é possível, especialmente para as pessoas que moram em locais com baixo acesso aos serviços de saúde”, explica.

No entanto, os riscos que existirão após o fim do isolamento são muitos grandes caso o calendário não seja seguido. “Algumas dessas doenças podem ser devastadoras especialmente em crianças pequenas e recém-nascidos, e podemos ter problemas ainda mais graves do que os apresentados pela covid-19”, acredita.

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