Historiador denuncia que os mirantes naturais de Salvador estão sumindo

Por Chayenne Guerreiro

Onde existia uma vista bonita, foi construído um edifício

As mais belas vistas de Salvador estão ameaçadas. É o que garante o historiador Ricardo Carvalho. “Não existem dúvidas que daqui a alguns anos, se nada for feito, Salvador perderá todos os seus mirantes naturais. Todas as nossas vistas estão sendo privatizadas”, conta.

Onde existia uma vista bonita, foi construído um edifício, é essa a cena mais recorrente da cidade. De acordo com Carvalho, o grande vilão é a construção civil.

“A privatização da cidade é uma constante. É preciso lembrar que quando falamos em mirantes, estamos nos referindo também a aquelas janelas que nos presenteavam com vistas belíssimas e que hoje não existem mais. Bons exemplos disso são as avenidas Carlos Gomes e o Corredor da Vitória. No primeiro caso, temos prédios feios, malfeitos, que foram usados para comércio popular e moradia, e que hoje escondem uma das maiores belezas naturais da cidade, que é a Baía de Todos-os-Santos. No segundo caso, temos edifícios grandiosos, muito bem construídos, mas que privatizaram toda aquela vista para os moradores dos edifícios. Não existe em todo o Corredor, uma praça sequer, que permita ao verdadeiro dono da cidade, o habitante que paga seus impostos, ver a Baía,” explica o historiador.

De acordo com Carvalho, poucos são os que resistiram à ação do tempo e ao reflexo natural do processo de ocupação de Salvador. “Em bom estado de conservação temos apenas a Praça da Sé, a Cruz Caída, e a Praça Castro Alves. Mas existiam inúmeros outros como o Morro do Ipiranga, Morro do Gato, Morro do Conselho, Alto de Ondina, Mirante dos Aflitos, Mirante da Lapinha, e etc. Hoje eles estão abandonados, em parte por que ou foram ocupados pela construção civil, ou a população não conhece, ou por que realmente deixaram de existir”, afirma.

A grande maioria está coberta de mato e de lixo, sofre com a falta de iluminação e de policiamento. Nenhum deles faz parte do circuito de turismo da cidade, e muitos estão completamente abandonados.

“O poder público não tem noção de como isso empobrece a cidade. Salvador tem um potencial de grandes cidades, pelo mundo a fora, como Atenas e Gênova. Mas, infelizmente, não sabem aproveitar. Nesses lugares é possível encontrar deques, onde existem painéis de informação que contam sobre a historia daquele lugar. Essas vistas estão no circuito de turismo dos guias das cidades e se tornaram pontos de encontro, não só para os turistas como também para os habitantes do local. Imaginem a Castro Alves sem aqueles prédios feios e no lugar, um paredão imenso, com a vista do pôr do sol na Baía de Todos-os-Santos. Salvador se tornaria primeiro lugar no turismo só com isso”, garante Ricardo Carvalho.

Ainda segundo o historiador, é preciso aproveitar o momento de revitalização da cidade para pensar um pouco nessas janelas.

“Os mirantes são importantíssimos para uma cidade com aspecto de Riviera, como Salvador. É importante que essa não seja só uma luta dos historiadores, mas de toda a sociedade. Vamos aproveitar para pedir ao nosso governo que, nesse momento de revitalização da cidade, tenha um olhar carinhoso sobre os mirantes, antes que seja tarde demais, e que todos ele se percam”, afirma o historiador.

Compartilhar