Em 4 anos, 21 hotéis fecharam em Salvador; setor perdeu 30 mil vagas de emprego

Capital baiana é a 2ª com mais hospedarias fechadas após a Copa de 2014; veja lista

Tinta descascada, fachada com remendos e vegetação que cresce na parede úmida são sinais de abandono que não lembram nem de longe os tempos áureos de alguns hotéis em Salvador. A capital é a segunda no país, entre as que sediaram a Copa do Mundo de 2014, que registrou o fechamento do maior número de hotéis nos últimos quatro anos. Foram 21 unidades fechadas, de acordo com um levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih Nacional), divulgado nesta segunda-feira (6). Em Belo Horizonte (MG), 23 hotéis encerraram as atividades.

Hotel Patamares, Pousada Bayona, Porto Farol Apart Hotel, Belmar Hotel, Pestana Bahia Hotel – um dos mais tradicionais, com 433 apartamentos – e o Tulip Inn estão na lista. Ao todo, estima-se que o setor turístico de Salvador tenha perdido 30 mil vagas de emprego (veja mais abaixo).

Hotel Atlântico, no Jardim de Alah, com pichações e sinais de abandono após fechamento (Foto: Marina Silva)

O Rio de Janeiro teve 13 hotéis com operações encerradas, sem contar outros três que estão fechados, indefinidamente, para reformas. No Sul do país, ainda segundo a Abih, 16 hotéis foram fechados em Porto Alegre e três em Curitiba. Manaus teve quatro hotéis com atividades encerradas, e Cuiabá, sete. Em Brasília, dois não chegaram sequer a iniciar as operações.

Além da hospedagem, houve redução ainda no número de agências de viagens. Antes da Copa do Mundo de 2014, elas somavam em Salvador pouco mais de 200; hoje são, no máximo, 150, segundo informações da representação baiana da Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav).

Motivos
Nacionalmente, a Abih considera que a alta carga tributária, a falta de políticas de incentivos e de divulgação dos destinos, a ausência de regulamentação dos aplicativos de reservas de hospedagem em residências, a falta de segurança e de infraestrutura do país, aliadas a uma malha aérea cara e segmentada, contribuíram para o cenário.

Na Bahia, o principal problema para o setor do turismo foi o fechamento do Centro de Convenções em outubro de 2013, segundo a representação estadual da Abih. O presidente, Glicério Lemos de Santana, destacou que a cidade perdeu muitos eventos após o fechamento do equipamento.

“O Centro de Convenções traz um equilíbrio muito grande para toda a cadeia do turismo, sobretudo com a realização dos eventos na média e baixa estação. Então, com o fechamento dele, perdemos esses eventos e deixamos de movimentar a cidade. Agora, depois da requalificação da orla, é que demos uma melhorada”, declarou.

Glicério destacou ainda que os hotéis que fecharam depois da Copa de 2014 não foram abertos próximo ao evento, quando houve um incremento de cerca de 30 hotéis: “Os fechados são antigos e não conseguiram se manter devido a problemas de redução de hóspedes, agravado pelo fechamento do Centro de Convenções”.

Na avaliação do coordenador da Câmara Empresarial do Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo da Bahia (Fecomércio-BA), José Manoel Garrido, o fechamento dos hotéis depois da Copa é consequência também da falta de investimento desses estabelecimentos em modernização.

“Muita gente achou que, com a Copa, os problemas do turismo estariam resolvidos, pensaram que o fluxo de turistas iria se manter, mas veio a crise, que afetou muita gente, principalmente os pequenos estabelecimentos”, declarou Garrido.

O secretário de Turismo da Bahia, José Alves, declarou que, apesar do fechamento de alguns hotéis, surgiram outros de grande importância para o setor. Ele cita o Hotel Fasano, na Praça Castro Alves, e o Fera Palace Hotel, na Rua Chile, Centro Histórico da capital. O secretário afirmou que a cidade tem perspectiva de grande crescimento no fluxo de turismo internacional com novos voos diretos, como para os Estados Unidos (Miami), Cabo Verde (Praia) e Panamá (Cidade do Panamá).

Sobre o Centro de Convenções, o secretário disse que o governo recebeu uma proposta de manifestação de interesse por parte de uma empresa privada, que deseja construir um novo equipamento no Parque de Exposições, numa obra de R$ 240 milhões, com previsão para ser construído entre 12 e 18 meses.

A Abih informou que está realizando eventos com operadores e agentes de viagem, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), para incrementar o calendário de ações.

A empresária Ângela Carvalho, presidente da Abav na Bahia, está otimista: “Agora, com novos eventos e espaços, é que estamos tendo mais perspectiva de melhorias. Acredito que 2018 ainda vai ser muito bom para o setor”. Até julho deste ano, a taxa média anual de ocupação hoteleira está em 61,45% – a maior desde 2012.

Confira a lista dos hotéis que fecharam as portas

  1.  Hotel Jaguaribe Praia

  2.  Hotel Cores do Mar

  3.  Hotel Patamares (Patamares Praia Hotel)

  4.  Pousada Bayona

  5.  Porto Farol Apart Hotel

  6.  Itapoan Praia Hotel

  7.  Hotel Atlântico

  8.  Belmar Hotel

  9.  Pestana Bahia Hotel

  10.  Tulip Inn Centro de Convenções

  11.  Marina Riverside Hotel

  12.  Hotel Litorâneo

  13.  Pousada Lagoa Praia

  14.  Solar Diana

  15.  Hotel Pelourinho

  16.  Hotel Corsário

  17.  Salvador Praia Hotel

  18.  Hostel Patuá

  19.  Vila Giuliana

  20.  Pousada Red Fish

  21.  Albergue do Porto

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Cadeia de turismo perde 30 mil empregos
Com o fechamento dos hotéis, 30 mil empregos deixaram de ser gerados em Salvador em toda a cadeia do turismo, que, atualmente, emprega mais de 200 mil pessoas. O número de leitos para hospedagem, por sua vez, foi reduzido em 5 mil – antes da Copa de 2014, eram 47 mil leitos. Quem depende do funcionamento dessas estruturas também lamenta.

O taxista José Carlos Souza, que lamenta a perda dos clientes do antigo Hotel Pestana, no Rio Vermelho (Foto: Marina Silva)

Ancorado em um paredão de frente para o mar, o Hotel Pestana, no Rio Vermelho, era uma referência em Salvador. Nos tempos áureos, os taxistas não davam conta de todas as corridas de tanto entra e sai de hóspede. É o que conta José Carlos Souza, 66, que dirige há 38 anos.

“Quando anunciaram que a Copa aconteceria no Brasil, fiquei feliz, esperava que o movimento melhorasse, mas não mudou muita coisa. De lá pra cá só tem piorado”, contou ele.

O empresário Leonardo Daltro, 33, tem um restaurante na mesma rua do hotel, que foi o primeiro cinco estrelas da Bahia. Ele diz que o fechamento, há dois anos, teve reflexo direto sobre seu negócio.

“O movimento de turistas nos outros hotéis da região é grande durante o Verão, mas o Pestana realizava congressos e outros eventos durante todo o ano, o que gerava movimento. Depois que ele fechou, tivemos queda na receita e precisamos adotar algumas estratégias para atrair os clientes, principalmente os de Salvador”.

Para atrair clientes, o comerciante criou promoções e barateou alguns pratos – ações que ajudaram a amenizar a situação.

Hotel Pestana, um dos mais tradicionais da cidade, no Rio Vermelho, também não resistiu à crise no setor hoteleiro (Foto: Marina Silva)

Na orla de Patamares, na esquina entre a Avenida Octávio Mangabeira e a Rua José Augusto de Freitas, um prédio se destaca. O amarelo das paredes quase desapareceu e, pelo vidro da porta da frente, é possível ver o abandono do lado de dentro do Patamares Praia Hotel.

Do lado de fora, o salitre intensificou a ação do tempo. Quem olha pra cima consegue ver que os aparelhos de ar-condicionado foram retirados dos quartos, que algumas paredes estão úmidas e que o local não recebe uma boa faxina há bastante tempo. No muro que protege a garagem, são as rachaduras que se destacam.

Cerca de 5 km à frente ficava o Hotel Atlântico. Hoje, um prédio fantasma, mas no passado o edifício de três andares era um dos mais bonitos da região do Jardim de Alah. Ele voltou aos noticiários em junho deste ano, depois que o piano que ficava no salão principal apareceu jogado na calçada e foi resgatado por um músico.

Atualmente, Salvador tem cerca de 400 hotéis e 10 mil bares e restaurantes, segundo os dados da Febha. Em todo o estado, são 4 mil hotéis e 40 mil bares e restaurantes. “O turismo é responsável por 7,5% do PIB da Bahia e 20% do de Salvador. É o segundo setor que mais emprega, atrás apenas do agronegócio”, afirmou Silvio Pessoa, presidente da Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (Febha).

Para ele, faltou planejamento e ações concretas para evitar o esvaziamento dos hotéis. Pessoa destacou também outros problemas que teriam influenciado o cenário de crise: “Não houve um estudo de viabilidade econômica. Não foram pensadas ações para manter esses espaços funcionando depois da Copa, então, depois de três anos de crise, eles estão fechando”. A greve dos caminhoneiros, em maio deste ano, foi outro evento que corroborou para o ‘check out geral’ dos estabelecimentos, segundo o presidente da Febha.

A rede hoteleira já existente na capital tem registrado resultados positivos. No primeiro semestre deste ano, a taxa de ocupação foi de 61% – 8% a mais que os 53% do mesmo período de 2017. De 2016 para 2017, o aumento foi de 10%.

Além disso, a procura por Salvador como destino turístico cresceu 112% nos 50 dias após a estreia da novela Segundo Sol – em relação aos 50 dias anteriores. O folhetim das 21h da TV Globo tem atraído turistas, segundo levantamento do Kayak, um dos maiores buscadores de viagem do mundo.

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