‘Caça-nazistas’ vem ao Brasil atrás de cúmplices de Hitler

O Terceiro Reich desmoronou 71 anos atrás, levando nazistas do baixo ao alto escalão a escaparem em peso para a América Latina. Essa debandada foi comparada à fuga dos roedores num navio indo a pique –as “rotas dos ratos”.

Uwe Stein, investigador que comanda a equipe alemã que busca nazistas, no Arquivo Nacional, no Rio
Uwe Stein, investigador que comanda a equipe alemã que busca nazistas, no Arquivo Nacional, no Rio

O delegado Uwe Steinz, 58, ainda “tem esperança” de encontrar vivo alguns dos responsáveis pelo genocídio de judeus na Segunda Guerra.

Após combater o crime organizado e a prostituição em seu país, o alemão vive de “caçar nazis” —e crê que há um punhado deles no Brasil.

Desde 2009, o funcionário do Escritório Central de Investigação dos Crimes Nazistas já fez 14 visitas ao Arquivo Nacional, no Rio. Steinz procura, entre cinco milhões de cadastros de imigrantes, registros de alemães nascidos entre 1916 e 1931. Quem se encaixa no perfil tem os dados enviados à sede na Alemanha, que verifica se a pessoa esteve a serviço do Terceiro Reich.

A maioria é de legítimos refugiados de guerra, mas há os “criminosos”, diz. Se localizados, eles terão hoje entre 85 e cem anos —idade máxima para prender alguém, segundo a legislação alemã. Caso se encaixem na faixa mais jovem, eles teriam 14 no fim do conflito, possivelmente egressos da Juventude de Hitler.

“É a agulha no palheiro”, diz Mauro Lerner, coordenador do Arquivo Nacional. “E quando você encontra a agulha, ela já está morta”, afirma Monica Marraccini, intérprete da conversa com Steinz.

De fato, entre os prontuários analisados pelo alemão e sua equipe (uma assistente e um estagiário), apenas um registro de alguém que havia servido ao nazismo foi encontrado, mas o homem já estava morto há 30 anos.

Esse oficial participou de uma unidade de extermínio na Ucrânia. Depois, virou um pacato cidadão do Paraná. Morreu em 1986, de velhice. Steinz prefere não revelar o nome para preservar a família, bem estabelecida na área.

Há ainda casos que parecem estar fechados. Só parecem, afirma o investigador. Cita Aribert Heim como exemplo. Vulgo “Doutor Morte”, ele decorava sua escrivaninha com crânios de judeus, relataram sobreviventes.

Heim teria morrido em 1992, aos 78, no Cairo. “Mas não tenho 200% de certeza de que ele esteja morto”, diz Steinz, sem precisar onde seria o paradeiro do senhor de 102 anos.

Na visita anterior, o investigador levou para casa 423 nomes. O trabalho no Brasil está longe de acabar —no mínimo uns cinco anos, calcula o coordenador do Arquivo Nacional. Steinz se aposenta em dois.

Ele não veio à caça dos “peixes grandes” da SS, a tropa de elite nazista —mais velhos, já não devem estar entre nós. Seu alvo é o “baixo clero”, como guardiões de campos e contadores.

Steinz chegou aos arquivos de imigração por dica da professora da USP Maria Luiza Tucci Carneiro, que escreve o livro “Missionários do Reich”, previsto para agosto. Ela narra como o Brasil serviu de lar para nazistas. “E nem sempre entraram com identidade falsa, considerando que os governos Vargas e Dutra eram germanófilos e antissemitas.”

O mais famoso, Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, foi o médico em Auschwitz encarregado da triagem de prisioneiros (trabalho forçado ou câmara de gás). Morreu aos 67 anos, em 1979, afogado em Bertioga (litoral de SP), possivelmente vítima de ataque cardíaco. Nunca foi julgado.

Há mais relatos de nazistas graúdos no Brasil, como Herbert Cukurs (que alugava pedalinhos em Niterói) e Franz Stangl, empregado numa fábrica da Volkswagen no ABC paulista. Preso em 1967, Stangl foi extraditado e virou réu pela morte de 900 mil pessoas. “Minha consciência está tranquila”, disse então. Ratos nos mordam.

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