Problema em esgoto do Hospital das Clínicas cancela 10 cirurgias plásticas

Pacientes foram informadas, inicialmente, sobre problemas em ar-condicionado

As dores nas costas começaram ainda na adolescência, quando Jaciara Cardozo, 44 anos, sequer realizava os esforços físicos exigidos hoje pelo restaurante onde trabalha como cozinheira. O incômodo, causado por uma displasia mamária, motivou a mulher a buscar a cirurgia de correção da mama no Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), conhecido como Hospital das Clínicas, no bairro do Canela, em Salvador.

Jaciara, que aguardava na fila para cirurgia há três anos, conseguiu, há seis dias, que o seu maior sonho tivesse, enfim, dia e hora para acontecer: sábado, 1º de dezembro de 2018. Animada, a cozinheira chegou ao Hupes nesta sexta-feira (30), quando deveria se internar, mas foi surpreendida pela notícia de que sua cirurgia havia sido adiada. O motivo? “Um reparo preventivo” no ar-condicionado.

Ao menos, foi o que Jaciara e outras nove mulheres, que também tiveram os procedimentos cirúrgicos suspensos nesta sexta, ouviram da direção do hospital. A assessoria da unidade, no entanto, explicou se tratar de um problema no esgoto (ver mais abaixo).

A cozinheira disse que a primeira reação foi “chorar muito”.

“Eu ainda estou trêmula. Eu estou na fila há três anos, porque sinto muitas dores desde sempre. Chego aqui às 13h para me internar às 15h, e escuto da direção, que o ar precisou passar por manutenção. Pelo amor de Deus, como é que pode algo assim?”, indagou a mulher que, às 17h, ainda esperava que as coisas se resolvessem.

Prejuízos
Passado o momento de desespero inicial, chegou a hora de contabilizar os prejuízos. “Eu precisei pegar R$ 1,2 mil emprestado para fazer os exames necessários para me internar, comprar sutiã, meia, bota, tudo o que eles disseram que precisava ter. E agora? E a licença que eu pedi no trabalho, como eu digo aos meus chefes que não operei?”, continuou a questionar, acrescentando que não foi informada sobre quando serão remarcados os procedimentos.

Em nota, o Hupes – que há menos de um mês passou seis dias sem ar-condicionado e adiou mais de 60 cirurgias – confirmou o cancelamento dos dez procedimentos cirúrgicos.

Diferente do que foi informado às pacientes, no entanto, o hospital justificou que um entupimento no “esgoto expurgo” do Centro de Material Esterilizado (CME) é que motivou as suspensões dos procedimentos cirúrgicos. A unidade ainda negou que o ar tenha voltado a apresentar defeitos.

“(Um material) causou obstrução no esgoto prejudicando o funcionamento do serviço, incluindo o Centro Cirúrgico. Com isso, as cirurgias de amanhã foram adiadas para a realização de uma revisão preventiva em toda a área, como medidas de segurança”, diz a nota.

Ainda de acordo com o Hupes, “o objetivo é garantir a regularidade das cirurgias programadas na próxima semana e a segurança dos pacientes”.

Frustração
Moradora do Aldo de Ondina, Jaciara comentou com a reportagem que a displasia desencadeou outros problemas de saúde, como alteração da coluna. Para ela, o cancelamento do procedimento cirúrgico representa dor.

“Minha mama é enorme; eu sinto muitas, muitas dores. É horrível não ter uma estimativa de quando eu vou resolver essa questão”, disse, ainda inconformada.

Sem se identificar, outra paciente também citou a frustração de, tão próximo de realizar o “maior sonho da vida” – após dois anos de espera -, receber a notícia de que não mais teria a mama reduzida.

“Eu não durmo direito desde que, finalmente, agendaram a data, isso há quatro dias. Mexeram com nosso psicológico, nossa vida inteira, porque eu precisei pedir afastamento do meu trabalho”, revelou a mulher, que é técnica de Enfermagem.

Para ela, a “manutenção preventiva” usada como justificativa pela unidade de saúde não é válida.

“Sinceramente, ouvimos duas coisas. Uma hora é o ar-condicionado, outra hora é o esgoto. Eles só descobriram hoje o esgoto entupido? E mais: se o reparo é preventivo e não corretivo, por que fazer hoje? Eu não entendo”, acrescentou a paciente.

A técnica também relatou investimento financeiro em itens cobrados pela equipe médica que realizaria o procedimento cirúgico. “Bota cirúgica, meias, sutiãs, tudo o que eles pediram, fora os exames. Eu precisei correr, porque marcaram comigo há quatro dias, então fiz tudo para conseguir; é o meu sonho”, concluiu.

Embora tivesse esperando há pouco mais de um ano na fila, a tristeza da também técnica de enfermagem Luciana Amorim, 36, não era menor. Mãe de duas crianças, precisou solicitar a presença da mãe e irmã, que moram no município de Maragojipe, no Recôncavo, para que pudesse se internar.

“Minha família veio para me ajudar, porque eu ficaria dois dias internada, além do tempo do pós-cirúrgico, mais ou menos 15 dias, segundo o médico. E agora, tudo acabou, eles não deram uma estimativa para a gente. Gastei todo o meu dinheiro investindo em tudo para chegar aqui e pegar o passaporte para diminuir minha mama, que me causa muita dor”, destacou a paciente.

A esperança de Luciana, no entanto, permance. “Eu não vou deixar de acreditar, não. Espero que eles nos deem uma resposta logo. Sinto intensas dores musculares, incomoda demais por causa do tamanho da mama. Agora o jeito é esperar”.

O Hupes garantiu que a gerência médica vai se reunir com a equipe de médicos responsáveis pelos procedimentos para que as dez cirurgias sejam logo reagendadas.

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