Por Paola Machado

Nessa quarentena, já expliquei os problemas de ficar mais tempo sentado em home office e também das implicacções de ficar maratonando séries, que pode gerar dores nas costas. Mas ainda falei sobre outra questão preocupante: a grande quantidade de tempo investido em jogos de videogame, que levam adolescentes e adultos ficarem madrugadas disputando partidas.

Para se ter ideia, estudos relatam uma média de 13 horas por dia gastas com videogame nos Estados Unidos, sem contar o tempo que as pessoas passam conectadas aos demais gadgets. E isso é uma tendência mundial, portanto, não é de se surpreender o grande aumento de pessoas bem jovens se queixando de dores nas articulações, principalmente nos punhos e nos dedos e na coluna.

Os problemas do uso excessivo de videogame

Os primeiros sinais de que você está abusando do uso de aparelho eletrônicos são as dores nas articulações e de cabeça que se intensificam com o passar do tempo. Uma análise sistemática recente constatou que a alta frequência de uso de celular (mexendo em mensagens de texto, jogos e gastando tempo olhando as redes sociais) se associa a distúrbios, principalmente, da postura do pescoço. Os cientistas relatam que o uso excessivo e simultâneo de diferentes eletrônicos é fator de risco para se desenvolver dores musculoesqueléticas e outros problemas de saúde relacionados.

Abaixo, listo 10 problemas de saúde que você pode desenvolver se ficar jogando videogame excessivamente:

  1. Dores: movimentos repetitivos podem provocar dor e limitação, principalmente em punho e dedos (inflamações acometem o tecido periarticular –os músculos, ligamentos e tendões).
  2. Má postura: ocorre principalmente pela tensão nos ombros e o tempo prolongado que você fica na mesma posição.
  3. Problemas de audição: escutar música e jogar com fones de ouvido em volume alto pode causar problemas em longo prazo.
  4. Problemas de visão: exposição excessiva às telas e falta de lubrificação dos olhos por diminuição de piscadas pode predispor a irritação e problemas de visão.
  5. Dor de cabeça: uso prolongado de eletrônicos é considerado fator de risco para cefaleias e ainda está associado ao aumento das taxas de depressão e ansiedade.
  6. Alteração do sono: estudos mostram que jogar videogame à noite atrasa e encurta o tempo de sono noturno. Pesquisadores concluíram que jogar games estimulantes antes de dormir leva a um menor autorrelato de sonolência antes de ir para a cama e diminui o sono REM. Essa alteração do sono pode gerar fadiga, estresse e o surgimento de dores crônicas.
  7. Vício: em caso extremo, pode se tornar um vício associado à redução da vida social real, de convívio.
  8. Sedentarismo: uso prolongado de eletrônicos apresenta associação à diminuição dos níveis de atividade física, aumento de obesidade e queixas de cansaço.
  9. Estresse: Além das horas sem dormir para jogar, hábito que por si só já estressa o organismo, estudo mostrou que o som e a música dos jogos de videogame podem estimular a liberação do cortisol (hormônio do estresse).

Não estou aqui para dizer que você deve parar de jogar. Até porque, a ciência mostra que os games têm pontos positivos. Uma revisão sistemática aponta que pessoas que jogam videogame, por exemplo, tem melhor capacidade cognitiva em comparação a quem não joga. Os games, por exemplo, oferecem uma melhora significativa da atenção, dos processamentos visuais e espaciais e das funções executivas, principalmente da memória operacional.

A questão é jogar com moderação. Não exagere no tempo em frente às telas e mantenha sua saúde física e mental. Além disso, o videogame não pode ser motivo para você dormir mal, deixar de fazer exercícios e comer besteiras. Você pode jogar, desde que isso não atrapalhe a realização de atividades importantes para a saúde. No caso de crianças, o cuidado deve ser redobrado pelos responsáveis, reduza o tempo de exposição aos jogos para garantir um uso seguro e saudável.

*Com colaboração de. Renata Luri, fisioterapeuta Doutorada pela Unifesp, e Juliana Satake, fisioterapeuta da La Posture e especialista pela Unicamp.

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