Ex-namorada denuncia cantor de rap por agressão; vídeo mostra ameaça com faca

Vítima, que prestou queixa na Deam de Brotas, relatou murros e chineladas; rapper nega

O cantor de rap Hebert Marcos Santana Dias, o MC Hadji, 32 anos, foi denunciado pela ex-namorada, uma estudante de 20 anos, por agressão e ameaça. Em ocorrência registrada no dia 16 de dezembro, na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), em Brotas, a vítima narrou dois episódios de violência.

Ela chegou a gravar um deles em vídeo [ver abaixo]. As imagens mostram o rapper segurando uma faca de cozinha, enquanto a vítima está do outro lado, tentando manter a porta de um cômodo fechada.

A estudante afirma que o vídeo foi feito na casa dela no dia 16 de novembro. Ela também relatou, em depoimento na delegacia, que Hadji a agrediu com murro e chineladas no dia 16 de dezembro, um mês depois. Segundo a ocorrência, a cena foi filmada depois de uma discussão entre o casal.

Na gravação, é possível ouvir a vítima respirando de modo ofegante, enquanto pede que o rapaz mostre a faca. “Mostra que você está com a faca, me ameaçando, mostre”, diz, tentando filmar o então namorado.

Hadji, em resposta, no vídeo, questiona quanto à existência da faca: “O quê, o quê? Pelo amor de Deus, me dá a chave”, afirma o MC, que tem o rosto filmado na gravação de 33 segundos.

Procurada, a jovem disse que não ia dar declarações à imprensa para “evitar mais exposição”. Questionada sobre o que teria motivado as agressões relatadas por ela à polícia, se limitou a dizer que o caso está sob o acompanhamento do advogado da família.

O outro lado
A reportagem também entrou em contato com Hadji, que aceitou conversar. Por telefone, o MC negou todas as acusações e disse que não tem “o perfil de um homem agressivo” e, ainda, que está sendo vítima de uma “armação” da ex-namorada, a quem se referiu como “uma pessoa descontrolada”.

Segundo o músico, a ex-companheira trabalhava como sua produtora e não aceitou o fim do relacionamento.

“Fiquei quatro meses com ela, mas as pessoas sabem que ela é uma menina louca, fez isso porque voltei com minha ex, com quem estou há oito anos. Eu tenho como provar que não fiz nada disso. Não sou uma pessoa ciumenta e agressiva. Nunca fui”, disse Hadji.

Uma fonte ligada ao então casal afirmou que o rapper mantinha as duas relações, simultaneamente. Sem se identificar, a pessoa afirmou à reportagem que Hadji “era querido pelos familiares da ex e costumava frequentar a casa dela” e, ainda, que a vítima mandou o vídeo apenas para pessoas próximas, após descobrir que era traída.

“Só que é aquela coisa, uma pessoa manda para a outra [o vídeo], que manda para a outra. Ele mesmo usou o Instagram pra falar que ela inventou tudo, chamou de louca e postou fotos dela, expôs a menina sendo que ele era o errado. Ficava com as duas e surtou quando ela descobriu tudo”, acrescentou.

Quando questionado sobre a gravação em que aparece com uma faca, Hebert afirmou que a imagem foi “armada” pela ex.

“Ela deixou o celular no banheiro pronto, em modo de vídeo. Eu tava no corredor da casa dela, que veio com uma faca pra cima. Só fiz tomar [a faca]. Depois ela pegou meu celular e correu pro banheiro. A abertura que tinha na porta foi do meu pé, se eu quisesse, eu teria metido o braço”, se defendeu.

E completou: “Eu não encostei meu dedo nela, não há nada que comprove isso. Eu estava com a faca porque ela calculou tudo. Ela manipulou tudo. Eu mal conseguia continuar namorando com ela. Depois do vídeo, voltamos porque ela usou isso pra me ameaçar. Eu expus tudo pra me defender”.

Don Hadji é suspeito de agredir ex-namorada (Foto: Facebook/Reprodução)

Quanto ao murro que a vítima alegou ter tomado do rapaz, um mês depois que o casal reatou, Hadji disse que o que aconteceu foi uma discussão.

“Estávamos na Avenida Paralela e ela disse pra eu descer do carro. Quando falei que não ia, começou a dizer que ia matar nós dois e tentou jogar o carro de um viaduto. Ela ficou machucada por bateu a cabeça na janela do motorista”, afirmou, em referência a duas imagens em que a jovem aparece com o supercílio direito ferido.

Para preservar a identidade da vítima, o jornal não vai divulgar as fotos – que chegaram a ser exibidas por amigas da jovem nas redes sociais.

Segundo amigos, o casal costumava postar fotos e vídeos, acompanhados de declarações, em seus perfis nas redes sociais. Eles também eram constantemente vistos juntos em eventos da cena do rap soteropolitana.

Uma outra pessoa, que também conhecia o relacionamento do dois disse que tudo começou quando a estudante descobriu que o músico, na verdade, já tinha um relacionamento sério com outra mulher.

“A mulher dele mandou mensagem pra ela [ex agredida] e foi quando aconteceu o problema do vídeo. Mas depois disso, ele pediu desculpas, negou, e ela voltou. Depoisteve a briga no carro”, completou a fonte.

Em contato com a reportagem, uma jovem afirmou ter visto Hebert expor a situação em seu perfil no Instagram. “Ele postou muitas coisas. Fotos, vídeos, coisas escritas por ela. O que eu acho é que nada justifica a agressão, a faca”, comentou, acrescentando que o rapper também publicou a foto de um boletim de ocorrência contra a ex.

No registro, feito por MC Hadji na 9ª Delegacia (Boca do Rio) no dia 19 de dezembro, ele alegou ter sofrido “agressões físicas, com escorições nos dois braços”.

Cerberus e novo EP
Hebert Marcos, o Don Hadji, começou a carreira como backing vocal. Cria do bairro de Pernambués, região periférica de Salvador, o músico tem uma carreira de 19 anos.

Em setembro do ano passado, quando estava prestes a lançar o projeto Cerberus, em parceria com o também rapper Clóvis de Oliveira Santos Júnior, o MC Dark – com quem chegou a gravar uma participação sobre rap no programa Profissão Repórter, da TV Globo -, o jornal Correio da Bahia divulgou a denúncia de agressão da mãe da então namorada de Dark, uma adolescente de 16 anos.

Na época, Dark negou à reportagem as agressões às mulheres, que chegaram a solicitar à Justiça uma medida protetiva. Dias depois, procurado pelo Profissão Repórter, no entanto, admitiu que bateu na menina.

Amigos, Hadji e Dark não chegaram a lançar Cerberus (Foto: Reprodução)

“Apenas revidei, de forma desproporcional, uma agressão que sofri”, afirmou Dark, na época, em rede nacional.

Após repercussão negativa nas redes sociais, O rapper teve uma série de shows cancelados – alguns deles informados via e-mail, por suas respectivas produções.

Não se sabe em que circunstâncias chegou ao fim o Cerberus, que sequer chegou a ser lançado. Segundo afirmou Hadji, ele e Dark são “amigos próximos”.

“Aconteceu com Dark, que é uma pessoa que minha ex gosta muito, então ela viu de perto. Agora, por capricho, ela quer que aconteça comigo. Eu sou amigo dele, mas nunca apoiei esse tipo de conduta, a cena sabe. Eu sou pacífico”.

No novo EP, o projeto solo intitulado RezaLenda, com lançamento marcado para a próxima segunda-feira (14), Don Hadji conta com participação do cantor Edcity, ex-fantasmão.

O jornal procurou Edcity, que confirmou a parceria muscial, mas disse que não tinha conhecimento da denúncia feita pela ex-namorada de Hadji.

“Se há um vídeo onde ele segura uma faca, isso é estranho. Sempre aparentou ser tranquilo, alto astral, com pensamentos positivos sobre tudo”, disse o ex-Fantasmão.

Ainda segundo Edcity, o MC e ele se aproximaram durante um encontro em uma barbearia. “Rolou a química do som, mas isso faz pouco tempo. Tem menos de um ano que conheço ele, mas é um cara que gosto”, arescentou o cantor.

Por meio da assessoria, a Polícia Civil afirmou que o rapper é suspeito de ter agredido a ex. Segundo a polícia, após ser ouvida, a vítima recebeu uma guia de requisição para que fosse realizado um exame de corpo de delito. A ex-namorada de Hadji vai ser novamente ouvida na Deam em fevereiro, quando será realizada audiência preliminar, sem a presença do suspeito.

Já o MC, só será intimado após o resultado do laudo do corpo de delito – que fica pronto em até 60 dias, a partir da data de realização. Ele é intimado a prestar depoimento ainda que a vítima não retorne para prosseguir com a queixa, de acordo com a polícia. A pasta afirmou que depois de ouvir as duas partes, a delegada responsável encaminha o caso à Justiça.

25 queixas de agressão à mulher por dia
Em apenas uma semana, 175 mulheres bateram às portas de duas delegacias de Salvador para denunciar um tipo de crime: agressão. Os registros foram feitos na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Brotas – 108 – e na Deam de Periperi – 67 – e apontam para uma média assustadora:  já são  25 casos por dia em 2019.

Segundo a Polícia Civil da Bahia, cerca de 70% das denúncias são encaminhadas à Justiça – ou seja, viram processo. Entre as denúncias feitas este ano, pelo menos duas foram contra o DJ João René Espinheira Moreira, 33 anos, conhecido em Salvador como DJ John Oliver. Ele foi apontado por duas vítimas como o autor de agressões ocorridas entre o dia 30 de dezembro de 2018 e 5 de janeiro deste ano.

De acordo com a promotora de Justiça Márcia Teixeira, coordenadora do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos do Ministério Público da Bahia (MP-BA), a vítima costuma não acreditar que aquela agressão poderá se repetir. Segundo ela, “a maioria dos feminicídios envolve mulheres que nunca prestaram queixa dos agressores”.

“Por isso é tão importante registrar a ocorrência, fazer a denúncia, e levar o caso à delegacia, à Defensoria Pública ou ao Ministério Público”, reforçou Márcia.

Feminicídios
O medo que uma agressão física se torne cade vez mais grave tem sentido. De acordo com dados da Polícia Civil da Bahia, o número de feminicídios no ano passado em toda a Bahia – 70 – foi 6% maior do que os casos registrados em 2017, quando houve 66 crimes do tipo. O caso mais recente aconteceu em Salvador, quando a atendente Dara dos Santos Cavalcante, 22 anos, foi morta por um vizinho e enterrada nas dunas de Itapuã, no dia 31 de dezembro.

Ainda de acordo com a promotora, a comunicação da agressão pode levar à concessão de uma medida protetiva, que impede o agressor de entrar em contato com a vítima. “Um fator que chama a atenção é que a maioria das mulheres mortas não tinha essa medida, essa proteção”, afirmou Márcia Teixeira.

Veja onde buscar ajuda:
Creas  Atende pessoas em situação de violência ou de violação de direitos. Tel: 3115-1568 (coordenação estadual) e 3176-4754 (coordenação municipal)

Centro de Referência Loreta Valadares  Promove atenção à mulher em situação violenta, com atendimento jurídico, psicológico e social. Praça Almirante Coelho Neto, nº 1 – Barris. Tel: 3235-4268

Deam Brotas  Rua Padre José Filgueiras – Engenho Velho de Brotas. Tel: 3116-7000

Deam Periperi  Rua Doutor José de Almeida, s/n – Periperi. Tel: 3117-8217

Disque Denúncia  Disque 180

Fundação Cidade Mãe  Presta assistência a crianças em situação de risco. Rua Prof. Aloísio de Carvalho –
Engenho Velho de Brotas

Gedem/MP-BA  Atua na proteção e na defesa dos direitos das mulheres em situação de violência. Avenida Joana Angélica, nº 1.312, sala 309 – Nazaré. Tels: 3103-6407/6406/6424

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