Calor dos ‘invernos’! Sem chuva, Salvador tem estação mais seca em sete anos

Em julho, choveu 63 milímetros - média para mês é 208,3 mm

Parecia verão, com temperatura de 29ºC e o sol iluminando o céu de poucas nuvens, mas o que a professora de Educação Física Dalila Cardoso, 30 anos, via e sentia nesta quarta-feira (1º) na praia do Porto da Barra, em Salvador, era uma manhã de inverno marcada pela falta de chuvas – a média mensal em julho foi a pior dos últimos sete anos.

Choveu 63 milímetros em julho deste ano, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), ou 30% da média registrada, entre os anos de 1981 a 2010 pelo instituto, de 208,3 mm (quantidade de chuva esperada para o mês).

A pior média mensal de chuvas registrada pelo Inmet foi em julho de 2011 (57,3 mm). Já a temperatura tem variado de 20°C a 29ºC. “Mesmo para o inverno, é normal essa variação de temperatura, ao menos aqui em Salvador”, disse a meteorologista do Inmet, Cláudia Valéria Silva.

Segundo a meteorologista, o motivo da falta de chuvas deste ano é o resfriamento das águas do Oceano Atlântico, o que gerou redução de chuvas em todo o Nordeste, afetando também o nível do rio São Francisco.

Dia 26 de julho o governo federal autorizou a redução, até 30 de novembro de 2018, da descarga mínima dos reservatórios de Sobradinho e Xingó, de 1.300 m³/s para média diária de 550 m³/s e instantânea de até 523 m³/s. Sobradinho, nessa mesma época do ano passado, estava com o nível em 12% do volume, hoje está em 34%.

Ar seco
Em Salvador, cidadãos como a educadora física Dalila têm sentido a falta de chuvas e o ar mais seco na pele – mais especificamente, no caso dela, na garganta. Durante o São João deste ano, a falta de chuvas, aliada à fumaça das fogueiras, fez com que Dalila tivesse uma crise de garganta, e ela foi parar no hospital.

“Já estava meio ruim da garganta, com esse tempo seco, e a fumaça piorou a situação. Comecei a sentir meu corpo mole, dores nas articulações, falta de apetite, não teve outro jeito, tive de ir ao hospital, onde me disseram que o problema foi por causa da baixa umidade e da fumaça”, contou ela, que passou a consumir mais líquidos.

A paulista Vera Lúcia Costa, que também estava na praia do Porto da Barra, diz que tem sentido o ar mais seco na Bahia. “Só não está pior que São Paulo, onde tem mais de 100 dias sem chover”, disse. “Gosto da Bahia e do clima”, declarou.

(Foto: Marina Silva)

Preocupação
Segundo o Inmet, em Salvador, a umidade relativa do ar tem variado entre 50% a 90%. O nível tolerado é até 30%, abaixo disso já é algo para se preocupar.

Mas o médico pneumologista Fernando Luiz Cavalcanti Lundgren, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), alerta que mesmo que a umidade relativa do ar não esteja abaixo dos 30%, a falta de chuvas é preocupante porque partículas poluentes ficam mais tempo no ar.

“Quando chove, esses gases poluentes descem junto com a chuva e o ar fica mais leve. Mas se fica o tempo seco, sem chover, a tendência é as pessoas respirarem mais esse ar poluído e terem doenças”, explicou.

O monitoramento da qualidade do ar em Salvador e na Região Metropolitana, segundo o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Inema), é realizado pelas empresas Cetrel e Petrobras.

No entanto, as estações da Cetrel, que em Salvador estão localizadas no Campo Grande, Rio Vermelho, Avenida Paralela (Centro Administrativo da Bahia), Parque da Cidade, Iguatemi, Pau Miúdo, Pirajá e Calçada, esperam autorização da Prefeitura de Salvador para captar patrocinadores e voltar a funcionar, informou a empresa.

A Petrobras, que não respondeu à reportagem, possui quatro estações fixas no entorno da refinaria Landulpho Alves (São Francisco do Conde), abrangendo os municípios de Candeias, Madre de Deus e São Francisco do Conde.

Situação no interior
Na Bahia, a falta de chuvas levou 181 cidades a decretarem estado de emergência nos últimos meses, segundo informações da Superintendência de Proteção e Defesa Civil (Sudec), mas seis desses decretos não foram reconhecidos (Serra do Ramalho, Jussara, Jaguaquara, Itaquara, Boa Vista do Tupim e Aracatu) e dois (Barra e Andorinha) estão em análise.

O diretor-superintendente da Sudec Paulo Sérgio Menezes Luz observa que a Bahia já está no sétimo ano seguido de estiagem, o que tem feito baixar o nível de rios, riachos, aguadas e barragens. “A Bahia é o único estado do Nordeste que está com níveis baixos nos reservatórios”, afirmou Luz.

A situação pior é com relação aos municípios da região Sudoeste, onde a barragem de Anagé está com 30% da capacidade, a do Champrão (em Condeúba e que atende ainda Piripá e Cordeiros), com 4%, e a do Truvisco, em Caculé (atende a Caculé, Rio do Antio, Guageru e Licínio de Almeida), em 15%.

Hoje, o Exército atende 110 cidades baianas com carros-pipa, e a Sudec vai atender outras 29 cidades (26 do Sudoeste e três do Oeste) que deixaram de ser atendidas pelo Exército porque os decretos de emergência não foram reconhecidos pela Defesa Civil Nacional.

“O Sudoeste hoje é o que mais preocupa. Por conta da estiagem, tem havido perdas de safras, a agricultura familiar vem perdendo colheitas de feijão, milho e mandioca. Há redução de pastagens da pecuária e perda de peso e diminuição da produção leiteira, tem ocorrido até mesmo aborto em cabras e ovelhas. Esse é o quadro atual”, disse Luz.

De acordo com o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o tempo seco na Bahia e no Nordeste ainda deve permanecer até outubro, com chuvas pequenas e isoladas. Para Salvador, só em novembro é que deve voltar a chover.

Baixa umidade
Na Bahia, segundo o Inmet, as cidades que mais têm sido afetadas pelo ar seco são as da região Oeste, como Santa Rita de Cássia e Formosa do Rio Preto, onde a umidade relativa do ar tem variado entre 12% a 14%.

Em Santa Rita de Cássia, cidade de 29 mil habitantes, há três semanas é mantido esse nível de umidade do ar, o que gerou nas farmácias aumento de até 50% na venda de remédios para problemas respiratórios – acabou até estoque de medicamento usado no combate à bronquite e asma – e maior procura aos postos de saúde.

Outro agravante local é a variação da temperatura num único dia. Nesta terça-feira (31), por exemplo, o município de Santa Rita de Cássia registrou 9,8 ºC durante a madrugada e 35 ºC durante o dia, de acordo com informações do Inmet. O clima seco tem levado muitas pessoas a comprarem umidificadores de ar, vendidos a R$ 145.

“Temos vendido muitos antigripais, corticoides, antialérgicos e antibióticos. A venda desses tipos de medicamentos tem sido bem maior em relação aos outros produtos”, disse o empresário Luciano César Araújo Santos, dono de uma farmácia onde já instalou o umidificador de ar para não ter problemas. “Em casa tenho um também”.

De acordo com o Inmet, a baixa umidade do ar já é característico da região Oeste nessa época do ano. Mas a depender dos fenômenos climáticos, pode ser mais ou menos agravada de um ano para outro. Na região, o período de chuvas é entre os meses de outubro e abril.

Devido ao problema, a Prefeitura de Santa Rita de Cássia tem orientado os moradores a consumir muito líquido e sempre deixar um balde com água nos cômodos da casa, a dormir com toalha ou pano molhado perto, para que a respiração fique mais confortável.

Ainda segundo a prefeitura, nas últimas semanas houve aumento considerável – não há uma porcentagem estimada – na procura por atendimentos de pacientes com problemas respiratórios tanto nos postos de saúde quanto no hospital local.

A rede de atenção básica da cidade tem cadastradas quase 13 mil pessoas, com 100% de cobertura nos estabelecimentos de saúde da família. “Temos dado a atenção necessária a esses e outros casos de saúde da cidade, com o fornecimento de xaropes, antialérgicos e antibióticos”, declarou a coordenadora da Atenção Básica, Sheila Lopes.

A coordenadora informou que 100% de todas as categorias de idade estão vacinadas contra gripe e recebido assistência maior, sobretudo pessoas que têm apresentado quadros de pneumonia.

Tempo seco favorece colheita de algodão, mas aumenta risco de incêndios
Área mais afetada com o clima seco e onde umidade relativa do ar em épocas normais varia entre 20% a 25%, o Oeste da Bahia ao mesmo tempo em que se beneficia da falta de chuvas, sobretudo devido a colheita de algodão, corre maior risco de incêndios.

A análise é da meteorologista da Somar Agricultura Heloísa Pereira. “Se chovesse agora, nessa época de colheita do algodão, seria um desastre para os produtores, pois a fibra perde valor com a umidade. Então, esse tempo seco está sendo muito bom nesse sentido”, ela disse.

A colheita do algodão no Oeste segue até 20 de setembro. A estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é que sejam colhidas nesta safra 1.128.904 toneladas, 35,4% mais que em 2017 (833.490 toneladas).

O volume deste ano corresponde a 23,9% da safra nacional de algodão em 2018, o que coloca a Bahia em segundo colocado na produção nacional. Chuvas bem distribuídas, ocorridas devido ao fenômeno La Ninha, e investimento em tecnologia de ponta colaboram para isso.

(Foto: Divulgação/Associação Baiana dos Produtores de Algodão)

Por outro lado, destaca Heloísa Pereira, “a falta de chuvas e o tempo seco demais no Oeste faz com que os produtores tenham de ficar com o alerta dobrado em relação à propagação de incêndios, que são mais fáceis de ocorrer com o tempo seco”.

E se o tempo está bom para os produtores este ano, para 2018 não deve ser tão positivo, segundo preveem estudos do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Clima e Sociedade (IRI, na sigla em inglês), da Universidade de Columbia (EUA).

“Para 2019, está prevista a chegada do fenômeno EL Ninho, com muita seca, como ocorreu nos anos anteriores. Pode ser que a lavoura não fique sem ser irrigada, devido ao sistema mecanizado, mas haverá muito mais consumo de água dos rios e mais gasto com energia. É bom já ficar atendo a isto”, disse.

Especialista orienta consumir muito líquido e dá dicas para umedecer ambiente
Beber muito líquido (água de preferência), evitar deixar a garganta seca por muito tempo e ter sempre em casa, seja de dia ou à noite, aquários (mesmo sem peixes dentro) e outras vasilhas com água por perto para que o ambiente fique mais umedecido.

Essas são algumas das atitudes que as pessoas podem tomar para evitar doenças respiratórias causadas pelo tempo seco, segundo informou o médico pneumologista Fernando Luiz Cavalcanti Lundgren, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).

“Usar roupas leves e colocar uma toalha molhada perto da cama também auxilia, faz com que haja menos possibilidade de vir a ocorrer algum problema. Mas se puder, o melhor mesmo é comprar um umidificador de ar”, declarou o médico.

O ar mais seco, explica Lundgren, faz com que as mucosas (a pele) por onde passam o ar, seja pelas narinas ou pela garganta, fiquem inflamadas, e se não houver o consumo contínuo de líquidos a situação tende a piorar e surgir uma rinite ou sinusite.

“Respiramos 12 mil litros de ar por dia, e com o ar seco a pele por onde ele passa fica inflamada, quebradiça, com espaços por onde passam os vírus e bactérias que chegam pelo ar, gerando quadros clínicos mais graves”, contou.

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