Agronegócio, imposto e segurança: baianos explicam voto em Bolsonaro

Presidente eleito venceu em apenas quatro dos 417 municípios da Bahia

Eleitor de Jair Messias Bolsonaro (PSL), o baiano Márcio Antero Pinheiro, 36 anos, que ficou famoso após gravar em março deste ano um vídeo de protesto fazendo sexo com a esposa em frente à Câmara de Vereadores de Teixeira de Freitas, no Extremo Sul da Bahia, declarou nesta segunda-feira (29) que deseja que o presidente eleito reajuste o salário mínimo para R$ 1,5 mil.

O salário atual é de R$ 937 e a partir de 1º de janeiro de 2019, quando Bolsonaro assume, vai para R$ 954. “Só com estabilidade no emprego e um salário desse nível é que o trabalhador pode viver mais ou menos tranquilo, sem depender de benefícios sociais, como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida”, diz ele, que é a favor também da redução de impostos para empresas e do preço da gasolina.

Carpinteiro de profissão, Márcio responde atualmente na Justiça pelo crime de ato obsceno, junto com a esposa Elaine da Silva Santos Pinheiro, 29, com quem gravou o vídeo. Na época, ele protestou contra um “buraco enorme” que na rua onde ele mora, no bairro Tancredo Neves. Ao comentar sobre o processo, disse que está “respondendo essa porcaria aí”, e não se mostrou arrependido. “O buraco continua na rua ainda, não tomaram nenhuma providência”, reclama.

Em Teixeira de Freitas, onde ele nasceu e se criou, a votação para Bolsonaro neste domingo foi de 34.722 votos (50,97%), contra 33.442 (49,03%) de Fernando Haddad (PT). A cidade do Extremo Sul da Bahia é uma das quatro do estado que deram a vitória a Bolsonaro neste domingo, como ocorreu no primeiro turno. Os outros municípios onde o candidato do PSL ganhou na Bahia foram Luís Eduardo Magalhães (no Oeste), Itapetinga (Sudoeste) e Buerarema (Sul da Bahia).

Eleitor de Haddad em Teixeira de Freitas, o pecuarista Érico Vieira diz que “a cidade foi tomada por uma onda a favor de Bolsonaro que veio de pessoas que são do Espírito Santo e de Minas Gerais”. “Aqui temos muitas pessoas que são de cidades desses estados ou descendentes deles, então acredito que isso influenciou bastante a votação, e esses estados deram a vitória a Bolsonaro”, ele disse. “Não acho que aqui tenhamos uma demanda específica que justifique essa votação, a não ser os casos de corrupção em si, que não prejudiciais para o país e ninguém quer mesmo”, acredita.

Em Teixeira de Freitas, a design de sobrancelhas e estudante de Enfermagem Camila Sousa afirma que sua maior preocupação é com a violência: a cidade tem aparecido nas pesquisas do Atlas da Violência entre as que mais ocorrem homicídios no Brasil. Na edição de 2018 ficou em 17º lugar, com taxa de 83,8 homicídios por 100 mil habitantes – a Organização das Nações Unidas tolera o índice de até 10/100 mil.

Mas o discurso de Bolsonaro para solucionar o problema da falta de segurança não seduziu Camila, que votou em Haddad. Para ela, Bolsonaro saiu-se vitorioso em Teixeira porque “o PT vem sofrendo ataques desde a eleição de Dilma e nestas eleições o povo não quis trocar o certo pelo duvidoso”. Ela espera que “Bolsonaro faça um bom governo”, mas afirma que se isso não ocorrer vai “rir de quem votou nele”.

Camila também tem motivos pessoais para não votar em Bolsonaro. No Carnaval deste ano, um primo dela foi morto por policiais militares numa ação que ela chama de “execução”, após uma festa em Caravelas, cidade do Extremo Sul. A polícia diz que houve uma troca de tiros, mas a Corregedoria abriu inquérito para apurar o caso. “Não acho que policial deva ter carta branca para matar”, diz.

Voto do agronegócio
Os votos que Bolsonaro recebeu nas demais cidades da Bahia foram oriundos, boa parte deles, de pessoas ligadas ao agronegócio, sobretudo em Luís Eduardo Magalhães, grande produtoras de grãos (soja, milho e algodão), e em Itapetinga, que tem sua economia baseada na pecuária de corte e leite. Já em Buerarema, o voto em Bolsonaro é por conta dos constantes conflitos entre índios tupinambás e fazendeiros.

Vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb) e presidente do Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhães, Caminha Maria Missio crê que as pessoas da região votaram em Bolsonaro porque “estão bem empregadas e não dependem de benefícios sociais para sobreviver”. Em Luís Eduardo Magalhães, o candidato do PSL teve 22.509 votos (58,80%) e Haddad 15.773 (41,20%).

Ela diz que as propostas de segurança jurídica no campo e a possibilidade de ter uma arma em casa e nas fazendas também agradaram aos produtores rurais. “É consenso entre o setor que precisamos ter o direito de ter uma arma em casa para poder defender nossas propriedades e nossos bens”, afirma a produtora rural, que, no entanto, prefere “não aprender a atirar nem precisar pegar em arma”.

Para Grasiela Bergamaschi, produtora de soja na região e também a favor de mais segurança no campo, “o novo governo deve dar prioridade também à questão do tabelamento do frete, que tem trazido grandes problemas para os produtores rurais”. Na opinião dela, é preciso que “os preços do frete sejam justos para os dois lados, os caminhoneiros e os produtores rurais”.

Pensamento semelhante há entre os pecuaristas de Itapetinga, onde Bolsonaro teve 17.138 (53,69%) votos e Haddad 14.784 (46,31%). Além das propostas de mais segurança jurídica no campo contra invasões de índios e movimentos de sem terras, o presidente do Sindicato Rural Éder Resende aponta os casos de corrupção envolvendo o PT nacional e a falta de atenção do governo do Estado, sob o comando dos petistas.

“Não tem uma estrada boa aqui na região, estamos passando por esse problema há anos. A saúde pública está abandonada também, então temos um governo da Bahia que não nos dá atenção, e o povo de Itapetinga tem percebido isso, não a toa deu a vitória em que está contra o PT”, afirmou.

A cidade, que é governada há dois anos por um prefeito filiado ao MDB, Rodrigo Hagge, neto do ex-prefeito Michel Hagge, foi comandada pelo petista José Carlos Moura por dois mandados, após ele ter vencido as eleições de 2008 e 2012. Mas em 2016, devido ao desgaste em nível nacional, nem candidato a prefeito o PT colocou. E a insatisfação já vinha desde 2014, quando Aécio Neves (PSDB) ganhou de Dilma Rousseff (PT).

“As pessoas querem ver a coisa mudar, tomaram mais consciência política da situação do país, e acho que ficou mais conservadora, com valores da família”, afirma. “O PT aqui não enche mais os olhos do povo”, avalia o presidente da Câmara de Vereadores, Eliomar Alves Pereira (PMDB), o Tarugão, que está em seu segundo mandato como parlamentar.

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