Alunas do Colégio Militar de Salvador denunciam assédio de colegas

Colégio afirmou que vai abrir sindicância para apurar o caso

Um grupo de 15 alunas do Colégio Militar de Salvador (CMS), no bairro da Pituba, denunciou nas redes sociais, neste domingo (21), casos de assédio cometidos por estudantes da instituição, administrada pelo Exército. Prints de conversas de um grupo de estudantes no Instagram foram postados na internet por elas, que repudiaram o conteúdo e o classificaram como “machistas”.

Nos posts, sete alunos do Colégio Militar de Salvador e um aluno do Colégio Militar de Brasília (CMB) que já estudou na capital baiana – todos com idade entre 14 e 16 anos – criticavam as meninas pelas suas características físicas, como peso e anatomia, citando até partes íntimas.

Meninas descobriram conversa ao ter acesso a Instagram de um dos colegas (Foto: Reprodução)

Na manhã de segunda-feira (22), alunas da instituição se reuniram no pátio do CMS e fizeram um protesto pacífico. O ato foi replicado em outros colégios do Sistema Colégio Militar do Brasil.

Em nota enviada, o CMS confirmou que tem conhecimento sobre o caso e afirmou que “instaurou sindicância para apurar o fato, que aconteceu no final de semana, quando os alunos não estavam em aula”.

“Comendo a da esquerda, você ganha 100 reais. Comendo a da direita, você ganha 5 reais. E aí?”, escreveu um dos alunos da instituição, ao compartilhar fotos de duas alunas. A conversa continua e, em diversas partes, fica impublicável.

Segundo estudantes, colégio sugeriu que vítimas apagassem denúncia (Foto: Reprodução)

Uma aluna que não quis se identificar explicou que as meninas descobriram a existência do grupo no Instagram e resolveram expor a situação e o conteúdo.

“Elas viram o grupo falando que elas eram gordas e outras coisas bem piores. As meninas ficaram revoltadas, publicaram, e esperaram para ver o que o colégio ia dizer”, contou.

“Carol* tá mó (sic) gatinha”, escreveu um aluno. “Acho que ela tem 12 anos”, repreendeu outro. “Será que já transa?”, respondeu o primeiro em um dos trechos do diálogo.

Em outra conversa, desta vez no WhatsApp, alunos da instituição também falam sobre compartilhamento de imagens íntimas das alunas. Um deles chega a falar que possui “uma coleção” de fotos e vídeos das meninas – jovens de 14 a 16 anos.

Missão
Sem se identificar, uma das estudantes vítimas do assédio, afirmou que elas descobriram a existência do grupo no Instagram há cerca de um mês e, a partir daí, passaram a bolar um plano para tentar conseguir o celular de um dos meninos – alguns amigos próximos delas -, e tirar os prints.

“Nós ficamos muito surpresas com tudo isso porque eles eram nossos amigos. Alguns até tinham um posicionamento pró-feminismo, então, foi chocante. Bolamos um plano. Uma amiga minha conseguiu pegar o celular de um dos integrantes do grupo e fazer as cópias das conversas, ela mandou o máximo que pôde, mas disse que muita coisa ela não teve tempo”, relatou a adolescente.

Ainda de acordo com a menina, que tem 15 anos e estuda no CMS há três, a decisão de postar as conversas na internet foi coletiva. A vítima comentou que foi o jeito que elas encontraram de “gritar”, já que, segundo a garota, ocorrências como essa dificilmente chegariam ao superiores.

“Há censura por parte de professores e pedagogos. A gente não pode dizer coisas aos profissionais, e eles não podem nos dizer coisas. Casos como esses já aconteceram e não foram denunciados. Nunca chega ao conhecimento do comandante. É a primeira vez que chegasse até eles [comando]”.

Medo
Embora tenham conseguido levar as agressões verbais até o comando máximo da escola, as estudantes, agora, temem pela punição que podem receber por ter exposto o nome do CMS.

De acordo com as alunas ouvidas pela reportagem, o colégio orientou que não fosse comentado nada sobre o ocorrido nos corredores e afirmou que a instituição iria “punir algumas meninas que citaram o nome do colégio”, e chegou a sugerir que elas apagassem os prints das redes sociais.

“Nós estamos com medo porque eles dão muita importância a isso de manchar a imagem do colégio. Eles podem cair sobre nós, apesar de ser legítima a nossa denúncia”, relatou uma outra vítima, também sem se identificar.

Conforme a garota, as famílias delas estão unidas e pressionando a instituição quanto a uma resposta para o caso.

“Nós esperamos que eles punam todos de forma severa. O ideal seria uma expulsão, para que fiquem de de exemplo de outros meninos. Acreditamos que não aconteça, um deles é filho de um coordenador”, comentou.

Já uma terceira vítima ouvida pela reportagem defende que o CMS “poderia investir em palestras de conscientização no sentido de ensinar os estudantes a ter respeito uns pelos outros”.  A garota afirmou que há “censura generalizada” dentro da instituição e que os alunos não têm liberdade para se expressar dentro das dependências da escola.

 (Foto: Reprodução)

“Acho que isso poderia ajudar muito, se a gente tivesse lugar de fala. Mas não temos e isso acaba ocasionando situações como essas. Por exemplo, eles não chegaram para falar abertamente sobre o caso, simplesmente mandaram aviso comunicando a sindicância que abriram”, concluiu a vítima.

E completou: “Sendo assim, são realizadas ações junto aos alunos, seja de forma coletiva ou individual, trazendo-os à reflexão sobre o papel dos atores e dos espectadores nas redes sociais, destacando a importância da própria atitude diante do material enviado por estes canais”, disse, sem comentar, no entanto, se os sete meninos serão responsabilizados.

De acordo com a administração da instituição, a sindicância é um instrumento formal, apresentado por escrito, que tem por objetivo apurar fatos de interesse da Administração Militar.

“Embora o CMS não realize o monitoramento das redes sociais dos alunos, por motivo de prevenção, a escola pode fazer a vigilância do que ocorre nas redes sociais associado ao nome do colégio e, neste caso, poderá haver responsabilizações conforme o disposto nas normas e regulamentos, inclusive podendo culminar com o desligamento do Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB)”, conclui a nota.

As jovens afirmam que os prints não serão excluídos das redes, apesar da orientação do CMS.  As estudantes também protestaram com a hashtag “#sororidadenossaforça”.

Punição
Quando questionado sobre eventuais punições para os alunos, por meio da assessoria, o CMS respondeu que busca, em parceria com as famílias dos estudantes, orientar os alunos quanto ao “bom uso das diversas ferramentas disponíveis em aparelhos celulares e smartphones, visando a melhor utilização desses novos recursos”.

Até a tarde desta terça-feira (23), 555 publicações já haviam sido postadas no Instagram por alunas, ex-alunas, ex-alunos e alunos da instituição. Nos posts, as alunas denunciam machismo e misoginia.

Ex-alunas também denunciaram casos de assédio por alunos e membros do Exército após o fato. Uma delas chegou a relatar que um soldado deu sedativo para ela e tentou a agarrar. O CMS respondeu que “desconhece e repudia a participação de professores e militares em atos ou propagação de conteúdos sobre assédio moral e sexual na escola”.

Por meio da assessoria, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA) afirmou que não recebeu denúncias formalizadas sobre o caso. Ainda de acordo com a pasta, embora a administração do CMS seja do Exército, a Polícia Civil tem autonomia para investigar casos ocorridos dentro das dependências da instituição, desde que haja uma queixa formalizada por parte das vítimas.


Circular destinada aos pais dos estudantes foram entregues nesta terça-feira (23)
(Foto: Reprodução)

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