Ácaros existem aos milhares, tanto em número de indivíduos, como em espécies. Sua maioria é invisível a olho nu e está presente em diversos ambientes, como travesseiros, sofás, bichos de pelúcia e até mesmo na pele humana.

São parasitas que se alimentam de células mortas, não só de pessoas como também de animais de estimação, e que cujas fezes e até o próprio esqueleto ao entrarem em contato com as narinas ou com a pele têm o poder de provocar processos alérgicos e infecciosos, que podem piorar se houver a presença de vírus e bactérias.

Os ácaros mais comuns são os de poeira doméstica e responsáveis por desencadear ou piorar inflamações, como riniteasma, rinoconjuntivite (junção de alergia das mucosas nasais com inflamação da conjuntiva dos olhos) e dermatite atópica —uma alergia não contagiosa, mas que pode ser seguida por coceira, vermelhidão e descamação.

“Os três principais ácaros de poeira são Dermatophagoides pteronyssinus, Blomia tropicalis e Dermatophagoides farinae, como são chamados cientificamente”, explica Ana Carolina Rozalem Reali, pediatra, alergista e imunologista pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Além deles, destacam-se por oferecer riscos à saúde muitos outros ácaros, entre os quais Demodex e Sarcoptes scabiei. O primeiro tipo, típico de mamíferos, se distribui em 65 espécies e vive diretamente ou próximo de folículos pilosos e glândulas sebáceas, onde depositam seus ovos.

Demodex folliculorum e Demodex brevis são popularmente conhecidos como ácaros dos cílios e se a pessoa estiver com a imunidade baixa podem aumentar de número e causar inflamações nas pálpebras (blefarite) e agravar a rosácea, que atinge principalmente o rosto.

Já o Sarcoptes scabiei causa a sarna humana (escabiose), que tem como origem infestações de ácaros que se alimentam da camada mais externa da pele, onde também abrem túneis, se reproduzem e depositam ovos.

A doença apresenta um grau de transmissibilidade elevado e atinge principalmente quem não mantém bons hábitos de higiene, o que inclui não trocar de roupas com frequência.

O compartilhamento dessas peças, assim como de uma cama ou mesmo de um sofá infectado também pode contribuir para a disseminação da escabiose.

“Não é raro que em uma mesma família, pelo contato próximo, todos os membros sejam acometidos pela escabiose, que é a principal doença que os ácaros provocam na pele humana”, afirma Damaris Ortolan, dermatologista da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia).

Como reconhecer sintomas e doenças?

Para identificar que tipo de ácaro está em ação e diferenciar as doenças que causam, pois em sintomas elas podem ser muito parecidas com outras, é necessário ir ao médico, que submeterá o paciente a exames, tanto observacionais como aprofundados.

Em se tratando de pele, se não for possível em uma primeira análise verificar como os ácaros estão distribuídos pelo corpo, pode se realizar um teste de puntura ou mesmo uma coleta de sangue para identificar se o paciente produziu o anticorpo IgE (Imunoglobulina E), a esse alérgeno.

Na escabiose, geralmente com o exame clínico já é possível saber se a infecção está presente ou não e o diagnóstico definitivo é feito a partir da raspagem das lesões e investigação com lupa especial. A doença se manifesta como bolinhas vermelhas e uma coceira persistente, principalmente em áreas quentes do corpo, como dobras, axilas, umbigos, vãos dos dedos, região íntima e tende a piorar à noite.

“Em bebês, nota-se lesões nas palmas das mãos e plantas dos pés, podendo até acometer couro cabeludo e face”, informa Felipe Yazawa, dermatologista da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e da clínica Cia. da Consulta.

O médico acrescenta que alguns quadros de escabiose podem apresentar infecção secundária ao ato de se coçar, podendo até haver necessidade de internação.

Quanto a ácaros que ocasionalmente podem provocar algumas doenças, como os do gênero Demodex, eles não oferecem o mesmo perigo e risco de transmissão de uma escabiose, mas se desencadearem uma blefarite, por exemplo, as pálpebras podem ficar vermelhas, inchadas, com coceira e crostas.

Já quando associado com a rosácea, o rubor característico dessa doença inflamatória pode evoluir para uma vermelhidão ainda mais intensa, com manchas e sintoma de ardência.

De acordo com Fausto Nakandakari, otorrinolaringologista do Hospital Sírio-Libanês (SP), por trás de problemas respiratórios estão os ácaros de poeira e os sintomas também costumam ser muito parecidos com os de crises alérgicas provocadas por pelos de animais e poluentes.

Os diagnósticos mais comuns se baseiam pelos sintomas, mas para saber exatamente a quais alérgenos específicos o indivíduo reage, pode se fazer, como já mencionado, alguns testes.

“A realidade é que nos grandes centros urbanos todas as principais causas de doenças alérgicas estão relacionadas. Quando os ácaros estão presentes, os sintomas costumam ser os mesmos de rinite, como espirros frequentes, nariz entupido, coriza e coceira nas mucosas. Já na asma o principal sintoma é a falta de ar e o chiado no peito”, esclarece o otorrino.

Tratamentos e prevenção

Doenças ocasionadas por ácaros, como rinoconjuntivite alérgica, asma alérgica e dermatite atópica são crônicas, ou seja, duram a vida toda e apresentam períodos de melhora e piora não exclusivamente relacionados com esses seres.

Dermatite atópica é uma doença crônica que pode ser ocasionada por ácaros - iStock

Dermatite atópica é uma doença crônica que pode ser ocasionada por ácaros

Imagem: iStock

Cada uma tem seu tratamento específico, mas, em geral, são tratadas com anti-inflamatórios potentes como corticoides, sendo preciso tomar cuidado com o uso exagerado.

“Os antialérgicos têm papel mais importante apenas na rinoconjuntivite alérgica”, ressalta a alergista Ana Carolina.

Para se precaver, pessoas alérgicas também devem manter distância dos ácaros, que podem estar presentes aos milhares em tapetes, cortinas e bichos de pelúcia, por exemplo.

A recomendação de Nakandakari é fazer a limpeza da casa com pano úmido para remover toda a poeira e trocar as roupas de cama pelo menos uma vez por semana.

Para quem sofre de doenças alérgicas respiratórias, o ideal é que durante a limpeza se use uma máscara, depois lave bem o nariz com soro fisiológico e, se necessário, faça inalações e use medicamentos com efeito de alívio, como antialérgicos e, para quem tem asma e bronquite, broncodilatadores.

Agora, direcionado à escabiose, em geral, todos da família do paciente acometido pela doença devem ser tratados ao mesmo tempo, para evitar quadros de reinfecções, mesmo se não apresentarem coceira.

A orientação também vale para companheiros e pessoas próximas que tiveram contato íntimo com ele. Entre os procedimentos para matar ácaros estão inseticidas (escabicidas), que agem como um remédio cutâneo que deve ser aplicado sobre o corpo inteiro, com exceção de olhos e mucosas, e também medicamentos por via oral.

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