Prédio do antigo hospital Couto Maia está abandonado

Moradores e comerciantes relatam prejuízos após fechamento de unidade; Sesab não tem prazo para nova ocupação

É quase meio dia e as cadeiras dos restaurantes e quiosques da Rua Rio São Francisco, no Monte Serrat, ainda estão vazias. Desde o dia 9 de julho de 2018, quando as portas do Hospital Couto Maia abriram pela última vez, o bairro vive as consequências deixadas pelo vazio. Os moradores acompanham as mudanças e os comerciantes sofrem a queda dos lucros, enquanto esperam sem nenhuma definição o futuro da unidade que, por 165 anos, delineou parte da vida econômica, urbana e social da região.

Fosse nove meses atrás, Maria do Carmo, 73, sequer conseguiria tempo para conversar com a reportagem. “Eu não estaria aqui sentada não. Só estou conseguindo manter o restaurante porque é próprio”, acredita a senhora que, há 40 anos, vive do comércio naquela mesma rua. A estimativa é de uma queda de 80% nas vendas, decorrentes da falta de um projeto para os prédios, depois da transferência do hospital para Águas Claras. A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) afirma que os projetos estão em fase de pesquisa, mas sem previsão de entrega.

Quiosques e rua vazios depois da desativação do Couto Maia 
(Foto: Evandro Veiga)

A promessa inicial era transformar a unidade em um centro de cuidados para pacientes crônicos. Que os pacientes do interior, por exemplo, pudessem ficar internados por mais de um mês. Agora, restam as especulações. Será o antigo Couto Maia, no futuro, uma unidade de tratamento de dependentes químicos? Ou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA)? Quem sabe um museu para relembrar o passado da instituição? Há sempre uma nova teoria, alimentada pelos moradores da região.

Na porta de seu restaurante, criado há três anos para atender a demanda dos visitantes dos pacientes do Couto Maia, Paulo Roberto, 52, vê a rotina mudar bruscamente. Se antes vendia 15 quentinhas por dia, hoje não vende três.

Mensalmente, 1,5 mil pessoas eram atendidas nos 97 leitos do Couto Maia, de acordo com a Sesab. Além, claro, dos 500 funcionários. Eram os clientes em potencial de Paulo Roberto.

Hoje, apenas o Hospital Sagrada Família, também no bairro, não consegue movimentar a economia local como fazia o centro de referência no tratamento de doenças infectocontagiosas na Bahia.

“Quando chega 16h, já é um esmo. Eles falam que inauguraram, mas cadê o novo? Agora, temos que competir por três clientes que saem de lá”, conta Paulo, morador do bairro há 30 anos.

A hora do café da manhã e do almoço costumavam ser as melhores para o comércio local. Afinal, o tratamento dos enfermos era geralmente longo. Ali internavam-se doentes de febre amarela, febre tifoide, varíola. Também pessoas em tratamento contra a Aids, por exemplo. A demora impunha uma nova rotina aos acompanhantes.

“Mudou tudo. Simplesmente fechou e ficamos sem nada”, lamenta, de frente para a rua quase vazia.

Na banca da família de Cleonice Santana, 54, os bolos, salgados e café eram os favoritos. Na semana passada, decidiram que venderiam somente bolo – e assado em casa. Na visita em uma quarta-feira, Cleonice, no ponto há 10 anos, tinha em caixa R$ 2 da venda de uma fatia.

Paulo Roberto vê planos de aproveitar a movimentação no bairro frustados (Evandro Veiga)

O vazio da rua começa a semear entre os comerciantes a necessidade de, quem sabe, deixar para trás o trabalho. “Se não há cliente, a gente não vende. Há dois anos, comecei para encher o tempo, estava aposentado. É como se fosse uma terapia”, afirma Manoel Messias, 71, sentado em frente ao quiosque onde vende doces e a sobrinha atende em um pequeno salão de beleza.

Como diminui o movimento, também cresceu a sensação de insegurança. No dia anterior à visita da reportagem, por exemplo, um assalto assustou os moradores. Em nota, a Polícia Militar (PM) informou que o policiamento na região segue sem alterações, diuturnamente.

“Tá horrível. Aumentou o número de assaltos. A população ficou sem recursos. Foi comunicado que seria fechado porque teria um modelo. Até agora nada”, lamentou Marcos Zanata, segurança e morador do entorno há 23 anos.

Nos últimos três meses, dois incêndios na vegetação no terreno do Couto Maia também acenderam o alerta dos moradores. O fogo foi interrompido, mas ficou a preocupação com os cinco pavilhões do antigo hospital, vigiado por dois seguranças e de onde o material hospitalar já foi retirado. De certa forma, no entanto, aquele vazio sempre foi temido pela população. Desde as primeiras décadas de vida, a localização e a estrutura do Couto Maia são colocadas em dúvida.

Nova realidade 
No dia 25 de janeiro de 2013, na Bolsa de Valores de São Paulo, MRM e SM Gestão Hospitalar comemoravam a vitória na licitação que definiu a parceria público-privada lançada pelo Governo do Estado para a construção do Instituto Couto Maia. Foram R$ 120 milhões investidos para construção de 120 leitos e ampliação para consultas ambulatoriais. Exatos 102 anos atrás, Augusto de Couto Maia estava convencido de que o Hospital de Isolamento de Monte Serrat, como era chamada a unidade, deveria migrar para um bairro mais central como Santo Antônio Além do Carmo ou Brotas.

Mas a construção dos novos pavilhões do hospital, iniciada 1917, permaneceu no Monte Serrat, por vontade do então Departamento do Serviço, explica a funcionária Maria de Fátima Lorenzo, com mestrado dedicado à história do hospital onde trabalha há 30 anos. Somente em 1925 acontece a inauguração. Coincidentemente, também houve intenção de juntar o Hospital Dom Rodrigues de Menezes, para hansenianos, com o Couto Maia. Novamente, a ideia ficou no papel. Mas, foi justamente no local onde funcionava o Rodrigues de Menezes que se ergueu a nova sede do Couto Maia.

Novo Couto Maia, em Águas Claras (Foto: Carol Garcia/GOVBA)

Desde os primeiros dias no Couto Maia, na década de 80, a enfermeira Laurinda Machado, 58, ouvia as especulações de transferência. A estrutura antiga parecia não acompanhar as necessidades e modernizações. Os pequenos reparos eram quase anuais.

“Não lembro de um ano sequer sem reforma. Desde lá, era uma luta por melhorias. Mas era muito carinho. Aquele lugar, a vista para o mar, a vizinha. Ainda íamos almoçar na Pedra Furada. Tudo isso era diferente. Um balaio de saudade”.

Por pouco, inclusive, uma dessas tentativas de mudança não provocou a transferência do Couto Maia para a Avenida Vasco da Gama, próximo ao Hospital Geral do Estado, em 1995. A proposta chegou a ser apresentada pelo então diretor da unidade, José Tavares Neto. Nunca foi à frente. “O hospital tinha condições pequenas de expansão. Por outro lado, o terreno do fundo era grande […] Aquele hospital foi fundamental ao ensino de gerações”, opina Tavares.

Diferentemente do que afirmam funcionários ouvidos, sob anonimato, a Sesab nega qualquer condenação de área do Couto Maia pela Vigilância Sanitária. “Aquele espaço não tinha condições de funcionar como hospital. Não conseguíamos nos adequar, era uma estrutura obsoleta”, diz a atual diretora, Ceuci Nunes. Outros hospitais antigos, no entanto, seguiram em suas primeiras sedes. É o caso, por exemplo, do Hospital Santa Izabel, o mais antigo da Bahia, inaugurado em 1893, em Nazaré.

E por que não o caso do Couto Maia? É o que se perguntam principalmente quem permaneceu em Monte Serrat. A maioria costuma falar da demora para realizar grandes intervenções. A última, em 1992, é lembrada por uma placa na entrada do hospital. No dia 12 de dezembro, já com o Couto Maia fechado, o Sindisaúde realizou manifestação contra desativação. Abraçaram simbolicamente a extinta unidade.

“[Mas] aconteceu mais porque a gente precisava de uma comunicação mais aberta, de como seria o manejo de pessoas, o que aconteceria”, lembra Ivanilda Brito, presidente do Sindicato.

O problema não é o novo Couto Maia, inclusive bem recebido pelos funcionários. O hospital quase triplicou de tamanho – de 6 mil m² para 17 mil m² – e expandiu os atendimentos para urgência e emergência. A questão, para quem vive em Monte Serrat e os empregados residentes no bairro, é entender o que será feito do espaço que abasteceu, direta e indiretamente, a região.

Crescendo à margem 

O século 19 é o século do modelo higienizador. As intervenções urbanas ocorriam de acordo com pautas de saúde e saneamento básico, principalmente. Os hospitais passam a ser criados em locais afastados, como se, assim, estivesse livre das infecções a população. É o caso do Couto Maia, instalado no Monte Serrat em 1853, região pouco habitada de Salvador, com exceção de uma classe média empregada nas fábricas da Penísula de Itapagipe e das famílias em veraneio.

Pavilhões fechados depois da transferência para Águas Claras (Foto: Evandro Veiga)

O historiador e arquiteto Chico Senna conta que, por isso mesmo, a presença das igrejas e dos hospitais Couto Maia e Sagrada Família, de 1943, foram fundamentais para a conformação urbana do Monte Serrat. “Praias bucólicas, local tranquilo, clima bom. O Couto Maia ficava praticamente isolado”, explica. As construções residenciais começavam também em função desses elocais. Hoje são 6,6 mil moradores em Monte Serrat, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Se você perceber, naquela área específica, o destaque são os dois hospitais. Principalmente o Couto Maia. A permanência ou retirada causa impacto, porque aquilo ali está inserido no contato da população desde o século 19. […] A preocupação é qual é o impacto”.

A área específica da construção do Couto Maia é uma fazenda arrendada pelo Governo. Inicialmente, alguns moradores até resistem. “O impacto era o medo do contágio. Mas a convivência foi mudando”, conta Maria de Fátima. Mas logo acostumam-se e integram o hospital à rotina. “Querendo ou não, era uma referência. A gente vinha quando precisava… O que é absurdo é deixar fechado”, lamenta Simone Franco, 46, moradora do bairro.

No ano de 1997 e novamente em 2013, há tentativa de tombamento da estrutura do hospital junto ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Nenhuma das duas surtiram efeito. Da última vez, informou o IPac, o corpo técnico julgou que a solicitação deveria ser feita no âmbito municipal, o que não ocorreu. “Que ele não se torne uma ruína, nem de depredação ou invasões”, torce Fátima, pesquisadora da história do hospital.

É impossível mensurar, hoje, a o impacto oficial da saída do hospital. A atual concessionária responsável pelo Icom não tem responsabilidade sobre o destino do antigo Couto Maia, já que a licitação corresponde apenas à nova unidade. “Estou esperando uma providência de Deus”, desabafa Maria do Carmo, no restaurante vazio.

A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) informou, contudo, que ainda não há prazo para divulgação do que será feito no local.

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