Moradores montam ‘central de vigilância’ com 30 câmeras para evitar crimes

Vaquinha viabilizou iniciativa de comunidade na Caixa d'Água, em Salvador

 

Quem chega ao Loteamento Joana d’Arc, no bairro da Caixa d’Água, em Salvador, dá de cara com um aviso, até educado. “Sr. Ladrão, você está sendo filmado”. O ‘recado’ fixado em um poste de iluminação pública é para dizer que 30 câmeras com sensor infravermelho registram os passos de quem entra e sai da região. Foi a solução encontrada pelos moradores, cansados de inúmeros assaltos, de tentar reduzir a violência. Segundo eles, deu certo. A estratégia, viabilizada através de uma “vaquinha”, reduziu a criminalidade no local.

 

No ano passado, um idoso foi assaltado no loteamento. O suspeito foi detido pela Polícia Militar e levado para a delegacia da região. Lá, ele negou o crime e foi liberado. A liberdade, no entanto, durou pouco, porque, em seguida, os moradores do loteamento levaram para a delegacia as imagens registradas pelo sistema de monitoramento que eles próprios instalaram. Como as imagens flagraram o momento do assalto, o suspeito foi reconhecido e preso em seguida.

O loteamento ‘vigiado’ da Caixa d’Água já existe há 52 anos. Há dez, as casas casas e edifícios de quatro andares, situados entre os fundos do Hospital Ana Nery e a Via Expressa Baía de Todos os Santos, são monitorados por câmeras. São mais de 300 famílias vivendo no local, segundo os próprios moradores. Há seis meses, as câmeras foram trocadas e agora possuem lentes mais potentes, com sensor infravermelho, possibilitando uma qualidade melhor na visibilidade, principalmente à noite.

“A situação era precária. Eram cinco assaltos por dia. Bandidos agiam mais para roubar carros e arrombar imóveis. Tínhamos também casos de assaltos a mão armada a qualquer hora do dia”, contou Osmar de Souza e Silva, conhecido como Seu Poka, 62 anos.

Osmar de Souza e Silva, o Seu Poka, é o responsável por parte do monitoramento
(Foto: Marina Silva)

Ele é dono da Mercearia do Poka e contou que precisou gradear o estabelecimento. “Tinha que abrir as grades para as pessoas entrarem e depois fechar para dar continuidade ao atendimento. Era uma situação insustentável. O último caso que tivemos aqui foi antes do Carnaval”, declarou.

Osmar é um dos primeiros moradores do loteamento. Ele não é líder comunitário, mas foi um dos idealizadores do sistema de monitoramento que hoje conta com 30 câmeras distribuídas em pontos estratégicos. “Só quero um lugar melhor, mais seguro para minha família e meus vizinhos”, declarou.

O esquema de vigilância, que começou aos poucos, já conta hoje com duas centrais de monitoramento – uma delas funcionando na própria mercearia.  “Pela manhã, aqui, eu que monitoro. À noite, uma segurança pega das 19h até às 7h”, relatou.

Investimento
As primeiras câmeras, há dez anos, eram analógicas. Hoje, todas são digitais e com infravermelho – o investimento foi de R$ 8,4 mil, divididos em 15 vezes, há seis meses. “Fizemos uma vaquinha e cada um contribui com o que pode para a gente pagar as parcelas. Teve gente que já deu R$ 5, outro R$ 10, algumas pessoas deram R$ 170. Só peço que os moradores não deixem de contribuir. Elas têm consciência que isso tem diminuído a ação da bandidagem. Estamos com o projeto para adquirir novas câmeras ainda mais potentes com a capacidade melhor de resolução e armazenamento de dados. O tipo que temos hoje só mantém a gravação por dez dias ”, afirmou Osmar.

Um dos pontos monitorados pelas câmeras é a entrada do loteamento, na Rua Mário de Lima, nas imediações do fundo do Hospital Ana Nery. “Só naquela entorno são 13 (câmeras). Isso porque tem muitos funcionários do hospital, a maioria médicos e enfermeiros, que vão pegar os carros estacionados falando ao celular. Os bandidos atacam de moto. Ou seja, a oportunidade faz o ladrão”, disse Osmar.

Outro ponto crucial para os moradores é a Segunda Travessa Saldanha Marinho, que dá acesso à comunidade do Queimadinho, às margens da Via Expressa Baía de Todos os Santos. “As pessoas eram abordadas quando saíam da passarela para chegar em casa e ou ir para o trabalho. A situação melhorou consideravelmente”, relatou Osmar.

Além do sistema de monitoramento, os moradores contam ainda com dois cães da raça pitbull, que são usados nas rondas noturnas. “São animais que foram treinados por policiais civis e federais. São bem adestrados. Colocamos eles para evitar também a ação de sacizeiros (gíria que se refere à usuário de crack) que furtam o que veem pela frente”, disse.

Motoqueiros
Funcionário de uma oficina mecânica localizada dentro do loteamento, o mecânico Alcides Souza Leite Filho, 62, o Mamão, mora há 20 anos na região. Ele disse que as câmeras já evitaram outras ocorrências. “Até estupro. As câmeras mostraram um homem circulando por aqui num final de semana. Daí, fomos até ele. Quando nos viu, correu. Ele nunca mais apareceu. Mas soubemos depois que era um estuprador”, relatou.

Moradora há mais de 15 anos, a pedagoga Alaíde do Rosário, 53, disse que se sente segura com o sistema de monitoramento. Quando não havia as câmeras, a filha dela teve o celular roubado duas vezes.

“Nunca mais isso aconteceu. Minha filha se sente tão segura que anda por aqui falando ao celular. Apesar de todo aparato, eu não gosto que ela faça isso, já falei, mas ela continua”, relatou Alaíde.

E a filha deveria escutar os conselhos da mãe. Nesse último sábado (8), a supervisora de loja Aparecida Cruz, 36, por pouco não foi o alvo de uma dupla de motoqueiros que circulava dentro do loteamento. Ela passeava com o cachorro por volta das 20h, quando foi surpreendida pelos criminosos. “Eles encostaram em mim, vi a arma de um deles. Como viram que estava sem celular e meu cachorro ainda latiu, foram embora”, relatou.

Apesar do susto, Aparecida disse que o local é seguro. “Isso acontece raramente. Não me mudo daqui para lugar algum. Aqui não tem esse lance de tráfico e, quando acontece algo, é pontual. Infelizmente foi sorteada”, brincou.

Posicionamento
Garantir a segurança pública é dever do Estado e direito e responsabilidade de todos. É o que diz o artigo 144 da Constituição Federal de 1988, que tem um capítulo inteiro dedicado ao tema da segurança pública. Segundo o mesmo artigo, ela deve ser exercida pela “polícia federal; polícia rodoviária federal; polícia ferroviária federal; polícias civis; polícias militares e corpos de bombeiros militares”.

Primeiras câmeras foram instaladas há dez anos no local
(Foto: Marina Silva)

No caso da Caixa d’Água, no entanto, a iniciativa de tentar controlar a violência e manter a segurança foi tomada pelos próprios moradores. Procurada, a Polícia Militar da Bahia informou que “iniciativas que reúnem os moradores de um bairro ou mesmo de uma rua em torno da discussão sobre a segurança pública sempre são bem vistas pela PMBA e, normalmente, refletem ações que favorecem o convívio social, estreita as relações entre a vizinhança e, ao final, o ganho é sentido na segurança local”.

“O projeto Vigilância Participativa é um exemplo prático dessa proposta com a participação direta da nossa corporação que já integrou milhares de moradores e servidores em diversos bairros da capital baiana”, disse a corporação, em nota.

Como exemplos, citou os bairros da Pituba, Garcia, Barra, Rio Vermelho, Iguatemi, Paralela, Imbuí, Stiep, Costa Azul, Boa Viagem, Uruguai, Jardim Cruzeiro, Ribeira, entre outros. Sobre a Caixa d’Água, informou que “a Polícia Militar continuará realizando rondas na localidade e o comando da 27ª CIPM, unidade responsável pela área, continua se colocando à disposição dos moradores”.

Também questionada sobre a iniciativa dos moradores do Loteamento Joana d’Arc, a Polícia Civil respondeu que o titular da 2ª Delegacia (Lapinha), delegado Fábio Luís Silva, “a partir dos casos registrados na unidade, a equipe da 2ª DT tem realizado diligências em conjunto com policiais da 37ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), com o intuito de localizar os envolvidos nos assaltos, ocorridos naquela região”.

A Secretaria da Segurança Pública informou considerar válida toda iniciativa de prevenção à violência e estimular a parceria comunidade-polícia para a redução dos índices. “A criação de Conselhos Comunitários Segurança é uma das ações que reforçam essa união contra a atuação  da criminalidade, problema social, ligado diretamente à falta de estrutura familiar, de educação, oportunidade de emprego, entre outros aspectos”, informou nota.

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