Facção obriga moradores a deixar portas abertas no Nordeste de Amaralina

Criminosos buscam abrigo em casos de fuga e perseguição policial

Em alguns pontos do Complexo do Nordeste de Amaralina, as portas das casas vivem abertas, os portões escancarados e os cadeados sequer existem. Apesar disso, o cenário descrito está longe de remeter a um ambiente pacífico. Pelo contrário. Esta é uma tática de traficantes.

Os criminosos obrigam os moradores a facilitar o acesso deles às residências para que possam se esconder em caso de perseguição policial. Foi o que aconteceu na noite desta terça-feira (28), na Santa Cruz, quando cinco homens mantiveram refém uma família. A negociação durou cerca de três horas e terminou com a rendição dos criminosos e a libertação das vítimas.

Os bandidos que participaram dessa ação fazem parte da facção Comando da Paz (CP), que controla o complexo – composto pelos bairros do Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e Chapada do Rio Vermelho.

“Esses elementos se protegem na comunidade, pois nasceram e cresceram ali. Se escondem nas residências e, muitas vezes, moradores de bem são obrigados [a deixar a porta aberta]. Caso contrário, pagam com a lei do tráfico”, explicou o comandante de Operações da Polícia Militar, coronel Humberto Sturaro, sem explicar que tipo de punição eles sofrem.

Em conversa também com um policial militar da 48ª Companhia Independente da PM (Nordeste de Amaralina) sobre a prática. Ele, que preferiu não se identificar, confirmou que os moradores são oprimidos pelos criminosos.

“Essa é uma tática implantada pela facção aqui. Os moradores são obrigados a deixar as portas de casas e portões abertos para que os traficantes possam se esconder até a saída da polícia. Caso sejam descobertos, fazem moradores reféns, como garantia de que sairão ilesos. Um dos bandidos que participaram de um confronto em março deste ano, quando um policial civil foi baleado, dias antes, numa outra ação policial, disse que ficou escondido por uma hora na casa de uma vizinha que o tinha como filho. Hoje ele está preso”, contou o PM.

Ainda de acordo com ele, outras duas táticas são usadas pela facção para dificultar a ação da polícia. “Os traficantes obrigam crianças a ficarem brincando na rua, porque faz com que os policiais diminuam o ritmo durante uma incursão. Quando não é isso, é a presença intensa de estudantes fardados transitando nas ruas entre as 12h e 14h ou 16h e 18h, horários de intenso tráfico. Eles também se passam por parentes dos moradores. Ficam perto de grupo de pessoas e, quando a polícia chega, dizem que moram em uma das casas e moradores têm que confirmar. Normalmente são idosos”, revelou o PM.

Presos na operação
A ação com reféns dessa terça deixou 10 homens presos. Todos foram apresentados na manhã desta quarta (29), na sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba.

As primeiras prisões ocorreram após policiais da 48ª CIPM serem informados pela Superintendência de Inteligência da SSP que o traficante João Paulo Souza Santos, 22 anos, o “JP”, que tem mandado de prisão aberto por tráfico, estava com outros integrantes do grupo numa praia.

“A PM chegou no local e cinco deles estavam com um carro roubado. Não reagiram. Eles estavam de posse de certa quantidade de droga e uma arma”, disse o titular da Delegacia de Homicídios Múltiplos (DHM), delegado Odair Carneiro, que é responsável por investigações contra homicidas do Nordeste de Amaralina.

No local, foram presos João Paulo e Alex de Oliveira Santos, 21, o “Arraia”, que lideram a organização criminosa que atua com comércio de entorpecentes, homicídios, roubos e corrupção de menores, na localidade da Sucupira, no bairro da Santa Cruz, além de Lucas dos Santos, o ‘Amoeba’, 20, André Caique Pereira Bispo Santana, 21, e Wesly Machado Soares, 21. Todos foram autuados por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo.

Apesar da informação de que a Polícia Civil prendeu o grupo em uma praia de Ondina, parentes dos criminosos disseram que a prisão ocorreu em um restaurante com teleférico construído sobre o mar, dentro de um hotel de luxo no Corredor da Vitória. O grupo vinha sendo investigado há dois anos pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) e Polícia Federal.

“Eles não estavam fazendo nada demais. Só se divertindo. Ninguém estava armado e com droga”, disse a namorada de um dos presos, que preferiu não se identificar.

Na apresentação, o delegado Odair Carneiro explicou que, após a prisão, o quinteto forneceu informações que levaram os policiais a uma casa na Rua Sapucaia, na Santa Cruz, onde funciona o ponto de encontro do grupo. “Os policiais foram até o local em busca de mais armas e drogas. Quando chegaram, foram recebidos a tiros e os bandidos foram para outra casa, onde fizeram os reféns. Houve a negociação e eles se entregaram”, explicou.

Após negociação, foram presos mais cinco homens: Fábio de Souza Costa, o ‘Binho’, 34, Mateus Santos Silva, 24, Jônatas Silva da Cruz Cerqueira Santos, 18,Renilson dos Santos Puridade, 22, e Gabriel Oliveira de Alcântara, 30. Eles responderão por porte ilegal de arma, resistência, cárcere privado e tráfico de drogas.

Três casos em seis meses
Este é o terceiro caso recente em que traficantes fazem reféns no Complexo do Nordeste. O segundo caso aconteceu em abril deste ano, na localidade de Serra Verde, no Vale das Pedrinhas. Na ocasião, cinco homens e um adolescente mantiveram sob a mira de armas três pessoas de uma mesma família.

Na fuga, eles entraram no imóvel, mas acabaram cercado pelos policiais. Horas depois, todos se entregaram e ninguém ficou ferido. “Eles são tão traquejados nisso que, a primeira coisa que fazem, é correr para um local onde as casas são muito próximas, para dificultar a ação da polícia. Um dos traficantes desse caso já tinha sido preso numa situação similar, em dezembro do ano passado”, explicou o PM que conversou sob anonimato, fazendo referência a Eric dos Santos Batista.

Em dezembro do ano passado, Eric e outros três homens invadiram o Centro de Saúde Osvaldo Caldas Campos, também no bairro de Santa Cruz, e fizeram 16 reféns por mais de três horas. “Naquele dia, durante perseguição policial, eles preferiram entrar no posto porque tinha mais gente”, explicou policial.

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