Cruzeiros vão trazer mais de 160 mil turistas a Salvador até o fim do Verão

Navio com mil pessoas abriu temporada nesta quinta; são 20 embarcações previstas

Num inglês improvisado que se mistura com palavras espanholas e italianas, o ambulante Antônio Fernandes, 57 anos, vai cortejando os turistas que procuram os catamarãs com destino às ilhas que ladeiam a costa baiana. A boa recepção, sempre com um “Welcome to Bahia”, “Bienvenidos a Salvador del Bahia”, tem a intenção de ganhar a confiança do gringo e fazer com que ele leve uma canga e deixe por aqui algum ‘money’.

Sempre trabalhando em frente ao Terminal Marítimo de Salvador, Antônio sabe que as suas vendas têm chances de crescer, dependendo só da boa vontade dos 163 mil passageiros que vão desembarcar no Porto Salvador até 21 de abril de 2019.

Nesta temporada, cerca de 20 cruzeiros farão 49 escalas no Porto de Salvador, o que representa um incremento de 7,6%. No último Verão, foram 50 escalas com 153.314 passageiros. Para o Carnaval, são esperadas 10 mil pessoas, que chegarão de navio.

O Navio Aidaaura, que aportou nesta quinta-feira (25), trouxe a bordo 1.140 passageiros e 393 tripulantes, vindos da cidade de Hamburgo, na Alemanha. Muitos deles pisaram os pés pela primeira vez na Bahia. Além de Salvador, a embarcação vai passar ainda por Ilhéus, Rio de Janeiro, Búzios, Cabo Frio, Santos, Recife, Fortaleza e Maceió. Na capital baiana, os passageiros ficariam até a noite.

O guia francês Ben Linfng foi um dos passageiros que, ao chegar, foi em busca de um mapa que mostrasse os principais pontos turísticos de Salvador. “Quero conhecer o Centro Histórico, a sua arquitetura e igrejas. Gostaria de ir à praia, mas acho que não terei tempo o suficiente”, lamentou ele. O navio atrasou cerca de quatro horas para chegar aqui, vindo de Cabo Verde.

“Sei que as pessoas são acolhedoras”, disse outra francesa, correndo para conhecer os pontos turísticos.

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De acordo com o presidente da Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (Fehba), Sílvio Pessoa, os cruzeiros marítimos costumam ter um impacto positivo na divulgação de Salvador como um “bom destino” no período de férias.

“Os turistas vêm para ficar pouco tempo e fazer passeio, mas eles conhecem um pouco e ficam com vontade de voltar. Neste sentido, funciona bem para os bares e restaurantes; pouco menos para a hotelaria porque eles não dormem”, explica Pessoa.

Ainda de acordo com o presidente da Fehba, no entanto, o fato da cidade ser conhecida pode se tornar um benefício a médio e longo prazo. “A título de divulgação, acaba sendo algo positivo posteriormente, pois, futuramente, podem fazer outras visitas”, acrescenta.

Ainda que por pouco tempo, os turistas que vêm por meio dos cruzeiros contribuem para a economia local – já que passeiam, se alimentam e transitam pela cidade. É o que defende o presidente da Salvador Destination, Roberto Duran. Segundo ele, apesar de não pernoitarem, o setor de transporte e alimentação não deixam de ganhar com as visitas.

“O turismo de navios ajuda na área de turismo, apesar de ser incipiente, se for considerar a cadeia produtiva do turismo como um todo. Mas se o turista faz compras, passeia e se alimenta, ele está contribuindo, não podemos dizer que não“, complementou Duran.

Transporte e guia
E se o turista precisa sair e retornar a tempo no navio, os taxistas pensam em estar cada vez mais próximos do ponto de desembarque, no Porto de Salvador. Conforme o presidente da Associação Geral dos Taxistas (AGT), a categoria tem boas expectativas esta época do ano, quando é iniciada a temporada dos cruzeiros.

“Como o turismo aumenta nessa época,sempre esperamos ter um ganho a mais, afinal, eles fazem questão de conhecer a cidade, às vezes querem ir em pontos mais distantes. Existem os pontos de fila para táxis ali e sempre buscamos acordo com a prefeitura para que estejamos perto do desembarque”.

Para atender a uma demanda vasta de nacionalidades, o Sindicato de Guias de Turismo da Bahia chega a fazer uma espécie de agendamento de seus profissionais para conseguir atender a toda demanda.

“É uma época que temos a certeza da contratação do profissional guia de turismo, quem verdadeiramente está capacitado para sugerir, conduzir e informar esses turistas. Temos guias de inúmeras nacionalidades, então, sempre temos essa procura”, explicou a diretora do sindicato, Silvana Roes.

A guia ressaltou, ainda, que muitos dos visitantes, ainda que tenham pouco tempo, não abrem mão de conhecer o Centro Histórico, Farol da Barra e a Igreja do Bonfim, necessariamente nessa ordem.

“Os que têm um tempinho maior chegam a solicitar praias do Litoral Norte, como a praia do Forte, ondem eles podem desfrutar da tranquilidade da região”.

Degustação
É como uma espécie de aperitivo que o secretário municipal de de Cultura e Turismo, Cláudio Tinoco, compreende a temporada dos cruzeiros. Tinoco explicou que o turismo de cruzeiro funciona bem para que o turista “desguste Salvador, por isso é importante que a gente receba bem esse público”.

Para isso, segundo o secretário, já ao desembarcar na cidade os passageiros contam com um balcão onde é possível ter acesso a todos os órgãos municipais. “É o nosso desafio, sempre receber bem para que sejam portadores da boa divulgação da cidade em outros lugares e que possam voltam de avião depois”.

Dos 163.117 passageiros, distribuídos em 49 navios, que a Secult estima receber até abril de 2019, de acordo com Cláudio Tinoco, 85% chega a desembarcar para realizar alguma atividade em Salvador – que, segundo ele, ocupa uma posição estratégica por estar em um ponto central da costa brasileira.

“Por mais curta que seja a experiência desse turista, é uma oportunidade de tornar a experiência deles inesquecível. Para nós, a possibilidade de fidelizar essa experiência”,  ponderou o secretário.

Economia
A Secult estima que cada turista que desembarca nos portos fique, em média, 12 horas na cidade. “Como os que saem são a maioria, é um percentual significativo de consumo de diversos produtos e serviços.

O consumo diário de cada um dos turistas que vêm a Salvador, diz Tinoco, chega a R$ 485 – incluindo roteiros ou translados para dentro e fora da cidade.

“Nesses roteiros, especialmente o Centro Histórico, ou mesmo a Praia do Forte, no Litoral Norte – destinos com atrativos para o tempo que eles têm. É toda uma cadeia de entretenimento, eles frequentam ensaios e outros shows”, acrescentou Tinoco.

O restaurante Camafeu de Oxóssi, localizado no mercado modelo – próximo ao Porto de Salvador -, sente o aumento dessa economia. Dono do estabelecimento, que funciona no local há 42 anos, Júlio César Calado afirmou que chega a aumentar o número de funcionários em 50%.

“Em geral, nós trabalhamos com 10 pessoas, quando os navios chegam a gente contrata até seis pessoas porque é muita, muita gente. Para nós, é excelente. São pessoas que querem fazer várias coisas em um dia só, e que já chega procurando a comida baiana. Ele quer provar a moqueca, o acarajé, senão ele [o turista] não veio à Bahia”, concluiu.

A temporada
Nesta temporada, os 20 cruzeiros e mais de 160 mil turistas animal o setor poucas vezes se viu. “Menos escalas e mais passageiros é justificado pela chegada de novos navios com maior capacidade de passageiros”, ressaltou o diretor-presidente da Codeba, Rondon Brandão do Vale.

Para o período do Carnaval, entre o final de fevereiro e início de março, são aguardados ao menos cinco navios, que devem trazer à capital 10 mil pessoas. “É o público que vem e consome shows, ensaios de verão, camarotes e blocos”, aposta o secretário Cláudio Tinoco.

Na temporada de cruzeiros de 2017, a Secult registrou uma movimentação econômica de R$ 62,5 milhões geradas dentro de Salvador. “Esperamos ainda mais, pois a temporada passada tivemos 8% menos de passageiros. O número exato nós só podemos confirmar ao embarcarem, porque eles ainda estão vendendo os pacotes”.

Segundo Marco Ferraz, presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil), “o potencial dos cruzeiros no Brasil é imenso e os números mostram que estamos retomando ao crescimento”. Na última temporada de cruzeiros, de setembro do ano passado a abril deste ano, o setor faturou R$ 1,8 bilhão, segundo estudo da Clia Brasil em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Vendas
Antônio, o ambulante do início da reportagem, se não convenceu o casal de comprar sua canga após o atraque do navio, ao preço de uma por R$ 30 e duas por R$ 50, certamente, na volta, fechou negócio com eles. Com jeitinho, conta, tudo fica mais fácil. O tipo de turista, digamos, mais mão-aberta, explica o ambulante, é aquele mais velho, que chega à cidade com a máquina na mão e um sorriso no rosto, maravilhado com a claridade e o clima quente-úmido de um país tropical.

“Esses a gente conhece de longe. É certeza que vamos vender. Só não adianta muito com os japoneses, aqueles são ruins para negócio”, analisa, com bom humor.

Em um dia comum, no período de baixa estação, o ambulante chega a voltar para casa com todas as cangas embaixo do braço. Já na alta estação, com a circulação de navios, como foi o caso desta quinta, a expectativa é vender cerca de 15 peças.

No estacionamento do Porto Salvador, estavam à espera dos turistas 10 ônibus. Os veículos foram utilizados por aqueles que decidiram descer da embarcação e fazer um tour pela cidade, como o alemão Josef Thevis que nada sabia sobre a capital baiana, mas muito sobre o cenário político do Brasil. “Está uma bagunça”, afirmou para um tradutor da língua alemã que facilitou o diálogo entre repórter e fonte.

De acordo com o gerente do Porto Salvador, Gustavo Andrade, durante a alta temporada, Salvador aparece como escala em 50 viagens. “Por navio, uma média de 3 mil passageiros. O que daria uma estimativa, durante esta temporada, de 150 mil pessoas circulando pela cidade “, calcula.

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