‘Ele vai deixar muita saudade’, diz neto de Mario Cravo Júnior

Para Christian Cravo, artista deixa muito mais do que obras pela cidade, mas um legado artístico e cultural incalculável

Basta andar um pouco por Salvador para ver que suas obras – entre elas esculturas, pinturas e monumentos – estão espalhadas por todos os cantos da cidade: no Parque de Pituaçu (mais de 100 esculturas), nas Praças da Sé (Cruz Caída) e Cayru (O Monumento às Quatro Raças), na Avenida Anita Garibaldi (Memorial a Clériston Andrade), em Itapuã (Sereia de Itapuã), Pituba (Iemanjá e Exu, dos Correios), Tancredo Neves (O Cruzeiro, na Casa do Comércio) e em muitos outros lugares.

Um dos nomes mais importantes da arte moderna, o artista plástico, escultor, desenhista e ilustrador baiano Mario Cravo Júnior deixa muito mais do que obras pela cidade, mas um legado artístico e cultural incalculável. “Meu avô foi também um pai pra mim. As memórias embrionárias que tenho são dele. Ele me deixa um legado não só artístico como de um homem visceral que tinha a arte como fim e não como meio de autopromoção. A arte para ele era usada para o autoconhecimento. Ele conversava como minha filha de quatro anos com o mesmo interesse que com um homem de minha idade. Ele era movido a curiosidade e foi isso que me moldou. Ele vai deixar muita saudade”, afirmou o fotógrafo Christian Cravo, neto de Mario, em declaração ao colunista Ronaldo Jacobina.

“Ele era o último modernista baiano vivo e foi um grande líder do movimento na Bahia. Teve a vida inteira dedicada à arte. A Bahia, inclusive, está nas obras dele. Embora não tivesse um estilo bem definido, suas esculturas estão por todos os lugares”, destaca o artista plástico e crítico de arte César Romero, que também é colunista.

Mario Cravo tornou-se reconhecido internacionalmente por retratar, em sua obra, as tradições, crenças, costumes e os mitos do povo baiano, como lembra o pintor e crítico Juarez Paraíso. “Ele tem um estilo único: só de olhar você já sabe que está diante de uma obra dele. Executou com maestria não só obras abstratas como figurativas”, destaca.

(Foto: Arisson Marinho/)

Para Paraíso, o maior exemplo de seu estilo diferenciado está no Parque de Pituaçu: “A arte pública dele é única, principalmente do ponto de vista estético. É uma referência para as próximas gerações”.

Ele encarava seu ofício como uma missão: “Todo ser humano tem a chance de, no mínimo, nascer duas vezes […] A primeira acontece quando surgimos. A segunda, quando podemos escolher onde viver e que linguagem, ofício ou missão eleger para nos manifestarmos e ganhar a vida. Eu escolhi ser artista e escolhi Salvador para exercer minha tarefa, assim como muitos escolhem a França e a Escola de Paris. Penso ter feito boa escolha. […]”, escreveu, certa feita, Mario Cravo.

Além da estética do trabalho executado, o diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), Zivé Giudice, diz que os trabalhos de Mario Cravo se diferenciam  ainda pelos materiais utilizados. “Ele construiu uma obra monumental, importante do ponto de vista da forma, da materialidade e  da utilização de matérias – às vezes pouco utilizados”, fala.

O prefeito de Salvador, ACM Neto, definiu o artista como um dos maiores expoentes da arte moderna. “Mario Cravo Júnior foi responsável por difundir a cultura produzida na Bahia com brilhantismo, ao lado de artistas como Carybé, Carlos Bastos, Jenner e Genaro de Carvalho”, escreveu o prefeito, em nota. Seu avô, Antônio Carlos Magalhães, inclusive, era amigo do escultor.

Também em nota, o governador Rui Costa ressaltou que a arte de Mario Cravo é única. “Perdemos um ilustre nome das artes, que se eternizará na memória de todos os baianos”, disse, em nota.

Aos 95 anos, Mario Cravo Jr. produzia com vigor
(Andrew Kemp/Divulgação)

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-BA) emitiu comunicado dizendo  orgulhar-se de posssuir em sua sede, a Casa do Comércio, uma das grandiosas obras do artista: O Cruzeiro, de 16 metros de altura, na lateral externa do edifício, na  Avenida Tancredo Neves. “Em nome da memória de Mario Cravo Jr., nos comprometemos em preservar esta grande obra”.

Mario Cravo teve quatro filhos com Maria Lúcia Ferraz Cravo, com quem se casou  no ano de 1945. O mais velho foi o também artista plástico Mario Cravo Neto, que faleceu em 2009.

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