Entenda por que 40% dos eleitores de duas cidades baianas deixaram de votar

É praticamente o dobro da abstenção do estado e do país

Do Centro de Presidente Jânio Quadros, município do Sudoeste da Bahia, até a seção eleitoral onde a doméstica Maria Novais, 40 anos, vota, o caminho é tranquilo. Sem grandes problemas, conseguiu votar no primeiro turno das eleições deste ano. Mas, entre seus conterrâneos, a coisa não foi bem assim.

Foi em Presidente Jânio Quadros que o estado registrou a segunda maior taxa de abstenção de eleitores – ou seja, de pessoas que estavam aptas a votar, mas não compareceram às urnas. O percentual foi de 38,35%, quase o dobro das médias estadual e nacional, que ficaram em torno dos 20%.

Presidente Jânio Quadros só não perde, em taxa de abstenção, de Santa Luzia, no Sul do estado – lá, 38,52% dos eleitores cadastrados não compareceram às urnas. Logo em seguida, na terceira e na quarta posições, vêm Santa Cruz da Vitória, com 38,06%, e Érico Cardoso, com 38,02% de abstenções, respectivamente. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Achei até que bastante gente foi votar, porque eu conheço muitas pessoas da zona rural que não foram. Tem gente que fala que prefere pagar uma multa ou perder o título do que votar e não dar em nada. Mesmo assim, eu voto. Acho que temos que escolher o representante do povo. Se esse representante não servir, a gente vota em outro depois”, diz dona Maria.

Ela morou a vida inteira na cidade, mas acredita que, de uns cinco anos para cá, o clima mudou. Diz que o pai costuma afirmar que “o povo não está mais besta” e que esse segundo turno vai ser complicado. Talvez por isso ache que a abstenção vai continuar alta.

“Muita gente ia, mesmo não sendo obrigatório. Conheço gente que votava até os 80 anos, mas, agora, o pessoal não quer mais. Hoje, muitos falam que estão doidos para chegar a idade de não votar mais. Muita gente, desse pessoal mais velho, que não tem mais obrigação, diz que não perde o tempo”. Assim como é facultativo entre os jovens com idades entre 16 e 17 anos, o voto deixa de ser obrigatório a partir dos 70 anos.

No 7 de setembro, crianças desfilam em Presidente Jânio Quadros, que tem muitos eleitores idosos e alta abstenção (Foto: Divulgação)

Eleitores mais velhos
De fato, a percepção dela não é errada. Na cidade onde Fernando Haddad (PT) ganhou com 79,17% dos votos no primeiro turno, pouco mais de 15% dos eleitores cadastrados têm 70 anos ou mais, de acordo com as estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso é praticamente o dobro do percentual de eleitores que não são obrigados a votar no estado: 8,8% dos 10.393.170 – ou seja, 915.851 (pessoas acima de 70 anos e abaixo de 18).

Além disso, a cidade tem uma leve tendência de queda populacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No censo de 2010, o município tinha 13.652 pessoas. Já a estimativa populacional para 2018 é menor: 12.505 moradores.

“As pessoas saem dessas cidades normalmente para estudar ou trabalhar e podem ter o título de lá. Muitas nunca mudaram o título e seguem justificando. E cidades que têm um movimento de perda de população tendem a ser mais envelhecidas”, explica a analista do órgão Mariana Viveiros. Isso porque quem sai da cidade, na maior parte das vezes, são os adultos jovens. Quem fica é a população mais velha ou crianças, em sua maioria.

Para o secretário de Administração da prefeitura do município, Franklin de Oliveira, não foi uma surpresa. Segundo ele, é comum que muitos eleitores com título registrado na cidade não retornem a Presidente Jânio Quadros para votar. Isso porque muita gente que nasceu no município se mudou para outras cidades, ou mesmo para estados como São Paulo (SP).

“Além do desinteresse por votar, muita gente que mora em São Paulo não volta. Para eleições para prefeito, tem gente que até vem, mas essas que têm governador e deputado são um pouco diferentes. Acredito que o segundo turno vai ter uma abstenção ainda maior”, opina o secretário.

Esse é justamente o caso dos irmãos da secretária Elisabete Lima, 18. Há dez meses, um dos irmãos foi para São Paulo trabalhar. Dois meses depois, outro também partiu para a capital paulista. Nenhum dos dois conseguiu votar no segundo turno e, novamente, não devem participar do pleito neste domingo. “Isso é muito comum, mas todos os meus conhecidos que moram aqui votaram. Nessa eleição, acho que o pessoal vai comparecer, porque todo mundo conversa sobre política agora. Uns falam uma coisa, outros falam outra, você fica até indecisa, mas não vou anular”, diz ela, que participa de uma eleição para presidente pela primeira vez.

Seca e estiagem
Ele ainda atribui parte da abstenção à seca que atinge a cidade. Presidente Jânio Quadros teve situação de emergência decretada em julho pelo governo do estado devido à estiagem. No mesmo mês, a situação foi reconhecida pelo governo federal. Ao todo, 220 cidades baianas estão em situação de emergência por seca ou estiagem.

Por isso mesmo, muitos aposentados que vivem na zona rural preferem não deixar suas casas. “E Presidente Jânio Quadros faz divisa com cinco ou seis cidades, então muita gente tem medo de roubo. Alguns até saem para votar, mas deixam sempre alguém em casa para vigiar”, explica. Segundo o secretário, a prefeitura disponibiliza cerca de 50 vans que fazem o transporte escolar para transportar os moradores da zona rural até o centro, onde fica a maioria das seções.

No entanto, muitos moradores sequer imaginam que a abstenção alta é comum na cidade. A vendedora Kelly Farias, 24, porém, diz que não conhece ninguém que não tenha ido votar. “Não soube de ninguém e eu fui. Mas faz pouco tempo que voto e é a primeira eleição para deputado que eu participo aqui na cidade. Antes, eu morava numa fazenda em Maetinga. Transferi o título há pouco tempo”, contou, referindo-se à cidade vizinha de Presidente Jânio Quadros.

Mais faltosos
Em Santa Luzia, a campeã de abstenções na Bahia, o prefeito Antônio Guilherme também não fica surpreso com o título. Por telefone, disse ser comum esses índices altos de eleitores que não comparecem às urnas – principalmente, os que moram na zona rural.

Santa Luzia teve o maior número de faltosos (Foto: Reprodução)

“A zona rural depende muito de carro para trazer o povo. As seções são todas na cidade. Coloquei 36 carros à disposição, mas veio pouca gente. Estradas ruins são um fator que também contribui bastante. E tem também o povo que trabalha fora, tem emprego e viaja, mas não tem dinheiro para vir para cá”, afirma.

Além disso, em Santa Luzia, conhecida também por ser um dos destinos turísticos da Costa do Cacau e pelo passado de extração de diamantes, existem movimentos migratórios ligados à agropecuária. De acordo com a analista do IBGE Mariana Viveiros, alguns moradores migram para cidades vizinhas justamente nessa época do ano, em função de ciclos de culturas como o café.

“A gente percebeu, durante o Censo Agropecuário, que existem esses movimentos que podem ter efeito sazonal em Santa Luzia. Eles vão para outras cidades por perto, entre setembro e outubro e trabalham até dezembro. Eles ficam até a colheita e depois voltam”. 

Assim como em Presidente Jânio Quadros, porém, alguns moradores de Santa Luzia desconhecem a abstenção na cidade. “Eu votei e todos que convivem comigo votaram. Moro aqui desde que nasci e nunca ouvi falar de problemas, nem mesmo na zona rural”, conta a atendente de mercado Luciana Souza, 21.

Conheça as duas cidades:
Santa Luzia 

População (em 2018) – 12.751
Região – Sul da Bahia
Formação – O município foi criado a partir do desmembramento de Canavieiras, em 1985.
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – 0,556 (considerado médio por estar entre 0,500 e 0,799)
Produto Interno Bruno (PIB, em 2015) – R$ 106,3 milhões (agropecuária responde por R$ 30,3 milhões)
PIB per capita – R$ 7.798
Esgotamento adequado – 45,5%
Agropecuária (2017) – Café, cacau, coco e outras frutas.
Empresas ativas (em 2016) – 116
Salário médio (2016) – 1,4 salário mínimo
Como votou no 1º turno: Fernando Haddad (PT) – 79,17%; Jair Bolsonaro (PSL) – 11,7%; Ciro Gomes (PDT) – 5,51%; Geraldo Alckmin (PSDB) – 1,93%; Cabo Daciolo (Patriota) – 0,54%; João Amoêdo (Novo) – 0,33%; Henrique Meirelles (MDB) – 0,26%; Guilherme Boulos (Psol) – 0,23%; Marina Silva (Rede) – 0,22%; Álvaro Dias (Pode) – 0,09%; Eymael (DC) – 0,02%; Vera Lúcia (PSTU) – 0; João Goulart Filho (PPL) – 0.

Presidente Jânio Quadros 
População (em 2018) – 12.505 pessoas
Região – Sudoeste da Bahia
Formação – O município foi criado a partir do desmembramento de Condeúba, em 1961.
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – 0,542 (considerado médio por estar entre 0,500 e 0,799)
Produto Interno Bruno (PIB, em 2015) – R$ 71,3 milhões
PIB per capita – R$ 5.248
Esgotamento adequado – 29,9%
Agropecuária (2017) – Cana, feijão, mandioca, milho, palma, pecuária (galinhas e bovinos).
Empresas ativas (em 2016) – 113
Salário médio (2016) – 2 salários mínimos
Como votou no 1º turno: Fernando Haddad (PT) – 63,86%; Jair Bolsonaro (PSL) – 24,35%; Ciro Gomes (PDT) – 4,84%; Geraldo Alckmin (PSDB) – 3,57%; Cabo Daciolo (Patriota) – 1,46%; Marina Silva (Rede) – 0,77%; Henrique Meirelles (MDB) – 0,32%; Guilherme Boulos (Psol) – 0,28%; João Amoêdo (Novo) – 0,24%; Álvaro Dias (Pode) – 0,18%; Vera Lúcia (PSTU) – 0,06%; João Goulart Filho (PPL) – 0,06%; Eymael (DC) – 0,02%.

Confira as 10 maiores taxas de abstenções do estado
Santa Luzia – 38,52%
Presidente Janio Quadros – 38,35%
Santa Cruz da Vitória – 38,06%
Érico Cardoso – 38,02%
Guajeru – 37,68%
Maetinga – 37,56%
Boa Nova – 37,16%
Rio do Pires – 37,00%
Piripá – 36,96%
Tremendal – 36,12%

Confira as 10 menores abstenções do estado
Feira de Santana – 10,89%
Madre de Deus – 12,20%
Cruz das Almas – 12,34%
Novo Horizonte – 12,40%
Lafaiete Coutinho – 12,86%
Aracatu – 12,98%
Brumado – 13,09%
Antonio Cardoso – 13,21%
Coronel João Sá – 13,21%
Juazeiro – 13,25%

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