Club Med Itaparica encerra atividades após 40 anos

Unidade de Vera Cruz foi a primeira a ser implantada pela rede francesa no Brasil

Ao que parece mera coinciência, no dia em que a cidade de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, completou 57 anos, foi sacramentado o último suspiro de seu maior equipamento de turismo e renda: o resort Club Med, estabelecido no local há 40 anos. Para além da comemoração, a gestão da cidade já busca estratégias para reduzir o “dano à economia” – dado como certo pela Secretaria Municipal de Cultura Esporte e Turismo (Setur).

Confirmado há pelo menos quatro meses, o último dia de atividades foi reafirmado à reportagem, nesta quarta-feira (31), por meio da assessoria da rede francesa Club Méditerranée. A razão do fim, segundo o grupo, atende à “estratégia mundial de focar em resorts que evoluem para um posicionamento premium”. Quando ficou decidido que o legado de quatro décadas, em Itaparica, chegaria ao fim, no entanto, o Club Med optou por não responder.

O grupo também não informou quantos funcionários diretos e terceirizados tiveram os contratos suspensos, mas garantiu, contudo, que todos eles “terão seus direitos trabalhistas garantidos no ato da rescisão”. Ainda sobre o encerramento das atividades, o Club Med disse que tem feito contatos com outras redes hoteleiras, com quem tenta “negociar as candidaturas” de seus profissionais.

“Foram adotadas medidas para a promoção de cursos em parceria com o Senac para reorientação profissional – seja para empreendedorismo, seja para realocação no mercado de trabalho – e a possibilidade de se candidatarem a vagas nos demais resorts da rede, de acordo com as posições disponíveis”.

Em nota, o grupo francês acrescentou que Itaparica, pelo qual “reitera o seu carinho”, foi o primeiro lugar, no Brasil, a receber uma unidade do luxuoso resort, que segue em funcionamento em solo baiano com a unidade de Trancoso, no sul do estado. Os Clubs do Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, e Lake Paradise, em São Paulo, também não serão afetados.

“Ao longo desses 40 anos de atividades na região, prezamos pela mesma, tratando-a com muito respeito, e garantimos cumprir todos os nossos deveres com o encerramento do resort”.

Luxuoso resort funcionou em Itaparica por 40 anos (Foto: Divulgação)

Turismo e economia
Sem detalhar número, a nota enviada  sugere que houve tentativas de novas reservas para além da data de encerramento, previamente definida como 31 de julho. As demandas tentadas, ainda de acordo com o grupo, estão sendo avaliadas para a possibilidade de “ajustar as expectativas com outras unidades”.

Secretário de Cultura, Esporte e Turismo de Vera Cruz, Luiz Henrique Amaral afirmou que o fechamento do resort, que considera um dos maiores geradores de emprego, causará um grande impacto. A secretaria estima que ao menos 200 pessoas eram diretamente contratadas pelo grupo, além dos terceirizados.

“É um grupo tão grande e representativo que, naturalmente, tem reflexo direto na nossa economia, especialmente pelos empregos que deixa de gerar. Além disso, perdemos, ainda, a qualidade do turista que vinha para se hospedar lá”, comenta.

À gestão municipal, aos olhos de Luiz, cabe, a partir de agora, traçar novas estratégias no setor do turismo. “Além de toda economia de um equipamento desse porte, do modelo que o Club Med tinha, tudo com muita excelência. Cabe a nós pensar no que fazer, o quanto antes, para dar o dinamismo que Vera Cruz merece. Já temos algumas sinalizações de mercado, mas nada muito certo”, revela, ao lembrar que a administração do resort “sempre manteve tudo em legalidade com o poder público”.

Resort tinha cerca de 400 quartos, no estilo “informal chic” (Foto: Divulgação)

‘Morte anunciada’
O setor de turismo do estado da Bahia também lamentou o fechamento do Club Med Itaparica, mas classificou como uma “tragédia anunciada”. Os operadores contam que nos últimos anos, a rede Club Med vinha fazendo investimentos em outras unidades no país, como Trancoso e Rio, e deixado o local defasado.

“O equipamento de Itaparica ficou ultrapassado. Os proprietários deveriam vir atualizado o equipamento, mas é uma morte anunciada. Nem Itaparica nem o governo pensou em uma solução para o resort, um pioneiro na região”, disse Silvio Pessoa, presidente da Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (FeBHA). Pessoa afirmou que o resort tinha em torno de 240 e 400 quartos.

O trade ainda destacou que o resort é o maior empregador do município, o que significa que o fechamento gera um impacto muito forte na economia local. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-BA), Glicério Lemos, destacou que o fechamento causa desemprego e diminui a arrecadação de impostos.

“É uma questão mais geográfica, ocasionada mais pela dificuldade de acesso, porque os resorts do Litoral Norte e de Salvador estão bem. O Club Med também poderia estar bem, mas foi uma situação de política da empresa. As dificuldades de acesso foram se agravando com as dificuldades do ferry-boat. No Verão, passei oito horas e meia em uma fila para vir para Salvador, para o turismo isso é muito difícil”, defende Lemos.

A presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav-BA), Ângela Carvalho, também acredita que o fechamento irá impactar diretamente na categoria. “Nós vamos ficar com uma opção a menos para oferecer ao cliente que vem para a Bahia, e para as pessoas que são de Salvador e querem passar um final de semana em um resort”, lamenta.

À reportagem, a Secretaria de Turismo do Estado (Setur) afirmou que o gestor da pasta, Fausto Franco, manteve constantes conversas com os proprietários do Club Med, mas que o encerramento já estava decidido e decorria “de uma decisão estratégica da própria empresa”.

‘Hora de dizer adeus’
Na página oficial do resort, no Facebook, alguns funcionários se referem ao Club Med como uma “segunda casa”, o lugar onde aprenderam a ser um “GO (Go Fitness, uma espécie de animador) de verdade”, como o ex-gerente de animação Caio César.

O ex-funcionário, no entanto, disse que preferia não se pronunciar sobre o fechamento do resort, onde afirma, em post público, ter trabalhado por cinco anos. Na publicação, postada no início da tarde, ele agradece à gestão pela oportunidade de “fazer a última dança do sol”.

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