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Ação literária na Casa das Histórias distribui cordéis sobre heróis negros e capoeiristas – Prefeitura Municipal de Salvador

Texto: Nilson Marinho / Secom PMS
Foto: Jefferson Peixoto / Secom PMS

Mestres de capoeira foram transformados em personagens de ficção e passaram a ilustrar as páginas de duas obras de cordel: “A Lenda do Badauê” e “Mulungu de Ronda”. Ambas, criações do ilustrador e comunicador Eddy Azuos, foram distribuídas nesta quarta-feira (8), na Casa das Histórias de Salvador (CHS), no Comércio, para os visitantes que estiveram no local. A ação, realizada pela Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador (Secult), ocorreu no dia em que a visitação aos equipamentos culturais públicos da cidade é gratuita e integra a programação do Dia Nacional do Livro Infantil.

Os visitantes também participaram de um bate-papo com o autor, com a oportunidade de tirar dúvidas e conhecer melhor o processo criativo. A ideia para a construção das obras, de acordo com Eddy, nasceu de um questionamento sobre a ausência de referências nacionais no gênero de super-heróis.

“Por que a gente não usa capoeiristas como fonte de inspiração para construir nossos próprios super-heróis? Por que temos ninjas, tartarugas e até monges, mas não nos inspiramos nas nossas próprias referências? Então, achei que poderíamos, em algum momento, ter um universo de super-heróis inspirado nas histórias brasileiras, e que a capoeira poderia ser um potencializador para isso”, explicou.

A obra de estreia, “A Lenda do Badauê”, por exemplo, utiliza elementos da capital baiana, como o Dique do Tororó, como cenário para o surgimento de um justiceiro negro. O visual do protagonista é uma homenagem ao Mestre Moa do Katendê. Já o segundo título, “Mulungu de Ronda”, resgata a figura histórica de João Mulungu, líder escravizado em Sergipe.

Egresso da cultura hip-hop, Eddy adaptou a métrica de composição do rap às regras da literatura de cordel. Enquanto o primeiro livro foi escrito em quintilhas, o segundo utilizou sextilhas. Segundo ele, é necessário atenção à rima, à cadência e à sensibilidade de quem vai ler ou ouvir a obra.

“É um desafio muito interessante porque, ao mesmo tempo em que você precisa se preocupar com a rima, também deve evitar a repetição de palavras e dar sentido às sensações que o público vai experimentar. O cordel foi feito para ser recitado, não apenas lido; por isso, é preciso escrever imaginando a sonoridade. Tudo precisa fazer sentido. Não se pode usar muitas palavras fora do contexto de quem vai ler, para que a obra seja compreendida. Foi nessa ideia que o cordel me fisgou”, explicou.

Um dos visitantes que teve acesso às obras do comunicador foi o bancário Alfredo Bonini. Natural do interior de São Paulo e de férias em Salvador, ele nunca havia lido um livro de cordel. “Eu adoro literatura e costumo ler os clássicos, mas é muito bom conhecer obras como essa, sobretudo com personagens que representam outras culturas”, comentou.

Para o autor, levar histórias a espaços como a Casa das Histórias é fundamental para a democratização da leitura. Ele já havia participado da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), na edição do ano passado, onde seus livros também foram distribuídos aos visitantes.

“Tenho certeza de que as pessoas sairão daqui com vontade de conhecer outros super-heróis negros capoeiristas ou até de criar suas próprias histórias. Isso é positivo porque, quando vemos alguém fazendo algo simples, como um livro de poucas páginas, percebemos que também somos capazes. Eu também posso dar vida aos meus personagens. Aqui é a Casa das Histórias e, quando contamos nossa própria trajetória, estamos reivindicando um direito que é nosso. Vale a pena não deixar que a nossa história seja apagada, e este espaço tem um papel fundamental nisso”, concluiu.

O autor também aproveitou o encontro para anunciar seu próximo lançamento: “Maria do Cambotá”. A nova obra apresentará uma super-heroína no universo da capoeira, com traços inspirados na Mestra Janja, do Grupo de Capoeira de Angola Nzinga, com sede na capital baiana.

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