Turista pra todo lado: hotéis apostam em ocupação de 90% a 93% no verão de Salvador

Expectativa do setor é de aumento de dez pontos percentuais em relação ao ano passado

Em que outro lugar do mundo as pessoas se juntam para aplaudir o pôr do sol? No Farol da Barra, a cena é normal e, durante o Verão, um lugarzinho atrás da fortificação ou na balaustrada, na orla, é disputado. Durante a estação mais quente do ano, o difícil é encontrar um ponto turístico de Salvador vazio.

Foi para visitar o famoso pôr do sol do Farol que a família Sarmento, de Maceió (AL), foi nesta sexta-feira (4) à Barra. Eles já estão há dois dias em Salvador e vão ficar mais três dias na capital baiana. Já passaram pelo Pelourinho, Elevador Lacerda, Mercado Modelo e, depois do Farol da Barra, seguiram para o boêmio Rio Vermelho. Lá, aliás, as filas para comprar acarajé andam cada vez maiores. Tem baiana até dobrando a quantidade de igrediantes do quitute para dar conta da demanda.

Tanta movimentação já foi notada pelo setor turístico e anima quem vive dele na cidade. A expectativa da Associação Brasileira da da Indústria de Hotéis (ABIH-BA) é de que a ocupação hoteleira cresça dez pontos percentuais neste Verão, com relação ao do ano passado.

“Teremos ocupação hoteleira entre 90% e 93%. Isso é dez pontos percentuais maior do que a de 2018, quando tivemos 81,62%, e muito melhor do que 2017, quando tivemos 68,69%. Temos uma expectativa positiva, Salvador está se posicionando nas prateleiras do turismo”, declarou o presidente da ABIH-BA, Glicério Lemos.

O presidente da Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação do Estado da Bahia (FeBHa), Silvio Pessoa, afirmou que a movimentação turística da cidade vem aumentando consideravelmente desde o dia 20 de dezembro.

“Os bares e restaurantes estão lotados. Até nas segundas-feiras eles enchem. O setor deve receber um aumento de 10% a 20% no orçamento durante o Verão e ainda contrata pessoas, principalmente para a área de atendimento e cozinha”, disse.

Soimente em cruzeiros, nos próximos quatro meses, Salvador vai receber 31 navios com 100.464 mil visitantes temporários. Até o dia 30 de janeiro, nove embarcações aportam no Comércio, vindas de cidades como Rio de Janeiro, Búzios (RJ) e Recife (PE). Já no mês de fevereiro, seis embarcações atracam no porto da capital baiana. Em março está prevista a passagem de 11 navios e, no quatro e último mês da temporada de Verão, passageiros de cinco cruzeiros desembarcam na cidade.

O setor hoteleiro ainda está comemorando os resultados de 2018, que foram os melhores dos últimos seis anos. De janeiro a dezembro, a hotelaria registrou taxa média de ocupação durante o ano de 62,14% – taxa 10,29% maior do que o ano de 2017, que foi de 56,34%.

Apostas
Glicério atribui o resultado a alterações na cidade e a um trabalho da Associação e da Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador (Secult) desde 2016. “Nós realizamos capacitações técnicas com agentes e operadores de viagens buscando posicionar o produto Salvador e Bahia que estavam fora do mercado. Prova do sucesso desse trabalho são as melhorias na rede hoteleira que refletem em outros setores do turismo”, disse.

Mas, para Silvio Pessoa, a hotelaria não é, necessariamente, a categoria que mais ganha no Verão. “As pessoas não ficam só nos hotéis quando vêm, elas ficam nas casas dos parentes e procuram as plataformas digitais. Então, os outros 50 setores ligados ao turismo acabam ganhando e movimentando a economia”, explicou.

Roteiro inclui Barra, Pelourinho, Rio Vermelho, Elevador Lacerda e Igreja do Bonfim
(Foto: Betto Jr.)

A supervisora administrativa Nicole Gomes, 30, por exemplo, está hospedada na casa de uma amiga. Ela chegou na cidade no dia 27 de dezembro e ainda nem comprou a passagem de volta para João Pessoa (PB), onde mora. Além dos pontos turísticos de Salvador, ela já visitou a Ilha de Itaparica e Boipeba.

“Nós estamos nos programando para os ensaios de Verão que vêm por aí, para os shows do Olodum. Já aproveitei bastante da culinária também, comi acarajé, moqueca, farofa. É tudo uma delícia”, disse.

Roteiro
O roteiro dos turistas parece coincidir na maioria das vezes. Dos cinco grupos de turistas que o jornal abordou na Barra, três deles visitaram o tradicional Pelourinho, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, a Barra e o Rio Vermelho.

O casal André Cysneiros, 25, e Alane Borges, 24, de Recife (PE),  chegou à cidade nesta sexta (4) e, do aeroporto, já emendou o roteiro acima, adicionando só um restaurante e uma sorveteria. “Depois daqui do Farol, nós vamos para o Rio Vermelho, queremos provar os acarajés. Fomos na Igreja do Bonfim”, disse.

Quem tem mais tempo na cidade acaba mudando um pouco o roteiro, mas não deixa de passar pelos pontos turísticos mais badalados da cidade. É o caso das turistas Ana Lídia Avelar, 28, que é administradora em Goiânia (GO),  e Sueli de Souza Costa, 42, que é contadora e advogada em São Paulo.

“Eu já vim para Salvador sete vezes e é só aqui no Porto da Barra que eu fico na praia até de noite. Estamos aqui e não temos hora para ir embora”, explicou Sueli, que estava na praia às 19h. Ela só volta para São Paulo no dia 16.

No Porto da Barra, banhistas aproveitam para ficar até mais tarde
(Foto: Betto Jr.)

Dendê
A fila do acarajé, aliás, é um forte indicativo da quantidade de gente pela cidade. Nos tabuleiros do Rio Vermelho, a demanda dobrou. O pequeno Pedro Bastos Estêvão, 8, não tirava o olhar do tacho. Os olhos azuis por pouco não refletiam o ‘vermelho-dendê’ do azeite que, fervendo, preparava a realização do sonho de Pedro: o primeiro acarajé. Turista de Brasília, o estudante avisou: “Quero tudo, incluindo a pimentinha”.

O pedido do garoto só não foi atendido porque os pais, os servidores públicos Ana Lúcia Estêvão, 45, e Alan Estêvão, 48, assíduos na capital, já conhecem bem o ‘ardor da Bahia’. Assim como a família Estêvão, outros turistas do Brasil – e até de fora do país – têm movimentado os tabuleiros de acarajé e os pontos turísticos da capital baiana desde o início de dezembro.

No final da tarde já dá para ver a fila se formar nos arredores do tabuleiro de Cira, no Largo da Mariquita, Rio Vermelho. Segundo a baiana, que também tem um ponto em Itapuã, o aumento na procura é comum nessa época do ano, quando a quantidade do feijão fradinho vai de 40 para 80 quilos por dia.

Sem falar do camarão, da cebola e do dendê, que também têm a quantidade duplicada para a produção das centenas de acarajés e abarás vendidos por dia. “A gente aumenta consideravelmente a porcentagem aqui. O Verão atrai, sim, muitos turistas”, destacou Cira, que tem a ajuda de cinco funcionárias.

Isso só no tabuleiro do Rio Vermelho, que funciona há 19 anos. Cira, no entanto, não quis revelar à reportagem a quantidade que vende por dia e, menos ainda, o quanto fatura. Mas uma coisa é certa: o turista paga uma média que varia entre R$ 11 e R$ 13 [com tudo o que tem direito] feliz e satisfeito.

Demanda pelo acarajé fez baianas dobrarem a quantidade de ingredientes
(Foto: Arisson Marinho)

Afinal, o que é o valor perto do sorrisinho do pequeno Pedro Estêvão que, antes mesmo de ser questionado, deu o veredito:

“Olha, é muito bom. Queria com pimenta, mas tudo bem. Achei muito gostoso”, comentou Pedro, enquanto degustava, separadamente, um camarão.

“Eu só não gosto da pimenta e do caruru, mas é realmente muito bom”, acrescentou Ana, que considera o preço “justo”. Para a família, que chegou à capital no dia 31, a visita às baianas é praticamente obrigatória. “É bom demais. Feliz que eles [Pedro e Caio] gostaram. O acarajé é um patrimônio do Brasil, não já nada igual”, disse o oficial de Justiça Alan Estevão, também enquanto se deliciava.

Na fila do acarajé da Dinha, no Largo de Santana, a psicóloga paulista Rita Vergner, 34, não sabia bem o que escolher. Pela primeira vez em Salvador, a turista comentou que só foi no tabuleiro pela fama em São Paulo.

“Sempre ouvi falar. Vim pra passar cinco dias, cheguei hoje e tô aqui. Estava ansiosa mesmo”, garantiu Rita. E, se gostar, já reservou até lugar na mala: “Aí eu levo pra família toda”, brincou.

Festival Virada Salvador 2019 atraiu mais de 2 milhões de pessoas em cinco dias de shows
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo)

Réveillon teve 100% de ocupação hoteleira na orla
Mais de 2,1 milhões de pessoas foram para a Arena Daniela Mercury curtir os cinco dias de Festival Virada Salvador 2019, entre os dias 28 de dezembro e 1º de janeiro. A movimentação na cidade por conta do Réveillon resultou em ocupação hoteleira em 95%. O resultado foi ainda maior para hotéis da orla de Salvador, como Patamares, Armação, Itapuã, Barra, Pituba e Ondina.

Também ultrapassaram a casa dos 90% os estabelecimentos situados em Ondina, Centro, Rio Vermelho e na Avenida Tancredo Neves. “O Festival Virada Salvador é diferente daquilo que se vê ao longo do litoral brasileiro. Primeiro, porque são cinco dias de um evento que traz toda uma infraestrutura de segurança, conforto, alimentação e lazer que você só vê em grandes realizações, como o Rock in Rio, sendo um verdadeiro parque de entretenimento ao ar livre”, destacou o secretário de Cultura e Turismo de Salvador, Cláudio Tinoco.

A Secult estima uma movimentação de cerca de R$ 500 milhões no Réveillon. “Eventos desse tipo movimentam toda a economia, o turismo e aquece toda a rede de negócios. Chegamos a quase 100% de ocupação nos principais hotéis, como só conseguimos atingir em grandes eventos, como Olimpíada, Copa do Mundo e Carnaval”, pontuou.

Aposta em ‘vocações’ da cidade ajuda a manter turistas
O segredo para manter o turista em Salvador, de acordo com o presidente da FeBHa, Silvio Pessoa, além de ter uma infraestrutura adequada, é apostar nas “vocações” que a cidade tem.

“O importante é apostar em atrações esportivas, em eventos culturais e musicais. É aproveitar o que Salvador tem de bom. Tem que ter atrativo durante o dia e a noite para mantê-los aqui. A prefeitura tem que investir nesses eventos no Verão, o que já vem fazendo”, disse.

Outra forma de atrair e manter os turistas a longo prazo é garantir que ele tenha uma boa estadia. “A boa experiência forma uma corrente positiva que vai propagar que Salvador está bem estruturada, requalificada”, explicou Glicério Lemos, presidente da ABIH-BA.

Ele ainda afirmou que os turistas que vêm para a cidade e gostam podem “induzir” outros a visitarem Salvador, além da possibilidade deles mesmos retornarem.

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