Atravessando gerações: estudantes denunciam insegurança na Ufba há quase 40 anos

Um dos problemas é a competência para o policiamento no campus

Nunca foi novidade. A insegurança nos campi da Universidade Federal da Bahia (Ufba) não começou ontem, nem na semana passada, quando uma terceira estudante foi estuprada em menos de três meses. É um problema que acompanha gerações de estudantes, professores e servidores técnico-administrativos.

Em 1982, a então caloura de Belas Artes Eliane Palma já tinha a mesma estratégia que a estudante de veterinária Thais Vilar, 19, tem hoje: andar em grupos para tentar se proteger. Por essas décadas de diferença, passaram diferentes gestões, governos federais e incontáveis discussões acerca do tema. No final, nada parece ser capaz de oferecer uma solução definitiva.

Nos últimos dias, porém, a questão da segurança fez a própria instituição afirmar que reagiu ao ‘agravamento’ da violência em seus campi. E tudo toma contornos ainda mais dramáticos depois que Ramon Tiago Santos de Lima, 24 anos, acusado pela polícia de ser o autor dos três estupros que ocorreram na Ufba em 2018 tem a coragem de dizer que escolheu a universidade justamente por ser um local ‘fácil’, por não ter circulação de viaturas.

A professora do curso de Biologia Paula Rostow, que acompanhou o noticiário sobre a prisão de Ramon, nesta sexta-feira (27), falou sobre o problema: “Aqui, no Instituto de Biologia, qualquer pessoa entra, sobe as escadas, vai ao banheiro, bate na porta de um laboratório, de uma sala de aula e isso é muito preocupante. Você pode estar dando aula e um desconhecido pode entrar na sua sala”.

As estudantes da instituição também reagiram. Integrantes do Centro Acadêmico do Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Saúde chegaram a lançar uma campanha de combate à violência contra a mulher nos campi. “Está em risco? Apite!”, diz o card divulgado nas redes sociais. A principal recomendação é justamente a de que as mulheres não andem sozinhas nos espaços universitários.

Hoje professora aposentada e com 57 anos, Eliane se preocupa com a filha – que estuda à noite no campus de Ondina. Ela acompanha as notícias e não consegue entender: as coisas parecem continuar iguais ao seu tempo.

“Na verdade, fico extremamente preocupada, porque parece que só piora. Os estudantes ficam à mercê. A gente já nem tem esperança, porque passaram tantos anos e não existe nenhuma medida”, diz.

Estacionamentos estão entre os locais mais perigosos listados por alunos e professores
(Foto: Marina Silva)

Na época em que era estudante, as aulas eram durante o dia. Ela conta que a universidade tinha poucas atividades à noite, mas os cuidados eram os mesmos. Os piores pontos eram o campus de São Lázaro, onde funciona a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, e a saída do Vale do Canela até a Escola de Belas Artes.

“A gente só subia em grupo. Ninguém se arriscava realmente, porque tinha casos de assalto e estupros de alunos. Agora, me preocupo com minha filha. Ela sai naquele trajeto entre os pavilhões, que são desertos, mal iluminados. Qualquer pessoa pode ser abordada, arrastada para dentro”, lamenta. Para ficar um pouco mais tranquila, ela costuma buscar a filha na universidade.

Quem protege
O problema de garantir segurança à Ufba já começa no ponto mais básico: quem deve garantir essa segurança. Primeiro porque a Polícia Militar, que é quem faz o policiamento ostensivo na cidade e no estado, não tem poder dentro dos campi. Como se trata de uma área federal, uma instituição estadual – caso da PM – não pode ser a responsável.

O que a PM pode fazer é o policiamento no entorno dos espaços da universidade – ou seja, do lado de fora, em via pública. São as próprias Companhias Independentes dos bairros que recebem campi que fazem esse trabalho, com reforço da Ronda Universitária. Por isso mesmo, a PM informou que não poderia falar sobre segurança na Ufba.

No entanto, diante dos últimos crimes que aconteceram na área interna da instituição, a PM participou de uma reunião, a pedido da Ufba, com o reitor em exercício, Paulo Miguez. “A PM se colocou à disposição para fazer sugestões referentes a melhorias na segurança interna à coordenação de segurança da universidade para que adote modelos preventivos com base na experiência de policiamento ostensivo e preventivo da Polícia Militar”, informaram, em nota.

A Polícia Federal, por sua vez, também não poderia fazer patrulhamento no campus. “É uma polícia judiciária. Ela investiga os crimes que acontecerem na universidade”, explica o diretor da Coseg, Jamil Oliveira. A assessoria da PF não foi localizada, mas em reportagem publicada no último dia 13, a corporação informou que só investiga crimes cometidos em detrimento à União. Dessa forma, casos de assalto, por exemplo, devem ser registrados na 7ª Delegacia (Rio Vermelho) e na 14ª Delegacia (Barra).

Campus de Ondina tem aulas à noite, mas iluminação deixa a desejar
(Foto: Almiro Lopes)

O policiamento no campus ficaria a cargo da empresa de segurança terceirizada pela Ufba – no caso, o grupo MAP. De acordo com o diretor da Coseg, a empresa não faz apenas a segurança patrimonial, cuidando de equipamentos e prédios, mas também de estudantes, professores e servidores técnico-administrativos, inclusive através de rondas com motocicletas e carros.

O grupo MAP também foi procurado, mas não respondeu ao pedido de entrevista até a publicação da reportagem. Já o Ministério da Educação (MEC) informou que a responsabilidade sobre a segurança é da própria Ufba, devido à autonomia das instituições federais garantida por lei.

Eficiência
Professor da Ufba há 20 anos, o vice-presidente da Apub-Sindicato (entidade que representa os docentes na instituição), Ricardo Carvalho também diz que problemas na segurança sempre aconteceram. Antes de lecionar lá, compartilhava a mesma experiência – mas como aluno, entre 1985 e 1990.

“Os estacionamentos sempre foram alvo de sequestro relâmpago, de assalto. Sempre tiveram registros de voyeurismo, de gente estranha entrando no banheiro das meninas. Não é uma situação nova. Agora, o crime sexual, o estupro… Isso não é usual”, diz. Para completar, alguns dos campi da Ufba – como a Escola Politécnica e o de São Lázaro – ficam em áreas próximas a bairros com disputas de facções criminosas.

Mesmo assim, ele diz que não toma nenhuma atitude diferente das que já toma em seu cotidiano, uma vez que a violência já faz parte da rotina da cidade. “Na verdade, minha experiência pessoal é que, no campus, estou mais seguro do que fora dele. Mas tem a questão da mulher. Do ponto de vista geral, a violência se abate mais imediatamente sobre as mulheres”, opina.

Ele admite que, em situações como essa, a reivindicação mais fácil sempre é a de mais patrulhamento. No entanto, a eficiência desse policiamento é questionável; primeiro pela própria disputa de competências.

“Uma solução que seria mais eficiente talvez fosse o uso da inteligência, mas ela deveria ser usada em todos os casos. Não adianta muito você criar uma patrulha ostensiva num campus como a Ufba. Passa uma viatura, você espera cinco minutos para cometer um delito e a viatura passou”. 

Ele defende uma solução que seja global – ou seja, que não se inspire especificamente por essa situação dos estupros, mas à Ufba como um todo. “A violência é sistemática, mas esse caso em especial tem chamado atenção. Não é que tenha uma epidemia de estupros na Ufba. Nossos professores, assim como os estudantes, relatam muitas situações de assaltos. Os diretores estão muito preocupados, em especial, aqueles que dividem espaço com comunidades violentas”.

Mulheres são mais vulneráveis: eram eram alvo preferido de Ramon, preso por três sequestros e estupros
(Foto: Marina Silva)

Histórico
Antes desses três casos de estupro, o último caso de crime sexual que foi noticiado na Ufba aconteceu há exatamente dez anos: em 2008, uma estudante do Instituto de Dança foi violentada por um homem armado. Lá mesmo, na própria universidade, no próprio campus de Ondina. Na época, o Diretório Acadêmico da Escola de Teatro da Ufba divulgou uma nota criticando o então reitor, Naomar de Almeida, que, em entrevista à imprensa, teria apresentado dados somente a respeito da segurança patrimonial da Ufba.

Isso não quer dizer que não tenham existido outras situações em que estudantes ficassem vulneráveis a crimes sexuais. No próprio site da Coordenação de Segurança (Coseg) da Ufba, uma ocorrência tipificada como ‘assédio’ foi registrada no último dia 9. Além disso, não são incomuns os relatos de voyeurismo e de pessoas estranhas observando o banheiro feminino.

 “Ouvi falar também de um homem no banheiro feminino do Instituto de Letras, que segura a porta para meninas entrarem e espera a chance de assediá-las. Isso já aconteceu três vezes, mas as meninas gritaram e outros foram ajudar. Têm câmeras espalhadas pelo prédio, mas ninguém conseguiu identificar o homem”, conta a estudante de secretariado executivo Luciana Cunha, 21.

Os homens também não se sentem seguros. O estudante de teatro Caique Copque, 23, também já teve problemas para usar o banheiro na faculdade. “Já tive que usar no banheiro no último andar de um dos prédios da Ufba, onde a circulação é mais limitada, e tinha um homem se masturbando lá dentro. Hoje tenho medo de voltar lá”, diz.

Caique teme usar um dos banheiros após encontrar homem se masturbando
(Foto: Marina Silva)

Aberta
Tradicionalmente, a Ufba é uma instituição aberta à comunidade. O próprio Estatuto da Ufba defende que ela deve ser mantida “aberta à participação da população”. Porém, isso é justamente o que deixa a estudante de Letras Sara Souza, 21, com medo.  “Um dia estava na aula e um baleiro entrou na sala para vender bala. Foi só um vendedor, mas a sensação é de que poderia ter sido qualquer pessoa”, explica.

Para a estudante de secretariado executivo Luciana Cunha, 21, o ponto mais perigoso é a Escola Politécnica. “Há 15 dias eu estava no ponto de ônibus na Politénica às 12h40 e vi uma menina olhando o horário no celular dela. Dois homens em uma moto pararam no ponto e um deles mostrou que estava armado. Ele não sacou a arma, mas roubou o celular da menina e todo mundo saiu correndo”, diz.

A estudante Lara Andrade, 21, aluna do curso de Biotecnologia, considera arriscada a escadaria entre a Creche da Ufba e a Faculdade de Educação. Como o seu curso é noturno e as aulas, quase sempre, terminam às 22h, andar sozinha até o ponto pode ser arriscado demais.

“Ali é estremamente perigoso. Eu nunca saio da aula sozinha. Tenho que sair da sala até um ponto de ônibus que fica na Faculdade de Medicina acompanhada de um grupo. Como meu curso é unico que está a noite, a gente fica completamente refém”, declara. Outros lugares que devem ser evitados, conta ela, são o estacionamento atrás do Instituto de Biologia, por conta da falta de iluminação, e a escadaria que dá acesso à Politécnica.

O sentimento de insegurança leva muitos alunos a tomarem medidas para se sentirem mais seguros para ir a faculdade. A estudante de Medicina Veterinária Thais Vilar, 19, procura sempre andar com amigas pela Ufba. “A gente vai até no banheiro em grupo”, relata. Sua colega de curso Mila Damasceno, 19, diz optar por alternativas ao andar entre um campus e outro. “Se tenho aula na Federação, prefiro pegar o Buzufba do que andar nas escadas que liga a Ondina porque é mais seguro”, explica.

A estudante de Geografia Josélia Oliveira, 21, já foi assaltada dentro do campus. “Em maio estava saindo do PAF 5 (Pavilhão de Aulas da Federação) a caminho da Escola de Dança e fui abordada por um homem que levou meu celular. Estava muito escuro e deserto. Quando fui fazer o reconhecimento do ladrão, o assalto não tinha sido capturado por nenhuma câmera. Depois disso, fiquei traumatizada e não ando mais sozinha”.

Luciana conta que homem segura a porta do banheiro feminino para assediar mulheres no Instituto de Letras
(Foto: Marina Silva)

Ufba reforça segurança 
A Ufba divulgou, em nota publicada no site da instituição nesta quinta-feira (26), medidas de reforço de segurança em função dos recentes casos de violência nos campi da instituição. Entre as iniciativas estão revisão da iluminação, poda da vegetação, instalação de novas câmeras e reposicionamento das que já existem.

“A segurança é um assunto central e permanente da gestão da Ufba, que vem adotando um conjunto articulado de medidas destinadas a reforçar a segurança da comunidade universitária e da população baiana que frequenta seus campi, preservando, ao mesmo tempo, sua essência de espaço aberto e acolhedor”, diz a nota da Ufba.

Em outro trecho, a Ufba informa que na última sexta-feira, 20 de julho, uma estudante foi vítima de sequestro no estacionamento do Pavilhão de Aulas da Federação V, campus de Ondina.

“A reitoria da UFBA, de imediato, buscou prestar a assistência necessária à vítima, ao tempo em que entrou em contato com a delegacia da Polícia Civil responsável pela apuração do crime e, desde então, colabora ativa e decisivamente com a investigação, fornecendo elementos fundamentais para a conclusão desta, que incluem imagens das câmeras de segurança da universidade. Foram também intensificadas medidas como a revisão da iluminação e poda da vegetação, no local e em todo o campus, instalação de novas câmeras e reposicionamento das já existentes”, informou a Ufba.

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