Bairro de São Caetano vive onda de violência, com guerra do tráfico e toque de recolher

Quando o servidor público José Aristides, 49 anos, saiu de casa para acompanhar a filha até o ponto de ônibus, na manhã de sexta-feira (20), em São Caetano, o primeiro assunto que abordou ao encontrar um vizinho foi o duplo homicídio registrado na localidade da Cirlândia, na noite anterior.

Tratar do  assunto parecia algo estranhamente comum, diante da recorrência de crimes na região nas duas semanas.  Foram cinco homicídios (três em um período de apenas 24 horas) e 12 tentativas de assassinato desde o dia 7 deste mês.

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“A situação de São Caetano está crítica. Todo dia a gente ouve comentários sobre mortes. Como ninguém tem como parar a vida por causa disso, a gente tenta adaptar à rotina”, relatou Aristides, que passou a levar e buscar a filha no ponto de ônibus diariamente. “Tem escola liberando mais cedo, comércio fechando as portas e o povo se trancando. Eu mesmo evito sair depois de 20h”, disse.
Homicídios
Os dois mortos dos comentários de seu Aristides são Erick Gonçalves dos Santos, 23, e Miguel Jesus Santos, 20, alvejados por disparos feitos por dois indivíduos a bordo de uma moto, por volta das 23h de anteontem, próximo ao Bar do Valter, na Boa Vista de São Caetano. A polícia suspeita que as vítimas tinham envolvimento com o tráfico de drogas e foram mortas em mais um capítulo da guerra entre traficantes do bairro contra facções da Liberdade.

Segundo a polícia, o incidente tem a ver com uma rivalidade antiga entre criminosos dos dois bairros, que se acirrou desde o início do mês. “Nós passamos a receber mais chamados de tiroteios em localidades como a Cirlândia e a Formiga, por isso reforçamos o policiamento na área”, afirmou o subtenente Rodrigues, que é coordenador de operações da Base Comunitária de Segurança de São Caetano.

Já na tarde de ontem, um homem foi morto a tiros, dentro de uma borracharia, próximo à Estrada Lobato/Campinhas, em Boa Vista do Lobato.  Até o fechamento da edição, a polícia não havia informado identidade da vítima e circunstâncias  do crime. A policia apura se a morte também tem relação com a guerra do tráfico na região.
Seis baleados
A situação que desencadeou a contagem foi um tiroteio na Rua Areal de Baixo no dia 7 de março. De acordo com denúncias de moradores, cerca de dez homens armados que se identificaram como integrantes do PCC de São Paulo, e estariam tentando dominar o tráfico na região, invadiram uma residência onde acontecia uma festa de aniversário e dispararam contra os presentes.
De acordo com o relato, o grupo já tinha estado no local antes tentando intimidar a população com um toque de recolher, contudo, como a população não se intimidou, a quadrilha saiu e retornou disparando contra quem estava na rua. Segundo a Central de Polícia, sete pessoas foram baleadas no local naquela noite:  Gildenise Neves Conrado, 46, atingida no braço direito e abdômen, e Jéssica Bispo Ribeiro, 23,  baleada no braço direito, pernas e nádegas, foram socorridas ao Hospital Ernesto Simões. Já Kuezia Souza dos Santos, 24, Edinei Farias Xavier, 26, Alex Santos de Jesus, 25, e Luan Ricardo Silva de Jesus, 22, também foram baleados e socorridos por vizinhos ao Hospital Geral do Estado.
A delegada titular da 4ª Delegacia  (São Caetano), Jorvane Andrade dos Santos, confirmou a ocorrência, mas não informou o andamento das investigações nem se é verdadeira a versão de que membros do PCC estariam envolvidos. O estado de saúde das vítimas é desconhecido.
No dia 15, Yuri Barbosa Pacheco Ribeiro, 20, deu entrada no Hospital do Subúrbio depois de ser atingido por disparos no tórax, braço e pescoço durante uma troca de tiros com traficantes na Capelinha de São Caetano. Junto com ele estava Hebert Reis da Cruz, que foi alvejado no pé, coxa e região lombar.
Para a delegada, as brigas são travadas entre traficantes da mesma localidade que,  promovem os tiroteios como forma de demonstrar força e intimidar a população. “Toda essa região tem uma área com topografia favorável ao tráfico. Além disso, a população não costuma colaborar com as investigações. Isso dificulta bastante”, justificou. “Toda essa situação propícia se soma à luta antiga e às retaliações para mostrar poder e prejudica os moradores que ficam em meio ao fogo cruzado”.

Escola e até igreja também são alvos da violência
Apesar dos homicídios e tentativas, o maior volume de ocorrências na Área Integrada de Segurança Pública 4, que abrange São Caetano e mais oito bairros,  é referente a crimes contra o patrimônio, segundo a delegada Jorvane Andrade. E nem a igreja escapa.

A  paróquia de São Caetano, por exemplo, foi alvo de um arrombamento há 15 dias. A lanchonete que funciona ao lado da igreja foi violada e diversos itens foram roubados, entre eles, cadeiras, mesas e até um pacote de veneno para plantas.

Uma semana depois, a lanchonete voltou a ser arrombada. Os ataques forçaram a paróquia a pagar pela instalação de grades nas janelas e portas. Além desse incidente, a violência fez com que fossem canceladas duas vezes a tradicional Via Sacra, realizada pela paróquia nas ruas do bairro, durante a Quaresma. Havia temor dos devotos pela situação de insegurança nas ruas após o anoitecer. “Às vezes, quando chega o fim da tarde, o pessoal manda mensagens falando de tiroteio e arrastão. Quem vai?”, questionou uma funcionária.

A Escola Municipal Antônio Carlos Magalhães também foi alvo dos bandidos, segundo a Secretaria de Educação (SMED).  Um homem pulou a grade e, com uma arma, rendeu o porteiro, levando produtos e colchonetes.

Moradores também já denunciaram à polícia a ação de duplas a bordo de motocicletas, que praticam arrastões em pontos de ônibus. “Alguns passageiros contaram que eles passam armados e rendem as pessoas em busca de celulares e dinheiro”, relatou um rodoviário.

De acordo com o subtenente Rodrigues, da BCS de São Caetano, a topografia do bairro prejudica as rondas. “Desde o início do mês, intensificamos as rondas, contando com viaturas da Rondesp, Operação Gêmeos e Apolo”, afirmou ele.

Entrega de cartas foi suspensa
Entre 9 de janeiro e 10 de março deste ano, a Empresa de Correios e Telégrafos ficou sem fazer algumas entregas em São Caetano e Fazenda Grande do Retiro, por conta dos assaltos a carros com materiais de valor.

Segundo a assessoria dos Correios, a normalização do serviço só ocorreu após reuniões com o governo do estado, que garantiu o reforço de segurança no local. Os serviços estão sendo retomados de forma gradativa.

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